A capital da Paraíba, João Pessoa, viveu durante a década de 20 um caso inusitado na crônica policial da cidade, quando um meliante apavorou os moradores com uma série de assaltos a residências. O raio de ação desse marginal era o trecho compreendido na região da cidade alta entre a Praça Venâncio Neiva e as ruas posteriores do cajueiro e adjacências.
No entanto, o que mais chamava a atenção das autoridades policiais da época, era o modus operandi do ladrão: ele penetrava nas casas pela madrugada inteiramente despido. Depois de praticar vários assaltos dessa forma, a imprensa passou a chamá-lo de “o homem Nu “.
No dia 17 de março de 1920, o jornal A União publicava matéria com o seguinte título:
REAPARECEU “O HOMEM NU”
O LADRÃO MISTERIOSO PRATICA MAIS UM ASSALTO
“Depois do último roubo de 400$00 em dinheiro perpetrado de vários meses no teatro predileto de suas façanhas na cidade alta, no trecho compreendido pela Praça Venâncio Neiva e as ruas posteriores do Cajueiro e adjacentes ninguém mais ouvira falar do ‘Homem Nu’.
Por mais de uma vez ficou provado que o intangível rapinante não opera fora do referido quadrilátero, porque efetuando os assaltos sempre nu somente naquelas artérias escuras tem podido até hoje passar desapercebido.
A vítima d’agora do Homem Nu foi o sr. Herminio Pereira servente da Great Western e estabelecido com uma quitanda a rua Cajueiro de cima n. 475.
Agindo como de costume pela madrugada o terrível larápio pelas 4 horas de ontem limpou a quitanda do sr. Herminio. Deste levou um relógio de algibeira no valor de 200$000 que estava nos bolsos de um palito, uma lata de manteiga, 500 cigarros Lucy e 205$000 em dinheiro de cédulas.
No momento do roubo, foi visto o ladrão, inteiramente nu pela esposa do Herminio, mas a referida mulher, que acordara subitamente não teve ânimo de gritar por ter ficado conforme declarou com a “língua grossa”.
O dr. João Franca, delegado do 1º distrito que muito se tem esforçado pela captura do misterioso amigo do alheio tomou conhecimento do fato e ouviu em alto de perguntas a vítima bem como a diversas outras pessoas.
A nova visita do Homem Nu vem novamente lançar o pavor no seio das pessoas timoratas como sucedeu das vezes anteriores”.
Vale salientar que essa onda de assaltos que assolava a capital do estado estava ocorrendo ainda no quatriênio da Presidência do Estado do dr. Francisco Camilo de Holanda. Em exposição de motivos e ocorrências de seu quatriênio administrativo no período de 1916 a 1920, ao passar o comando administrativo do estado ao seu sucessor Solon de Lucena, Holanda fez um relato sucinto de suas realizações no que tange a ordem pública na esfera estadual:
ORDEM PÚBLICA
“Com o decreto n.º 851, de 25 de Junho de 1918, demos nova regulamentação a polícia, até então regida por disposições esparsas e que causavam confusão no serviço público.
O Gabinete de identificação, que organizamos, começou a prestar os serviços reclamados pelo atual regulamento da polícia. Com a reorganização da polícia foi também alterado a Guarda Civil que passou a ser comandada por um oficial da Forca Publica.”
FORÇA PÚBLICA
“Poder-se-á conseguir uma certa diminuição de praças promovendo-se a reorganização da Força em duas facções distintas – uma para o serviço exclusivo da capital e outra regional para o serviço do interior do Estado.
A Força Pública do Estado constituiu-se auxiliar do Exército, em virtude de acordo celebrado com o governo federal. Assim, sua organização deve aproximar-se o mais possível daquela, aparelhando-se para os serviços que a Pátria reclamar.
Ultimamente, por iniciativa do sr. comandante, foi criada na Força uma escola de polícia, visando instruir o soldado para as funções propriamente ditas de mantenedor da ordem.”
Os esforços do governo estadual em dotar a polícia de melhores meios de trabalho visava justamente um combate mais efetivo ao crescente numero de ocorrências que assolava a capital do estado em ritmo frenético de crescimento populacional. Para tanto, uma Guarda Civil bem treinada e aparelhada para seu trabalho de patrulhamento iria em muito contribuir para a diminuição notadamente dos chamados crimes patrimoniais, ou seja, roubo a residências.
