25 C
Santa Rita
terça-feira, 1 dezembro , 2020

Quando experimentei uma nova receita

-

- Publicidade -

Em um belo dia, você acorda com vontade de experimentar algo novo, um prato com sabor gostoso, que provoca brilhos nos olhos e prazer no coração. Aquele desejo não sai da sua cabeça. Você pensa no gosto que aquela sobremesa diferente pode proporcionar a você: a sensação, o paladar, os sentimentos bons. Hum… mas você nunca fez um prato como esse antes. Não tem problema, você pode conseguir, por que não? Tantas pessoas conseguem… Está decidido: você vai à cozinha, vai criar uma receita e vai fazer um delicioso bolo de coco!

Primeiro, você verifica os ingredientes. Confere os itens necessários e todo o ambiente para a criação. Tudo está ok e em perfeitas condições! Também é importante pegar algumas dicas de outras pessoas mais experientes para usar na sua criação. Feito! Agora, é hora de unir os ingredientes, misturando-os em uma perfeita sintonia. Pronto! Está criado.

Para finalizar, você coloca a massa do bolo no forno. É hora de esperar. E a espera sempre gera ansiedade e borboletas no estômago. Você fica imaginando como será a aparência do bolo, se ele será bom, se você conseguirá dar conta de fazê-lo novamente, se você seguiu todos os passos certos, se… se… e mais se… A massa cresce, e a esperança também.

Passados 40 minutos, que mais se parecem 9 meses, é chegada a hora. Você  olha com muita felicidade para aquela criação – sim, você conseguiu, você foi capaz! A princípio, ao admirar mais detalhadamente, você percebe que ele tem uma aparência distinta, mas tudo bem. Continua lindo, só tem uma beleza diferente.

É hora de ter a sobremesa para você. E, de repente, ao tê-la em suas mãos… SURPRESA! Ao parti-la, você descobre que aquele não era exatamente o bolo de coco que você sonhou e planejou, com aquele sabor que você tanto queria e desejava. E agora? O que eu faço com ele? (continua…)

****
Muitas pessoas me perguntam como é ter um filho com síndrome de Down e como descobri que ele tinha essa alteração genética (as que ainda não perguntaram, provavelmente, já tiveram curiosidade, só não coragem de fazê-lo). E acho que essa metáfora ilustra bem.

Sim… senti a vontade de ter um filho, sonhei, desejei e me preparei. Quando ele nasceu, ainda aguardando pela sua chegada no quarto do hospital, recebi a notícia. Fiz um plano, mas a vida resolver escrever outro. E tudo que é inesperado causa medo, ansiedade e conflito – e pode até causar tristeza.

Foi preciso aceitar a minha decepção, o luto daquele filho idealizado nove meses, o luto de todos os planos que eu havia feito. E essa aceitação é diária, não acontece de um dia para outro. É uma construção, assim como tudo na vida.

E como diz o ditado, “do luto, vamos à luta”. Todo santo dia por aqui é uma luta. E isso não é só para mães de crianças com deficiência e síndromes (como é meu caso); é para qualquer mulher que assume a missão de ser mãe e se dedica de peito aberto e alma leve para isso. Mas confesso que, para nós, especificamente, é um pouco mais difícil.

É muito esforço, expectativa, estímulo e trabalho. Médicos, especialistas e profissionais. Estudos, investigações e pesquisas. Tentativas, erros e acertos. Em alguns dias, durmo chorando agradecendo a Deus pelas bênçãos; em outros, minhas lágrimas são de pedido de socorro divino, porque sinto que minhas forças estão se esgotando. Mas, em todos eles, o amor está lá – escondido ou explícito, está.

Acredito que, talvez, a receita para uma mãe desfrutar com prazer o seu maternar seja esta: viver cada dia, lutar cada dia, chorar e sorrir cada dia, sabendo que tudo passa: os bons, mas também os maus momentos. Porque você pode cansar, gritar, achar-se fraca e que não conseguirá, mas ao ouvir aquela risadinha pela casa, ao olhar aquele sorriso cheio de dentinhos, ou ao receber o toque daquela mãozinha tão lisa e suave no seu rosto, você recebe seu pagamento e se recarrega… recarrega para lutar no dia seguinte, porque ainda temos muitas batalhas pela frente.

