InícioColunaA Religião dos Livros ou um Manual para Sebistas

A Religião dos Livros ou um Manual para Sebistas

Não há coisa mais íntima do que confessar que se escreveu um livro sobre a própria doença. Em A pele da minha casa, descrevi com vagar e sem vergonha a minha relação orgânica — quase carnal — com o objeto que, pouco a pouco, toma cada centímetro disponível da casa. Há ali uma seção inteira dedicada aos meus vícios literários de segunda ordem: a chamada “Livros sobre livros”. Ali vivem Alberto Manguel, Umberto Eco, Jorge Carrión, Irene Vallejo, José Mindlin. São os meus santos protetores, os que compreendem sem julgar.

Foi por essa fenda de devoção que, no ano passado, surgiu um novo nome. Rolava o Instagram — esse confessionário moderno onde se exibem pecados de consumo cultural — quando minha conterrânea Margot Félix, há muito radicada em Portugal, publicou os livros que acabara de adquirir. No canto da foto, um título me fulminou: A religião dos livros: alfarrabistas, livrarias e livreiros, de Carlos Maria Bolone, jovem livreiro português. Desconhecido e, por isso mesmo, irresistível.

A busca começou com a certeza ingênua de que a internet resolveria tudo. Amazon? Nada. Estante Virtual? Nem sombra. Livrarias brasileiras? Silêncio. Encontrei o livro em algumas livrarias portuguesas, sim. Mas o frete — ah, o frete — era uma criatura mitológica: de poucos euros o livro, a taxa de envio para o Brasil multiplicavam o valor por sete. Pisão no freio na hora. Não, não compensava.

Foi então que a Providência (ou o acaso, ou o karma dos bibliômanos) entrou em cena. Minha esposa tem um amigo, o historiador pernambucano Jaime Guimarães Jr., que na época se preparava para um doutorado sanduíche na Universidade do Porto. Portugal. Na hora lhe passei um WhatsApp com título, autor e o print da capa. Pouco pedi; ele pouco prometeu. Apenas disse: “Vou tentar encontrar nos meus passeios pelas livrarias.”

Semanas depois, a mensagem que não esperava, mas que já sabia que chegaria: “Encontrei. Na Livraria Bertrand. Um exemplar. Estava te esperando.” Um único exemplar, numa livraria do Porto, esperando por mim. Dá para não acreditar? Dá. Mas acontece. Jaime voltou ao Brasil meses depois, o livro na mala. A entrega foi feita por uma amiga em comum — mais uma vez, amiga da minha esposa —, a Camila, que num café fez a ponte final. Mão a mão, sem rastros, sem frete. A operação parecia de contrabando, mas era apenas de amor. E de amizade.

Li A religião dos livros em dois ou três dias. Noventa e três páginas, onze capítulos curtos. Uma delicadeza de edição, que casa perfeitamente com a delicadeza do tema. Mas engano pensar que se trata de um livro miúdo e superficial. Carlos Maria Bolone, com a desenvoltura de quem conhece o ofício por dentro, tece uma reflexão densa sobre o ecossistema literário português — e, por extensão, sobre qualquer ecossistema livreiro.

Ele começa por desmontar um mito caro a certos frequentadores de sebos românticos: o livreiro como herói da resistência cultural, guardião solitário da chama das letras. “Poucos se distinguem por uma metafísica paixão pelas letras”, escreve Bolone. “O modelo do alfarrabista ou do livreiro foi sempre o modelo da normalidade.” O livreiro não é um excêntrico de camiseta puída; é um comerciante. Ponto. Alívio imediato para quem, como eu, já se sentiu mal por não ver aura dourada em torno de cada sebo.

Outro mito derrubado é o da falência generalizada. “Há livrarias que, apesar do pó, ainda respiram à vontade”, afirma. E é verdade: o número de pontos físicos diminuiu, sim, mas explode o número de vendedores de livros usados na internet. O sebista se modernizou. O pó continua, mas o Pix chegou.

O autor dedica atenção especial ao que ele chama de “canais de compra” — as formas pelas quais os livros chegam ao alfarrabista. Mortes, mudanças, fim de trabalho, dificuldades financeiras. É uma arqueologia das dores alheias. Também desfila uma galeria de clientes, dos caçadores de pechinchas aos acumuladores. E é aqui que a aproximação com tais tipos me toma.

