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Carta ao Preconceito

Preconceito,

Não começo esta carta com “Prezado”, “Querido” ou “Caro”. Afinal, você está longe de ser algo estimado. Nem mesmo com “Senhor”, pois algo tão desprezível não merece meu respeito.

Eu me sinto muito triste de ter que lhe escrever. E mais, ainda, por saber de sua existência. Sim, em pleno século XXI, quando nós, seres humanos, estamos tão mais “evoluídos”, mais “informados”, tendo acesso a tantos conhecimentos e meios, eu realmente achava que você não existiria mais. Engano meu, infelizmente.

Nessa semana, você me deu um “soco no estômago”, e doeu muito. Mas minha dor nem se compara à daquela mãe com a qual eu conversei. Explico: nessa semana, uma grande amiga me confidenciou que ensinou o filho a jamais correr dentro de um supermercado. Isso porque ele é negro, e ela tem medo de que, ao fazer isto, ele possa ser interpretado como um ladrão que está furtando algo.

Na hora que ouvi, tentei me manter forte, sabe? Eu imaginei o quanto deve ter sido sofrido para uma mãe explicar isso a um filho; então, não queria que ela visse meu coração tão apertado. E sabe o que é pior? É a sensação de impotência que senti enquanto ela me confidenciava algo tão difícil para ela. Tudo por sua culpa, Preconceito. Você mesmo, que insiste em morar nas pessoas.

E como mães – somos uma rede de mulheres que se abraçam, acolhem, partilham e se solidarizam –, sei o que essa minha amiga sentia, porque também venho me preparando há algum tempo para enfrentar você.

Sou mãe de uma criança linda, de três anos, que tem deficiência. Meu filho nasceu com síndrome de Down e tem um longo caminho a percorrer na vida para se desenvolver e fazer tudo que ele quiser (estudar, trabalhar, namorar, casar etc.). Mas, você, Preconceito, vai nos rondar. Você, tomando a cabeça e o coração das pessoas, poderá nos fazer vítimas de sua ação. Porém, como mãe leoa, que defende seus filhotes, estou aqui, firme e de pé, para combater você, defender meu filho e dar forças e condições para que ele mesmo também o enfrente e mostre como é maior e mais forte que você. Então, prepare-se, pois não ficaremos na posição passiva e de vítima.

Na minha opinião, Preconceito, você existe por dois motivos. O primeiro, por falta de informação. As pessoas, apesar de tantas fontes e meios, cercadas pela correria do dia a dia, ainda não se informam sobre muitas coisas, não é? E sem conhecimento específico e aprofundado sobre algo ou alguém, elas constroem um pré-conceito e emitem uma opinião, sem, ao menos, mergulhar-se no assunto, sem dar oportunidade de conhecê-lo. O segundo motivo é a convivência com o “diferente”: vivemos tão “normalizados com o padrão”, que quando algo foge do que estamos acostumados e do que foi nos ditado como “típico”, excluímos, tirando a liberdade e o direito de o outro ser como ele é ou quiser.

Que triste!

Saiba que o mundo que desejamos para nossos filhos é aquele no qual as crianças possam correr e brincar onde elas quiserem. É aquele em que, ao sair na rua com meu filho, as pessoas possam sorrir e olhar para ele apreciando a beleza que ele tem, e não com espanto vendo o rostinho diferente que ele possui. É aquele no qual a diversidade é bem-vinda, celebrada e considerada uma riqueza. É aquele no qual ser diferente é ser “normal”, e está tudo bem ser assim!

Em nome de todas as mães de filhos pretos, brancos, pardos, amarelos e indígenas; altos e baixos; magros e gordos; com ou sem religião; politizados ou não; com ou sem deficiências; peço que nos deixe em paz, Preconceito! Deixe nossos filhos serem o que eles quiserem. Deixe que eles cresçam cercados por respeito (porque amor, nós, mães e pais, já temos de sobra para dar). Deixa que eles vivam sem ter que enxugarem as lágrimas que você provoca. O ser humano nasce com o coração repleto de amor, inocência, carinho e respeito. Não os roube.

Término esta carta pedindo para que, ao partir, não volte nunca mais. Mas sei que esta despedida ainda pode demorar. Não tem problema: eu e muitas outras pessoas estamos preparadas para enfrentá-lo. Acredito, de todo o coração, que um dia venceremos você, em nome do meu filho, dos filhos dos outros e em nome de todas as diferenças!

Simone

Simone Habel
Simone Habel
Simone Habel: Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo. Pós-graduada em Comunicação Empresarial e em Gerenciamento de Projetos. Tem experiência como assessora de imprensa e comunicação, redatora e revisora. Jornalista voluntária no Instituto Down 2000 e mãe de um lindo rapazinho