“Todas as cartas de amor são ridículas”, já dizia Fernando Pessoa, mas como eu as queria de volta no nosso mundo moderno. Nos anos 80 e 90, antes da internet mudar completamente nossa maneira de nos comunicarmos, as cartas eram o símbolo maior e o meio seguro das conexões entre pessoas que se afeiçoavam, que moravam distantes umas das outras, entre tantos outros motivos.
Nesse contexto, também estavam incluídos os escritores. Trago aqui como exemplos Clarice Lispector e Fernando Sabino, que, entre os anos 1946 e 1969, trocavam cartas e hoje estão registradas em “Cartas Perto do Coração”, publicado em 2001 pela Editora Record. As cartas de Clarice para suas irmãs também foram publicadas em ‘Minhas Queridas”, em 2007 pela Editora Rocco. Ainda temos as cartas entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira, que formam um dos registros mais importantes do modernismo brasileiro. Todas essas correspondências têm muita importância e servem como fonte de pesquisas diversas, seja pela obra ou pela biografia dos autores.
Quando penso em todo o contexto e a relevância que as cartas tiveram e que, infelizmente tornaram-se obsoletas, é inegável que o modo de se corresponder por cartas há muito deixou de ser uma febre e caiu no esquecimento das pessoas na era digital. Perdeu-se, portanto, a expectativa de receber uma carta pelos Correios, que poderia durar dias, semanas infindas. Não se sabe mais também como é a grafia dos nossos melhores amigos, familiares e amores, robotizadas pelas letras do teclado.
Perdemos também o cheirinho que algumas folhas traziam, seja pelo perfume das mãos de quem as escrevia, seja pelo material do próprio papel. Não podemos mais usar aqueles belíssimos papéis de carta, para ajudar-nos a expressar os sentimentos mais doces. Fomos poupados do momento de distração em que podíamos encostar a superfície das folhas no rosto, como se quiséssemos sentir o toque de quem escreveu.
Além disso, ainda tínhamos a ansiedade criada para saber se as correspondências chegaram ou outra era a espera para receber as respostas. O ritmo de viver, de querer e de esperar parecia respeitar o tempo natural das coisas. Com a quase extinção de dessas queridas folhas, foi-se embora também a paciência necessária nas comunicações. Nos dias de hoje, quem demora a responder é julgado, pressionado e até “cancelado”, como dizem os termos digitais. De fato, os tempos não são mais os mesmos e resta-nos esperar frias mensagens eletrônicas, com, no máximo, ‘smiles’ de felicidade, surpresa ou decepção. Eles expressam bem o que estamos sentindo?
Certa vez, cansada de tantos e-mails bobos, encaminhados, sem nenhum tom pessoal e afetivo a minha própria pessoa, decidi relembrar a época que me comunicava por cartas com uma amiga de Recife. Ela estava afastada havia algum tempo, talvez por compromissos profissionais, por casamento e filhos. Talvez até porque simplesmente crescemos e deixamos as adolescentes morrerem em algum veraneio… Procurei os velhos papeis de carta, cheirei-os para conferir o aroma (nem em sonho havia mais algum indício), desapeguei-me do egoísmo de não usar jamais uns três preferidos, difíceis de encontrar e bem caros. Tomei em mãos aquelas folhas amareladas e pus-me a escrever. De alguma forma, queria resgatar a antiga amiga, a adolescente que fui e deixei morrer de inanição no calor do verão de 1995.
Rabisquei as primeiras palavras e, quando me dei conta, já havia escrito umas 3 páginas, incontrolavelmente. Senti como se estivesse novamente com 16 anos. Minhas palavras clamavam por socorro, um pedido de sobrevivência diante da extinção iminente. Postei o robusto envelope… esperei resposta por quatro dias. Esperei mais quatro e nada. Depois desse período, pensei: a carta foi extraviada, o endereço estava errado ou a destinatária se negou a qualquer elo novamente. Tudo poderia ter acontecido, mas, no fim, dei-me conta que eu, apenas eu, ainda persistia nessa coisa boba de escrever cartas nos tempos de amizades virtuais.
Fonte da imagem: acervo da internet
