Há uma semana vi a imagem de Santa Rita de Cássia sendo posta na praça Getúlio Vargas, em frente ao santuário de Santa Rita, lembrei-me das mudanças que a igreja matriz passou logo após a festa da padroeira de 1931 e da tragédia que chocou os católicos da época.
O Monsenhor Melibeu dirigiu a paróquia de Santa Rita por 10 anos, desde 01 de janeiro de 1921 até o dia de sua morte 09 de agosto de 1931. Um homem culto, com um gosto apurado, tinha sido reitor do Seminário Diocesano do Belém do Pará antes de ser pároco em Santa Rita. No ano de 1929 começou as alterações para embelezamento da capela de Santa Rita de Cássia que viria ser elevada, num futuro muito próximo, à categoria de Matriz do município, em 1939. Entretanto, ele não chegou a ver os seus planos concretizados, conseguiu apenas modificar o interior da igreja de Santa Rita

O projeto arquitetônico para a Matriz de Santa Rita teria o objetivo enriquecer esteticamente a singela capela que ainda permanecia com as características do maneirismo rural, hoje chamado de estilo chão, paredes grossas e poucas janelas. Ele iniciou as alterações internas, destruindo os altares laterais e o altar-mor de madeira, sendo os mesmos refeitos em alvenaria com acréscimos de mais quatro altares laterais. O altar-mor foi obra do seu segundo sucessor: Mons. Rafael de Barros que o concebeu com mais detalhes do que a obra desenhada por Mons. Melibeu.
As reformas mobilizaram toda a comunidade católica, que traziam materiais de construção em procissões a pedido do Mons. Melibeu. Mesmo com todo o empenho deste pároco, o mesmo não seria poupado de calúnias de desvio do dinheiro da paróquia arrecadada na festa da padroeira de 1931, este fato permaneceu na memória dos mais velhos santarritenses, porém os contemporâneos de sua época não descreveram este fato, como é o caso do cronista e jornalista experimental Lapemberg Medeiros, este não deixou nada sobre essa injúria, nem no Anuário Informativo do Município de Santa Rita de 1937, nem em seus manuscritos de 1948, porém ressalta a integridade do monsenhor como se quisesse justificar a honestidade deste padre aos santarritritenses da época: “desempenhou Mons. Melibeu uma administração fecunda e honesta, revela-se um dirigente incansável”.
Em seus escritos são distribuídos inúmeros elogios, incluindo a sua distância na política local e à ausência em mexericos. Percebemos um traço psicológico do Monsenhor Melibeu que seria a introspecção. “Apesar do seu singular retraimento pouco frequentando os meios sociais e conservando-se sempre distanciado da política, das lutas partidárias” relembra Lapemberg.
Em continuação aos elogios, o descreveu como um homem admirado pela paróquia por seu dinamismo naquilo que lhe era vocação e na administração da igreja.Os planos de reforma do Mons. Melibeu tomou outras cores e formas, agora da personalidade do seu segundo sucessor, Mons. Rafael de Barros, em 15 de novembro de 1931, ficando com a responsabilidade de edificar o sonho do Mons. Melibeu.
Segue com as alterações internas do altar-mor e deu início a construção da torre da Matriz, no dia 26 de outubro de 1931, faltando apenas seis dias para completar um ano da obra, fora concluída. Depois de dois anos é colocado o relógio na torre.

A inauguração ocorreu em 01 de novembro de 1932, com festa solene contando com a presença do Mons. Francisco Severino de Figueiredo, pároco que esteve na frente da paróquia de Santa Rita em um curto período de tempo antes do Mons. Rafael de Barros tomar à frente da Paróquia.Se for verdade sobre o fato das calúnias terem sido o motivo do enfarto do pároco Melibeu, este amargou lentamente até seu coração não aguentar enfartando em 09 de agosto de 1931.
A MORTE
Segundo o coronista Lapemberg (1948) a morte do Mons. Melibeu ocorreu no dia 26 de outubro de 1931, mas nos manuscritos do Mons. Rafael de Barros no Livro de Tombo, pág. 53, a morte do Mons. Melibeu ocorreu em 09 de agosto de 1931. Quando realizei esta pesquisa não tive acesso ao atestado de óbito do mesmo.
AS HOMENAGENS PÓSTUMAS
As associações religiosas prestigiaram o seu ex-pároco dedicando um dos corredores da Igreja Matriz com seu nome numa festa solene onde foi exibida imagem do Mons. no corredor da igreja. Quando Marcos Odilon escreveu sobre Mons. Melibeu (2004, pág. 182) disse: “Durante muitos anos, vi na sacristia da igreja Matriz de Santa Rita, uma fotografia de meio metro do Monsenhor Melibeu, na parede”. Esta imagem continua no mesmo lugar até os dias atuais. Durante o governo de João Crisóstomo (1955 – 1959) homenageia ao pároco com um busto na Praça da rua do rio. E hoje temos uma rua com seu nome no bairro da Liberdade.
Siéllysson Francisco É autor de “O Lado negro da fé: irmandades de Areia e de Santa Rita do século XIX” (2010) e “Crônicas” (2013)
FONTE DE PESQUISA:
Anuário informativo do município de Santa Rita de 1937 – Lapemberg Medeiros
Santa Rita em memórias – José de Arimatéa
Santa Rita de ontem e hoje – Marcos Odilon
Santa Rita a herança cristã do Real ao Cumbe – Siéllysson Francisco
DOCUMENTOS
Manuscritos de Lampemberg Medeiros de 1948
Livro de Tombo da Matriz de Santa Rita.