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quinta-feira, 4 junho , 2020

A escravidão em Santa Rita

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O trabalho escravo sempre existiu em vários períodos e com povos diferentes. Mas o que você conhece sobre a escravidão em nossa cidade?

Por Siéllysson Francisco

 

Quem é professor já ouviu a seguinte pergunta: “Houve escravos em Santa Rita?” Particularmente, adoro estimular a reflexão e, sem dá resposta de imediato, solto outro questionamento: “Onde não houve escravos no Brasil?” Desta forma, fica evidente que em todos os momentos do Brasil Colônia e Império houve escravismo em Santa Rita. Localidade que fora chamada no princípio de Distrito Real, depois Cumbe e por último, recebeu o nome da santa das causas impossíveis, Santa Rita, foi terra de engenhos durante mais de quatro séculos. (1)

Se investigarmos os clássicos da historiografia paraibana, como: Sumário das Armadas,(2) Descrição Geral da Capitania Real da Paraíba (3) entre outros, perceberemos que a mão de obra escrava nos engenhos que estavam na várzea do rio Paraíba do Norte era, no princípio, de indígenas, sejam eles aliados (Tabajara), sejam indígenas vencidos (Potiguara). Com o tempo, os senhores foram adquirindo escravos africanos, mas que durante o século XIX, tiveram uma significante redução na Freguesia de Santa Rita, como nos mostra a historiadora Sirleide Dantas Lopes em Presença Escrava na Freguesia de Santa Rita,(4) onde investigou documentos do século XIX, mais precisamente, entre os anos de 1869 a 1888, do Cartório Dourado de Azevedo. Durante o período de 29 anos foram encontrado apensas 48 registros de escravos.

A pergunta é o porquê de uma região açucareira ter tão poucos registros de escravos? Vale salientar que outros autores também já questionaram sobre o número reduzido de escravos africanos na Paraíba do século XIX, então, não há necessariamente um motivo, mas vários, tais como: o fim do tráfico negreiro, ficando mais caro e difícil comprar escravos; o desgaste do trabalho excessivo do escravo fez com que muitos morressem cedo; crise financeira dos senhores de engenhos, devido à concorrência do açúcar internacional, e isso dificultava a compra de novos escravos; a aproximação com Recife, que tinha um comércio mais forte possa ser que muitos tenham sido levados para trabalhar na região de Pernambuco ou terem sido vendidos ilegalmente para lá. Segundo a autora Diana Soares Galliza, em seu livro O declínio da Escravidão na Paraíba (1850-1888),(5) traz um outro motivo para a diminuição do número de escravos africanos aqui, que seria a venda deles para as regiões cafeeiras do sul do Brasil. Outras situações também podem ter agravado como a grande seca de 1877 a 1879 e como bem, nos lembra a historiadora Ariana Mendes de Sá, houve uma epidemia de cólera durante o século XIX e dizimou 10 por cento dos cativos.(6)

Já durante o período da República da Espada, o ministro Rui Barbosa pediu que os cartórios queimassem a documentação relacionada aos antigos escravos, para evitar um pedido de indenização por causa da Lei Áurea. Por que a cidade de Santa Rita permaneceu com esta documentação? Tudo indica que por estar geograficamente longe do Rio de Janeiro, onde essas questões eram mais evidentes, os cartórios da Paraíba não se importaram em destruir as documentações voltadas para a escravidão. Sorte nossa, pois temos melhores informações sobre este terrível período de nossa história.

 

Referências:

  1. SILVA, Siéllysson Francisco da. Santa Rita: a herança cristã do Real ao Cumbe. João Pessoa: Ideia, 2007
  2. SUMÁRIO DAS ARMADAS, 1983, v.1
  3. HERCKMANS, Elias. Descrição geral da Capitania da Paraíba. João Pessoa: A União, 1982
  4. LOPES, Sirleide Dantas. Presença escrava na freguesia de Santa Rita. João Pessoa: Sal da Terra, 2009.
  5. GALLIZA, Diana Soares. O declínio da escravidão na Paraíba (1850 – 1888). João Pessoa: Editora Universitária, 1979.
  6. SÁ, Ariana Norma Mendes de. Escravos, livres e insurgentes na Parahyba (1850-1888). João Pessoa: : Editora Universitária/UFPB, 2005
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Siéllysson Francisco
Siéllysson Francisco é mestre em Ciências das Religiões, Historiador, Cronista e Poeta.

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