“A quantidade de gente para quem o acumular de livros parece ser mais importante do que a leitura é assombrosa.” Olho em volta. Vejo minhas estantes. Elas me olham de volta. Culpa. E Bolone arremata: “Não há bibliófilo que não compre mais livros do que aqueles que cabem no espaço disponível.” Sou um deles. A pele da minha casa que o diga.

Ele chama isso de “doença do livro” — a compulsão pela compra. Mas também chama de “doença do livro” as patologias físicas que os exemplares trazem consigo: mutilações, colagens indevidas, manchas de umidade, bichos que roem o papel. Duas faces da mesma obsessão: a de possuir, e a de deixar morrer.

Bolone separa ainda dois mundos que frequentemente se confundem: o “mundo da leitura” (o universo do leitor comum, que se relaciona com o texto) e o “mundo do livro” (a esfera comercial, editorial, o circuito de compra e venda). O leitor, diz ele, ignora quase sempre as tensões que atravessam a cadeia produtiva. E essa ignorância, em matéria de preços, cobra caro: “A verdade é que a ignorância em geral encarece os livros, não os torna baratos.”

Há ainda uma observação que me tocou particularmente: o caráter esquivo dos livreiros. Em toda a cadeia literária, há narrativas de autores, editores, leitores. Mas os livreiros raramente escrevem sobre si. Eles, que estão no centro do furacão, são os que menos deixam testemunho. Bolone, ao fazê-lo, ocupa um lugar raro e precioso.

Sobre a sustentabilidade do negócio, ele é pragmático: “Para se conseguir sobreviver com a venda de livros baratos é preciso ter uma rotação constante.” E alerta: “Se o livreiro se apega a tudo aquilo que lhe aparece, depressa está atolado num monturo de papel.” O ofício exige desapego — uma lição difícil para qualquer colecionador.

O livro termina — e termina bem — com uma afirmação de fé na imortalidade do objeto. “Aqueles que acham que o livro já está morto são quase sempre aqueles para quem o livro nunca esteve vivo”, escreve Bolone. Uma frase lapidar, digna de Eco ou de Manguel. O livro não vai morrer. As livrarias também não. Os leitores, menos ainda. O que morre, quando morre, é a falta de imaginação de quem decreta a morte do outro. Mania do pós-guerra que continua a ressoar no século XXI.

Fechei o volume com uma certeza: preciso ir a Portugal. Não por Portugal em si — embora ele mereça —, mas pelas livrarias que Carlos Maria Bolone descreve. Passei a ter uma lista mental de alfarrabistas, de sebos, de endereços onde o livro respira sob o pó. Quero ver com meus próprios olhos os lugares por onde esse exemplar passou antes de chegar às minhas mãos, graças à operação triangular que envolveu Instagram, WhatsApp, um historiador na Universidade do Porto, uma amiga num café e a paciência de uma esposa que entende de doenças sem cura. A “loucura mansa”, do dizer de José Mindlin.

Carlos Maria Bolone foi meu cicerone à distância. Ensinou-me o que é ser livreiro na terra de Fernando Pessoa, José Saramago e Sophia de Mello Breyner Andresen. Deu-me, acima de tudo, a permissão para continuar acumulando livros que não li, sonhando com estantes que não tenho, sabendo que o acúmulo é uma forma de fé. A religião dos livros, afinal, não exige que se leia tudo. Exige apenas que se acredite que cada volume é uma promessa. E promessas, como se sabe, não têm prazo de validade.

Para Normando M. e Ricardo Oriá

Imagem de capa: Acervo do autor. Recorte da capa do livro A Religião dos Livros – Alfarrabistas, Livrarias e Livreiros, de Carlos Maria Bobone

Bruno Gaudêncio
Bruno Gaudêncio
Escritor e historiador. Natural de Campina Grande-PB. Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). É autor ou organizador de quase 30 livros, destaque para Ariano Suassuna em Quadrinhos (Patmos, 2015), Pedro Américo e o Espelho do Tempo (Plural, 2022) e A Invenção do Cavaleiro da Esperança (Paco, 2023).

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