No entanto, com um efetivo ainda um tanto reduzido, a Guarda Civil tinha dificuldades em patrulhar todo o perímetro urbano da capital, fazendo com que marginais da estirpe do “homem nu”, agissem livremente sem se importarem com os rigores da lei.
A 18 de março de 1920, o “homem nu” voltava a ser novamente manchete na imprensa da capital com o seguinte título:
NOVO ASSALTO DO NOTURNO
SERÁ O “HOMEM NU”?
“Ontem as 23 horas a família do sr. cel. Segismundo Guedes Pereira proprietário residente a rua Cajueiro de Cima, foi sobressaltada com a presença de um misterioso indivíduo que se introduziu na casa de maneira inexplicável.
Aquele cavalheiro mandou comunicar o fato imediatamente a polícia do 1º distrito que compareceu com presteza montando guarda aos arredores.
Às 3 horas da madrugada notaram os policiais que o mesmo larápio procurava entrar novamente na casa, diligenciando forçar uma das portas traseiras.
Preso e conduzido à 1ª delegacia, perante o respectivo delegado, não soube o meliante explicar-se, declarando chamar-se Francisco Ricardo da Costa.
A julgar pelo modo subtil porque penetrou, o referido gatuno naquela casa situada no centro das operações do “homem nu”, parece tratar-se desse mesmo individuo ou de um dos seus admiradores.
O dr. João Franca abriu o necessário inquérito”.
Agindo a mais de um ano na capital sem ser importunado pelas autoridades policiais, suas façanhas despertaram acentuado interesse da imprensa que iniciou uma série de reportagens sobre as ações delituosas desse meliante.
Com a imprensa dando ampla cobertura a figura do “homem nu”, a polícia procurou dar uma resposta a sociedade que clamava por uma solução em torno do caso. Para (BRETAS, pag. 142, 1997), “Casos de furto, para serem devidamente investigados tinham que envolver uma vítima importante, ou uma grande quantia de dinheiro, do contrário a investigação de rotina seria meramente proforma”
O caso do “homem nu” se encaixava perfeitamente dentro dessa lógica: os assaltos praticados por ele abrangiam uma área residencial de classe média e suas vítimas eram funcionários de grandes empresas. Ainda mais, os modos operandi do bandido, despertava tamanha curiosidade, pois ele praticava os assaltos inteiramente despido.
A 19 de março de 1920, o jornal A União voltava mais uma vez a noticiar o caso com a manchete:
ESTÁ PRESO O “HOMEM NU”
É UM CABOCLO DE COMPLEIÇÃO ATLÉTICA
“O dr. João Franca, delegado do 1º distrito conseguiu afinal pôr as mãos sobre o misterioso “homem nu”, o ladrão que acerca de um ano trazia alarmados os habitantes desta cidade.
Chama-se o meliante Francisco Ricardo da Costa, e foi preso na madrugada de anteontem quando tentava forçar a residência do cel.
Sigismundo Guedes Pereira, à rua Cajueiro de Cima.
É um caboclo claro, baixo, imberbe de 23 anos de idade presumíveis, olhos vivos e enormes orelhas e pés extraordinários pelo tamanho, cabeça de forma esquisita com os cabelos cortados á escovinha.
Trajava calça branca, já usada, e camisa de meia também branca toda furada.
O seu sistema muscular é o de um verdadeiro atleta, tendo os bíceps de um volume raramente visto entre os trabalhadores braçais.
Confessou ser o autor dos roubos realizados ultimamente nesta capital e atribuídos ao “homem nu”
Tem um cumplice que se acha foragido e cujo nome ocultamos para estorroar a ação da polícia.
Costumava efetuar os assaltos seminu por ser assim mais fácil de escapar aos seus perseguidores e correr com maior presteza.
Tem o “homem nu” uma cara deveras pavorosa e por aí se explica o terror que infundia as suas vítimas quando lhes aparecia em toda a sua nudez de atleta de circo.
Amanhã daremos outros pormenores acerca do famoso larápio cuja prisão se deve aos esforços do dr. João Franca, a quem apresentamos felicitações pelo esplêndido triunfo policial que acaba de obter.”
É importante observarmos que a prisão de Francisco Ricardo da Costa, (o homem nu), foi efetuada no momento em que aquele meliante tentava assaltar uma residência de uma das famílias mais tradicionais da capital do estado da Paraíba: a família Guedes Pereira. Isso demonstra a ampla cobertura dada pela imprensa já que a ação do “homem nu” se direcionava contra uma família de grande prestígio político e social.
