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quarta-feira, 12 agosto , 2020

A quem interessa nossa memória?

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No ano de 1959, com 6 alunos, o estudante do Liceu Paraibano, José Francisco da Silva Filho, formou uma turma para o Curso de Admissão ao Ginásio. Surgia aí o Instituto São Francisco de Assis, que durou cerca de 38 anos. Seu fundador passou a ser conhecido por Professor Francisco de Assis e imortalizado na memória de muitos pelos exuberantes desfiles cívicos e pela qualidade do serviço prestado à educação Santarritense. No ano de 1997, o ISFA fecha suas portas. Em março de 2019, a cidade perdeu um homem público. Eu perdia meu pai.

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Quando morremos não morremos de vez, permanecemos na memória dos que ficam, como certa vez ouvi que “só morremos quando a última pessoa que lembra de nós morre”. Desta forma, entramos no esquecimento natural da sociedade. Entretanto, muito do que somos está nos outros, como: nossos valores, ideias, costumes, que quase sem querer passamos adiante nas pessoas com as quais convivemos.

Além da aparência física, herdei do meu pai (Francisco de Assis) o amor à estética. Acredito que o mundo tem muita coisa para aperfeiçoar e, se podemos trazer beleza às coisas cotidianas, devemos fazer com muito gosto. Meu pai iniciou, na década de 1960, um estilo de desfile cívico como se fosse uma escola de samba, com alas, fantasias, temas, subtemas e assim  por diante, tudo com o máximo de beleza que ele poderia levar para as ruas simples da nossa cidade.

Lembro com detalhes do último desfile de sua escola, no ano de 1984. Recordo que, tarde da noite, meu pai preparava placas com minúcias que me encantavam com tamanha habilidade e pelo belíssimo resultado final. Tanto ele quando eu, encontrávamos na organização de um evento o melhor da festa. Falo “encontrávamos” pois ele não está mais neste plano terreno, mas permanece em muita coisa em mim e em outras pessoas, como seus ex-alunos.

Um dia desses, um ex-aluno dele, já aposentado, me ligou e detalhou o desfile cívico do ano de 1968, onde a extinta escola do meu pai (Instituto São Francisco de Assis – ISFA) trouxera o tema “Os Contos Infantis”. No ano seguinte, levara para as ruas do Centro de nossa cidade toda a trajetória da chegada do homem à lua. Lembrando que o homem chegara à Lua em 20 de julho de 1969. Em menos de 3 meses, ele montou um desfile cívico com este tema.

Onde ele fazia suas pesquisas? Nossa casa era uma das poucas casas que tinha televisão, na década de 1970. Meu pai, durante anos, foi assinante de revistas e jornais, de onde ele tirava possivelmente suas inspirações. Seu ex-aluno emocionado o elogiava por diversas qualidades como ser humano e como homem atualizado e que adorava a estética das coisas. Há algum registro desses dois desfiles? Nada. Diferente de mim, meu pai não era de guardar recordações, registros, de colecionar passado, vivia o presente até mesmo quando passou a ter mais passado do que futuro.

Quando escuto a música “Terminei Indo”, da Banda Mais Bonita da Cidade, lembro dele. “Não tenho tempo para guardar recordações…” Nisso somos bem diferentes. Eu guardo todas as recordações em mim.

Crônica do meu livro ainda inédito O Inevitável

Imagem: acervo pessoal do autor

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Siéllysson Francisco
Siéllysson Francisco é mestre em Ciências das Religiões, Historiador, Cronista e Poeta.

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