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quinta-feira, 3 dezembro , 2020

Olha o dooooce! Assim será para sempre lembrado o Galego do Doce.

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O fim de uma era pessoal

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Ouvíamos seu grito de longe: “Olha o dooooooooooooce!”, e era como se viesse de todos os lados ao mesmo tempo. Ele sempre gritava duas vezes: na primeira, “Olha o dooooooooooooooce!”; na segunda, algo que até hoje soa em minha imaginação e memória como “Olha o doce-ah!”

Era sinal de que nos aproximávamos das duas da tarde. Lá fora, o sol rachava ainda mais o barro batido, chão de nossa rua; e dentro de casa minha mãe corria catando moedas.

“Rápido, rápido”, dizia ofegante, “o véio do doce!”

E era exatamente assim que o víamos já naquela época: o véio do doce.

Ela me punha em mãos algumas moedas e dizia:

“Compre um de coco. De coco, tá? De coco.”

Ela sempre enfatizava o sabor.

Eu saía de casa correndo, sem camisa, desesperado como se minha vida dependesse disso, às vezes alcançando-o quase a dobrar a esquina com seu carrinho.

“Seu galego, tem de quê?”, eu perguntava os sabores mesmo sabendo que 1., minha mãe queria de coco e 2., os sabores eram sempre coco e batata.

Pedia então de coco. Ele cortava o pedaço com sua espátula (ou seria uma faca?), raspando a superfície de alumínio, colocava o doce em um pedaço de papel dobrado, eu lhe entregava as moedinhas tilintantes e voltava pra casa, com cuidado para não derrubar a guloseima. Sendo eu um cliente fiel, ele muitas vezes caprichava, e antes de chegar em casa eu já havia devorado algum pedaço das bordas do doce de coco da minha mãe.

Apenas uma vez comprei de batata, contrariando-a. É que queria provar aquele doce branco, de aparência agradável e textura cremosa, e sabia que ela jamais o permitiria. Tive que mentir:

“Só tinha de batata”, falei, evitando encará-la.

Não sei se ela acreditou ou apenas fingiu acreditar, mas naquela tarde comemos doce de batata, e eu descobri que preferia o de coco.

Antonio Ramos de Oliveira, o “galego do doce”, faleceu. Não sei de quê, não sei se ontem ou hoje (estou longe no tempo e no espaço, as informações aqui me chegam com algum atraso), mas vi nas redes sociais: foi adoçar o céu. Nascido em 1939, não sobreviveu a 2020, o ano da peste. Na imagem que lhe prestava homenagens e comunicava seu passamento, uma máquina do tempo: sua foto, com seu bigode branco, seu chapéu de palha, sua pele queimada de sol. Lembrei não só das inúmeras duas da tarde, mas também das crianças da rua que o imitavam gritando, com ele, “Olha o dooooooooooce!”, ou pulando à sua volta com alegria (seu Dadá, outra lenda do bairro, mas no caso um vendedor de sorvete, era o único que causava efeito semelhante na molecada).

Foi uma sensação estranha por vários motivos: porque percebi que de algum modo o “galego do doce” marca a passagem do tempo em minha própria história. Quando eu era criança, ele passava todos os dias, queimado de sol e sem chapéu; quando eu era adolescente, ele passava de vez em quando e com chapéu; e adulto, poucas vezes o vi passar. Já se vão 35 anos. Talvez o bairro tenha ficado maior ou suas forças diminuído, não sei, mas sei que me alegrava com o fato de sabê-lo vivo. Brincava dizendo que “caminhada faz mesmo bem à saúde”. Descobri-lo morto, agora, me obriga a escrever alguma coisa. E não sendo o suficiente, sugeri a Sandra, minha amiga, que tentasse fazer ecoar, hoje, pelas ruas de Tibiri, o imortal grito de “Olha o dooooooooooooce! Olha o doce-ah!”, o que a meu ver seria uma bela e merecida homenagem. Mesmo que o grito conjunto não ocorra, me agrada imaginá-lo. Que seu Antonio descanse em paz.

* Crônica publicada originalmente como “O fim de uma era pessoal”, por Roberto Denser.

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Redação
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