********
(continuando…)

E, então, o que você faz com aquela sobremesa que não era a esperada? Você assume sua criação, para si e para o mundo, e decide experimentar e experienciar. E, ao fazer isso, você descobre que realmente não é aquele bolo de coco que você sonhou, mas ele se tornou um… PUDIM! Sim, um pudim! Com sabor e aparência diferentes sim, mas ele também é incrivelmente delicioso. Bastou se dar oportunidade de provar o diferente.

Meu filho, meu pudim de coco, desejo que seus dias sejam tão saborosos e deliciosos quanto é a vida ao seu lado.

 

*Em homenagem a Emily Perl, que trouxe sabor ao meu coração (1987).

- Publicidade -
Simone Habel
Simone Habel
Simone Habel: Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo. Pós-graduada em Comunicação Empresarial e em Gerenciamento de Projetos. Tem experiência como assessora de imprensa e comunicação, redatora e revisora. Jornalista voluntária no Instituto Down 2000 e mãe de um lindo rapazinho de três anos.

11 COMENTÁRIOS

  1. Realmente a experiência É inusitada! Mas esse amor e essa criatividade são transformadores ! Deus continue a lhe iluminar e amparar, ajudando os semelhantes com a sua história de vida!

  2. Amei ler esse texto. Muito criativo e surpreendente. Tão surpreendente quanto a descoberta de uma gravidez e e a descoberta de uma diferença no filho. Porém, o mais surpreendente é ver uma mãe nascer e descobrir que o amor e capaz de tudo . Vá degustando seu docinho de coco. Parabéns pelo texto e por você mesma.

  3. A vida não tem receita pronta. Se tivesse onde haveria a graça de experimentar o sabor diferente dos ingredientes que Deus nos coloca às mãos? Mas o Mestre está lá, confiando em nós, esperando que combinemos nossos ingredientes para colocar à mesa o melhor que temos feito, para deleite dos que amamos.

  4. Lindo texto. As surpresas que a vida nos reserva vêm sempre cheias de lições e oportunidades. Deus está presente no bolo de coco e nos dá de presente o pudim de coco. Bjos

  5. Mais um texto que nos captura já nas primeiras linhas e vai ativando nossas emoções mais bonitas. Adorei a comparação da maternidade com a experimentação de novas receitas. A propósito, quantas delas não saem conforme as expectativas e, justamente por isso, são maravilhosas e inesquecíveis, né?! Parabéns pelo texto, Si.

  6. A estrutura do texto, com sua quebra de vida real no meio da parábola, ficou incrementada. Foi acerto em cheio, ou melhor, foi o fermento literário. Eu me surpreendi, pois achei que ficaríamos apenas no campo do subentendido e do velado. No entanto, a beleza da narrativa está em parir todas as nuances, sem medo, sem amarras, sem culpa.

    Apesar das dores, das tentativas, da dúvida, eis um relato de otimismo. E por que não de fé? Tem inúmeras partes que conversam profundo com nossa humanidade. E eu me apaixonei pelo verbo “maternar”. É criação sua? Ou o Volp já adotou (por sinal, credito a essa brilhante autora o aprendizado de se consultá-lo)?

  7. Temos altos e baixos, alegrias e tristezas, mas com força e fé, vamos nos superando e dia a dia nos descobrindo e fortalecendo com todos os ensinamentos que a vida nos proporciona. Sua sinceridade certamente contribui muito na vida de muitas pessoas. Parabéns!

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário
Digite o seu nome

Laia Também

Quando experimentei uma nova receita

Em um belo dia, você acorda com vontade de...

Carta ao Preconceito

Preconceito,   Não começo esta carta com “Prezado”, “Querido” ou “Caro”....

Diário de uma mãe de primeira viagem – parte II

Há alguns dias, estava assistindo a um programa na...

Diário de uma mãe de primeira viagem – parte I

Sempre ouvi dizer que “Quando nasce um bebê, nasce...