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Santa Rita e a Cultura Popular

O município de Santa Rita conhecido pela sua extensão territorial, sua zona canavieira e seus históricos engenhos construídos ao longo da várzea do rio Paraíba, desempenhou importantes papéis nos setores econômicos, políticos e culturais que traçaram caminhos para desdobramentos sociais dos quais vivenciamos hoje. No âmbito cultural, o município sempre foi terra fértil, aqui muito se brincou Cavalo Marinho, Babau, Coco de Roda e Ciranda. Durante o período carnavalesco, se via tribos indígenas e ala ursas caracterizando, principalmente, o mês de fevereiro. Essas expressões populares não desapareceram completamente na cidade, mas algumas continuam se mantendo com dificuldade e muita resistência.

Em Forte Velho, o saudoso Mestre coquista Jove ou Jorge, como era conhecido, assim como Mestre Tuninha, ambos antigos moradores da comunidade, eram os tiradores de versos e tocadores de Coco e Ciranda que animavam as noites de brincadeira no local, e como tradição, o bombo começava a ser tocado a noite e ecoava até o raiar do dia. Atualmente, os Mestres Naelson e Junior, comandam os dois grupos existentes na comunidade, mantendo o legado e a memória da cultura local. Lamentavelmente, a maior parte da população santarritense não conhece os grupos de cultura popular que nasceram na cidade, visto que estes e tantos outros grupos, penam ao esperar por algum espaço para se apresentarem nos eventos promovidos na cidade. O grupo do Mestre Naelson, nos últimos anos, fez pequenas apresentações que não ultrapassaram 15min no Festival de Quadrilhas Juninas, ou seja, se apresentaram uma vez por ano à convite da gestão, diferentemente do que acontece no quintal do Mestre, onde o coco promovido por ele, acontece por horas.

Apresentação do Cavalo Marinho de Várzea Nova dos Mestres Neco e Zequinha (Fonte: Acervo pessoal da Professora Josane Cristina)

Em Várzea Nova, quando o bairro ainda era considerado um povoado, na década de 90, o babau, organizado pelo Mestre Dão, o coco e a ciranda pelo Mestre Cícero (foi reconhecido como Mestre das Artes e era um dos maiores ‘fazedores’ de bombo/zabumba do Estado) e pela Mestra Nina, assim como, o Cavalo Marinho dos Mestres Neco e Zequinha resistiam no local. Os Mestres de Cavalo Marinho, mesmo diante de todas as dificuldades e a falta de apoio, (situação que enfrentavam todos os outros brincantes) faziam o espetáculo acontecer. E por conta própria, faziam gambiarras com o objetivo de solucionar a precária iluminação pública, vestiam suas golas enfeitadas com fitas coloridas e pequenos espelhos, colocavam em suas cabeças coroas e proporcionavam ao público presente, o que Mário de Andrade apontou como “a mais complexa, estranha, original de todas as nossas danças dramáticas”. O Cavalo Marinho de Várzea Nova, hoje, existe apenas na memória daqueles que tiveram o privilégio de assistir ao espetáculo. Os mestres citados tornaram-se grandes referências para os brincantes de Cavalo Marinho do Estado da Paraíba.

Acontece que por volta dos anos de 1996/97, o grupo se desfazia, pois além das dificuldades em manter a brincadeira e de esperarem promessas nunca cumpridas, de acordo com o pesquisador Werber Pereira, as figuras do boi e do bode foram destruídas pelas chuvas caídas em 1996, comprometendo o funcionamento da brincadeira. Em relação ao babau que citei do Mestre Dão, infelizmente, também deixou de existir. A Tribo Indígena da qual aqui também mencionei, é a Tupi Guanabara, sediada no Alto das Populares, da qual tenho os desfiles guardados na minha caixinha de memórias de infância, é outra expressão cultural que a falta de incentivo público fez desaparecer do carnaval da cidade, o que a levou a se vincular à capital para participar dos desfiles do carnaval tradição de João Pessoa, mantendo assim, a Tribo ativa.

Apresentação de Mamulengos (Babau) do Mestre Dão em Várzea Nova (Fonte: Acervo pessoal da Professora Josane Cristina)

Apesar das brincadeiras que deixaram de existir, a efervescência e a diversidade cultural de Várzea Nova e de outras localidades de Santa Rita não foi totalmente apagada, isto devido a luta dos brincantes, pois aqui ainda pulsa quadrilha junina, ala ursas, o coco e a ciranda da Mestra Penha que através de sua voz potente emociona até quem nunca entrou na roda. Desta forma, percebemos através desses folguedos, uma das identidades culturais do município que estão entrelaçadas com sua formação e sua história.

Em outras cidades espalhadas pelo Nordeste essas brincadeiras estão presentes e foram reconhecidas pelo que representam historicamente, assim como, pela beleza das toadas, pela pisada, pelo improviso nos versos, pela pancada no bombo que é singular em cada Mestre/a e em cada grupo, essas expressões foram tiradas da invisibilidade para ocupar o lugar que sempre lhes couberam, a do palco e dos aplausos, como deve ser em todo bom espetáculo, atraindo ainda, muitos turistas e brincantes do Brasil inteiro. Depois de tantos anos de apagamento das culturas populares, ainda torna-se necessário dizer que precisamos conhecer, reconhecer e valorizar. Ei, Santa Rita, salve a cultura popular!