Hoje, 27/08/2026, fez um ano que minha avó faleceu. Morando em João Pessoa desde 2017, desenvolvi pós-pandemia o feliz hábito de ir tomar café com a minha avó todos os domingos em que estivesse em Guarabira, minha amada cidade natal.
Era de praxe: chegava lá aos domingos pra tomar café e minha tia preparava um sanduíche que chamo carinhosamente de “X-Jane”: um pão cangalha com salsicha, queijo e presunto fritos em aproximadamente 200g de margarina. Minha avó enchia uma caneca de café pra mim e botava uma xícara pra ela, pra me acompanhar. Longe de ser a refeição mais fitness do mundo, esse banquete era sempre acompanhado de muita conversa, e nos atualizávamos das últimas novidades em nossas vidas (pouquíssimas novidades, mas o assunto ia rendendo).

Depois disso, Voinha ia pra sala sentar em sua cadeira de balanço e assistir à missa na TV. “Fique aí com a sua tia conversando, vocês que são novos. Véi tem assunto pra conversar não.” Pouco tempo depois, eu já estava lá na sala, deitado no sofá ao lado dela. “Eu vou pegar o ventilador pra você, tá muito quente“, ela dizia às vezes. Normalmente, Guarabira estava tão quente que ela nem me dava a opção de negar e já colocava o ventilador no tamborete, apontado para o sofá em que eu ficava.
Passava mais uns minutos e minha tia anunciava que ia pra casa. Ia guardar as roupas lavadas ou assistir a algum jogo de vôlei que estava passando. Ela morava ao lado, então acabava voltando a aparecer por lá antes de eu sair. O relógio batia 11h30. A tradição dos domingos continuava com o almoço na casa dos avós da minha esposa, que ficava a uns 300 metros de distância.
— Tenho que ir, vó, bença?
— Tão chamando já, é? Deus lhe abençoe.
— Já, vou ter que ir. Umas 14h a gente viaja pra João Pessoa.
Ia lá na cadeira de balanço dela pra dar um abraço, mas ela sempre me acompanhava até a porta e aproveitava pra ver o movimento da rua, enquanto eu descia a ladeira pra casa dos avós da minha esposa.
Eu tenho o hábito (sina?) de acordar cedo mesmo aos finais de semana, então sempre preparo o café da manhã antes da minha esposa acordar. Recentemente, comecei a entrar no hobby do café: saí da fase em que café chique era só o gourmet e comecei as frescuras de comprar moedor, café especial em grãos, fazer o café pesando na balança, etc.
Um dos rituais que tenho praticado ultimamente é tirar um tempo aos domingos pra deixar a mente tranquila, abstraindo-me de todos os problemas da minha vida e do mundo, e me concentrar em todo o processo de feitura do café e de assar um pão pra comer junto. E sempre que estou coando aquele café de torra clara, lembro de um dos domingos em que cheguei pra tomar café com minha avó.
Por algum motivo de que não me recordo, ela comprou 4 pacotes de um café de torra mais clara. Quando eu cheguei lá e ela foi fazer o café, virou pra mim séria e disse: “Olhe, meu fi, nunca compre esse café aqui não. É um café tão ruim nesse mundo, eu boto 6 colheres dessa cheia e mesmo assim fica fraco, fraco, FRACO! Olha a cor!” Quando vi qual era o café, eu ri e comentei: “Mas vó, é que esse café fica com uma cor mais clara mesmo, num é que fica fraco não! Ele fica assim meio marrom claro mesmo!“
Depois de pronto e fervido quase ao ponto de fusão do alumínio da cafeteira, ela colocava uma caneca cheia pra mim e uma xícara para ela. E, mesmo colocando praticamente metade do pacote de café pra 500ml de água, o “chafé” não era suficiente pra ela, que pegava o pote de Nescafé extraforte e colocava mais duas colherinhas de chá dentro da xícara. “Meu Deus, nem assim presta! Graças a Deus que tá acabando!” Vó, eu sei que a senhora me julga, de onde quer que esteja, por esse café acastanhado que estou tomando, mas eu juro que é muito gostoso! Mas eu confesso que preferia o que eu tomava com a senhora. Vou ter que acabar o texto por aqui, já deu a hora. Bença?

vovó era uma figura, que texto lindo Ruan!