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A Mecânica do Pensamento

O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio

Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano Igor Gregório

Data: Dezesseis de outubro de dois mil e vinte quatro

Título: A Mecânica do Pensamento

Levei meu carro numa oficina para consertar a suspensão traseira. Talvez essa seja a milésima vez que, como as escolhas desastrosas de minha vida, preciso consertá-la. Meu carro possui este problema cíclico. Quem não possui um desses, não é mesmo? Enfim. O mecânico, um jovem, filho do dono da oficina, deduzi o parentesco pelo tamanho e aparência de ambos (que podiam ser facilmente associados a qualquer desenho infantil) me falou: “Aguarde aí que já vejo seu problema”!

Aguardei. Aguardei. Sinais dos tempos: Apanhei o meu aparelho celular e busquei distração enquanto aguardava os séculos passarem nos bancos sujos da oficina. Era perto da hora do almoço. Um aroma delicioso de churrasco espancava meu nariz com voracidade. Aguardei. Aguardei. Me cansei do celular e comtemplei o trabalho do jovem mecânico. Ele me parecia imerso em algum lugar distante enquanto trocava as quatro rodas de um carro. Pensei com meus botões (talvez precisemos de um novo ditado para pensamentos internos, pois quase ninguém possui botões em suas roupas hoje em dia): “O que será que ele está pensando”?

Seus olhos exibiam pensamentos que iam além dos pensamentos técnicos necessários para trocar rodas de carros. Pareciam imersos na mesma concentração libertária de uma criança de seis anos ao brincar com seus brinquedos favoritos. Seus pensamentos pareciam não-pensamentos. E isso se traduz em não-preocupações. E vai se traduzindo em boiar em um oceano sem ondas, mirando somente a imensidão celeste acima e, por vezes, confundindo-se entre o céu e mar. Por fim, se traduz na ausência do tempo: Sem preocupações com passado, presente e futuro.

Talvez o jovem mecânico emitisse esse olhar mecanicamente, sem perceber que, ao executar o seu trabalho com uma certa paixão, o retirasse inevitavelmente dos demais pensamentos e preocupações diárias. Mas acho eu que ele tinha consciência disso, pois vez por outra o vi um pequeno sorriso recortar o seu rosto de forma cartunesca. E um sorriso involuntário no meio do trabalho, maçante, repetitivo, cansativo, enfadonho e diário é sempre, sempre, sempre o sinônimo desta abstração do exterior.

Já senti isso, como citei acima na comparação, lá pelos meus seis anos de idade. Eu tinha um campo de futebol de botões (mais uma vez botões obsoletos. Quem ainda brinca com isso hoje em dia?) e neste campo, em suas costas, na parte lisa da madeira, desenhei ruas, garagens, sinais e faixas de trânsito. Chegando da escola, almoçava e depois corria para brincar com meus carrinhos nesta cidade fictícia. Meus olhos? Emitiam o mesmo olhar do jovem mecânico. Não havia nenhum pensamento ou preocupação além de eu estacionar meu carrinho na garagem certa. Hoje sou adulto. Não consigo mais ter um segundo deste sentimento em minha mente: A despreocupação total!

O jovem mecânico, talvez por não ter patrão, talvez por ainda estar vivendo seus “aéreos anos de juventude”, talvez por trabalhar com o que gosta, consegue ter ainda o que há muito perdi. Hoje, até aqui, escrevendo, estou preocupado com tudo que tenho que fazer hoje à noite. Não há mais o vazio! E o vazio, traduzindo-se na abstração total deste mundo repleto de deveres, horários e datas, é uma das coisas mais preciosas que existem. Então quem possui que dê valor!

Igor Gregório
Igor Gregório
Nasceu na Parahyba. Escritor por vocação, já publicou vinte e um Folhetos de Cordéis, chegando a ser contemplado com premiações estaduais. Em 2023 publicou seu primeiro de livro de poemas: Alma-de-Gato no Voo da Alvorada. Além do trabalho impresso, tem uma produção ativa nas redes sociais, colunas e em saraus.