Em 21 de março de 1920, a imprensa paraibana continuava explorando o caso do “homem nu” com a seguinte manchete:
AINDA O “HOMEM NU”
Continua a despertar franco interesse em a nossa população a prisão efetuada pelo sr. dr. João Franca, delegado do 1º distrito, do “homem nu”, que por durante algum tempo em sobressalto a nossa cidade devidos aos constantes e audaciosos ataques a propriedade alheia, levados a efeito por aquele indivíduo.
Ainda não deram resultado as pesquisas da polícia para descobrir o paradeiro do misterioso companheiro de Francisco Ricardo da Costa, o “homem nu”, Sebastião de tal, que costumava pernoitar no Matadouro Público desta cidade.
Ante ontem, o dr. João Franca mandou proceder na próxima Vila de Santa Rita as mais cuidadosas buscas, não conseguindo, porém, os policiais capturar o referido larápio.
Segundo o depoimento do “homem nu”, a polícia deve efetuar a prisão daquele ladravaz a fim de proceder a apreensão de todos os objetos roubados durante uma vigência de 6 meses que estão em seu poder.
A identidade de Francisco Ricardo da Costa foi ontem mais uma vez reconhecida pelo sr. Arnaldo Barreto, empregado da municipalidade.
Este sr. compareceu a 1ª delegacia declarando que pelos sinais publicados pela imprensa, o “homem nu”, é o mesmo indivíduo que em outubro do ano passado, penetrara sorrateiramente em sua residência a rua Desembargador Trindade e fizera outras rapinagens na mesma artéria e proximidades.
Posto em presença do perigoso gatuno o sr. Arnaldo reconhece-o imediatamente, dando assim a mais irrefutável prova de sua identidade.
O sr. dr. João Franca vai ordenar que hoje à tarde, se tirem diversas fotografias do “homem nu”, a fim de ficar a polícia de posse desses documentos.
Por ser muito próxima a capital do estado, a então Vila de Santa Rita, era um reduto já conhecido de marginais que fugindo a ação da polícia, se homiziavam nessa localidade. Por isso, sempre que a polícia iniciava uma investigação sobre qualquer delito, o raio de ação se ampliava para além das cercanias da capital.
A 23 de março de 1920, as façanhas do “homem nu” ainda era manchete na imprensa paraibana. Nesse dia, o jornal A União dava a seguinte notícia em torno do caso:
O “HOMEM NU” PRESTA DEPOIMENTO
NA DELEGACIA DO 1º DISTRITO
“Foi ouvido ontem em auto de perguntas, Francisco Ricardo da Costa, vulgo “homem nu” acerca dos últimos fatos delituosos em que se acha envolvido aquele indivíduo, capturado recentemente pelo dr. João Franca, delegado do 1º distrito.
Na peça policial iniciada ele confessou todos os furtos de que fora autor em companhia do indivíduo Sebastião de tal, cujo paradeiro é ainda hoje desconhecido pelas autoridades.
Narrou em seguida com todas as suas minudencias o roubo ocorrido em dias da semana passada na rua do Cajueiro de Cima, dizendo que o seu cúmplice Sebastião, apossou-se de todos os objetos roubados entregando-lhe apenas 2$000.
Interrogado pela autoridade acerca da procedência do indivíduo Sebastião, disse o “homem nu” que o conhecia de pouco tempo, sabendo que ele era natural de Recife a cuja polícia deu muito trabalho”
E assim chegou ao fim as façanhas do meliante alcunhado pela imprensa de “o homem nu”. Para a polícia da década de 20, os delitos em todas as suas modalidades continuavam a ser um grande desafio haja vista as dificuldades que as forças policiais encontravam no percurso de seu trabalho investigativo.
No entanto, quando a imprensa entrava em cena, e os casos ganhavam notoriedade perante a população, ela, a polícia, deixando de lado todos os seus infortúnios, fazia o que no jargão popular se chama, “mostrar serviço”.
REFERÊNCIAS:
Acervo Digital – A União: década de 20
BRETAS, Marcos Luiz. Ordem na Cidade: O Exercicio Cotidiano da
Autoridade Policial no Rio de Janeiro – 1907/1930. Ed. Rocco, 1997.
Center For Research Libraries – Brazilian Government Documents
Relatórios Presidenciais Provinciais ( 1830-1930 ) – Exposição de
Motivos e de Ocorrências do seu Quatriênio administrativo apresentada
no período de 1916 a 1920 pelo sr. Francisco Camilo de Holanda ao sr,
Solon Barbosa de Lucena.
