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quarta-feira, 12 agosto , 2020

A morte e a melancolia nossa de todo dia

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Acordamos e dormimos com notícias sobre o aumento de mortes na pandemia do Covid-19. A morte está nos cercando, nos rodeia dia após dia. É como se em pouco tempo as notícias boas se extinguissem, porque tudo o que construímos como sociedade perde o valor, pois a estatística de mortes só cresce, aumentando também a nossa angústia na vida e a nossa certeza do quanto somos frágeis e findáveis.

Freud, em seu texto, “Luto e Melancolia” 1 nos diz que o luto tem seu próprio tempo para extinguir-se e passamos a desejar a vida novamente. No caso da melancolia, ela é um luto que se estende, a dor parece não ter fim, é o que percebemos com a nova reflexão sobre a vida, onde a melancolia ou angústia sobre a ideia da morte torna-se constante em nossos dias.

Todos nós perdemos ou conhecemos alguém próximo que tenha morrido de maneira rápida, vítima do Covid-19. Nesses casos, várias etapas do luto são puladas, negadas aos parentes, como: a de velar e enterrar seu morto. Todo luto deve ser vivido, sentido e compreendido por quem o vivencia até se extinguir a dor da perda, no entanto, com as etapas frustradas e negadas devido a pandemia, muitos passam a viver na melancolia, a extensão da dor, o luto que não se finda. Estamos vivenciando uma sociedade doente de melancolia, onde perdemos nosso cotidiano de trabalho, de vivências e passamos a ver a ideia da morte como nunca antes pensada, porque temos a consciência de que somos findos, mas vivemos como se nunca fôssemos morrer. A pandemia nos tirou o véu da ilusão e revelou a face da morte. Como viver com isso?

Viver com a ideia de que somos finitos é viver com sabedoria (uma das 4 virtudes da filosofia grega incorporada ao cristianismo romano), pois a sabedoria nos faz compreender que viver bem dependerá de nossas ações e pensamentos. Segundo Sêneca, filósofo romano 2, para atingir a tranquilidade (temperança) da alma é preciso que saibamos o que está ao nosso controle e o que foge, para não nos angustiarmos com o que não podemos modificar. Trazendo este pensamento para este momento, podemos compreender com nossa razão que o melhor é prevenir-se, cuidar-se, ficar em casa e o que foge de nosso controle é a morte.

É preciso coragem para levantar-se diariamente, organizar um plano para nosso dia, sentir prazer nas coisas cotidianas que só são interrompidas pela dor. Se não há dor, procuremos não nos angustiarmos, cuidemos do nosso dia a dia. Lembro aqui do pensamento de Epicuro, filósofo grego, que diz que vivemos pensando tanto na morte que quando ela vem, já perdemos a vida.

 

REFERÊNCIA:

  1. Texto de Sigmund Freud, “Luto e Melancolia” de 1915 do livro Introdução ao Narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914 – 1915).
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Siéllysson Francisco
Siéllysson Francisco é mestre em Ciências das Religiões, Historiador, Cronista e Poeta.

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