Em um belo dia, você acorda com vontade de experimentar algo novo, um prato com sabor gostoso, que provoca brilhos nos olhos e prazer no coração. Aquele desejo não sai da sua cabeça. Você pensa no gosto que aquela sobremesa diferente pode proporcionar a você: a sensação, o paladar, os sentimentos bons. Hum… mas você nunca fez um prato como esse antes. Não tem problema, você pode conseguir, por que não? Tantas pessoas conseguem… Está decidido: você vai à cozinha, vai criar uma receita e vai fazer um delicioso bolo de coco!
Primeiro, você verifica os ingredientes. Confere os itens necessários e todo o ambiente para a criação. Tudo está ok e em perfeitas condições! Também é importante pegar algumas dicas de outras pessoas mais experientes para usar na sua criação. Feito! Agora, é hora de unir os ingredientes, misturando-os em uma perfeita sintonia. Pronto! Está criado.
Para finalizar, você coloca a massa do bolo no forno. É hora de esperar. E a espera sempre gera ansiedade e borboletas no estômago. Você fica imaginando como será a aparência do bolo, se ele será bom, se você conseguirá dar conta de fazê-lo novamente, se você seguiu todos os passos certos, se… se… e mais se… A massa cresce, e a esperança também.
Passados 40 minutos, que mais se parecem 9 meses, é chegada a hora. Você olha com muita felicidade para aquela criação – sim, você conseguiu, você foi capaz! A princípio, ao admirar mais detalhadamente, você percebe que ele tem uma aparência distinta, mas tudo bem. Continua lindo, só tem uma beleza diferente.
É hora de ter a sobremesa para você. E, de repente, ao tê-la em suas mãos… SURPRESA! Ao parti-la, você descobre que aquele não era exatamente o bolo de coco que você sonhou e planejou, com aquele sabor que você tanto queria e desejava. E agora? O que eu faço com ele? (continua…)
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Muitas pessoas me perguntam como é ter um filho com síndrome de Down e como descobri que ele tinha essa alteração genética (as que ainda não perguntaram, provavelmente, já tiveram curiosidade, só não coragem de fazê-lo). E acho que essa metáfora ilustra bem.
Sim… senti a vontade de ter um filho, sonhei, desejei e me preparei. Quando ele nasceu, ainda aguardando pela sua chegada no quarto do hospital, recebi a notícia. Fiz um plano, mas a vida resolver escrever outro. E tudo que é inesperado causa medo, ansiedade e conflito – e pode até causar tristeza.
Foi preciso aceitar a minha decepção, o luto daquele filho idealizado nove meses, o luto de todos os planos que eu havia feito. E essa aceitação é diária, não acontece de um dia para outro. É uma construção, assim como tudo na vida.
E como diz o ditado, “do luto, vamos à luta”. Todo santo dia por aqui é uma luta. E isso não é só para mães de crianças com deficiência e síndromes (como é meu caso); é para qualquer mulher que assume a missão de ser mãe e se dedica de peito aberto e alma leve para isso. Mas confesso que, para nós, especificamente, é um pouco mais difícil.
É muito esforço, expectativa, estímulo e trabalho. Médicos, especialistas e profissionais. Estudos, investigações e pesquisas. Tentativas, erros e acertos. Em alguns dias, durmo chorando agradecendo a Deus pelas bênçãos; em outros, minhas lágrimas são de pedido de socorro divino, porque sinto que minhas forças estão se esgotando. Mas, em todos eles, o amor está lá – escondido ou explícito, está.
Acredito que, talvez, a receita para uma mãe desfrutar com prazer o seu maternal seja esta: viver cada dia, lutar cada dia, chorar e sorrir cada dia, sabendo que tudo passa: os bons, mas também os maus momentos. Porque você pode cansar, gritar, achar-se fraca e que não conseguirá, mas ao ouvir aquela risadinha pela casa, ao olhar aquele sorriso cheio de dentinhos, ou ao receber o toque daquela mãozinha tão lisa e suave no seu rosto, você recebe seu pagamento e se recarrega… recarrega para lutar no dia seguinte, porque ainda temos muitas batalhas pela frente.
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(continuando…)
E, então, o que você faz com aquela sobremesa que não era a esperada? Você assume sua criação, para si e para o mundo, e decide experimentar e experienciar. E, ao fazer isso, você descobre que realmente não é aquele bolo de coco que você sonhou, mas ele se tornou um… PUDIM! Sim, um pudim! Com sabor e aparência diferentes sim, mas ele também é incrivelmente delicioso. Bastou se dar oportunidade de provar o diferente.
Meu filho, meu pudim de coco, desejo que seus dias sejam tão saborosos e deliciosos quanto é a vida ao seu lado.
*Em homenagem a Emily Perl Knisley, que trouxe sabor ao meu coração (1987).