Alfred Hitchcock afirmou certa vez, em uma entrevista: “Sou muito sensível! Uma palavra afiada dita por uma pessoa irritada, se vier de alguém próximo a mim, machuca-me por dias!” Desde que ouvi essas palavras do mestre da sétima arte, nunca mais pude esquecê-las, pois, a mim também, palavras afiadas me machucam por dias, anos e até décadas.
E, certo dia, eu matutava exatamente sobre isso enquanto tomava café da manhã no refeitório da empresa em que trabalho, quando meus pensamentos foram interrompidos. No ambiente também estavam outros quatro funcionários, que, ao contrário de mim, que permanecia isolado e calado em uma mesa, debatiam entre si acerca de um atendimento que haviam realizado na cidade de Bayeux, que fica na região metropolitana de João Pessoa, capital do estado da Paraíba.
E, entre um gole de café e uma mordida no pão, eles relatavam os acontecimentos, citando a localidade e seus pormenores, como praças, nomes de ruas e pontos de referência. Atentamente, também entre goles e mordidas, eu me deliciava com as simples descrições. No entanto, esse deleite acontecia não pelo poder narrativo dos meus colegas de trabalho, mas porque foi exatamente nessa cidade que vivi toda a minha infância.
Ao ouvir cada topônimo, eu era transportado imediatamente para antigas sensações de alegria, de medo, de angústia ou de inocência. Para citar um exemplo, quando um dos funcionários pronunciou o nome de uma rua chamada “Engenheiro de Carvalho”, veio-me vívida e inteira a lembraça de, vez por outra, ao sair da escola com meu amigo Túlio, atravessar essa rua com toda a empolgação juvenil para comprar novas edições de mangás ou quadrinhos na banca de jornal que por ali havia.
E foi dessa maneira que, no decorrer da conversa matinal, outras palavras e outras lembranças surgiram e me fizeram reviver placidamente vários momentos remotos. Lembranças que, agora, enquanto escrevo este pequeno parágrafo, também pipocam em minha mente como pequeninos grãos de milho que, provocados pelo calor gerado pelo fogo das conexões neurais, estouram e jorram, como se fossem, inúmeras recordações.
Complementarmente, envolto em todos esses sentimentos e pensamentos, assisti ao excelente documentário “The Mindscape of Alan Moore”. Nele, o mestre da nona arte relata que, em certo ponto de sua vida, percebeu que era um bruxo, um mago, um feiticeiro e que essa percepção lhe ocorreu quando entendeu o poder oculto nas palavras. Pois, como escritor, ele se tornara capaz de influenciar, emocionar e marcar inúmeras pessoas ao redor do planeta e, o mais importante, pessoas para além do seu próprio tempo. Se isso não é magia, eu não sei mais o que é!
E, falando desse tipo de imortalidade, antes mesmo do Mago Inglês, outros já haviam refletido sobre esse conceito. Certa vez, em uma de suas aulas-espetáculo, ouvi do meu conterrâneo, o mestre Ariano Suassuna, que ele era contra a morte e que não pretendia morrer. Afirmava que uma das formas de não morrer seria escrevendo, visto que as palavras por ele escritas poderiam reverberar para além de seus batimentos e alimentar incontáveis mentes mundo afora. E a prova viva disso é este que vos escreve, elevadíssimo leitor, tendo em vista que foi somente após o encantamento do mestre taperoense, em 2014, que comecei a ler seus livros.
As palavras possuem e sempre possuíram um grande poder sobre a minha vida. Hoje sei disso! E, ouvindo a “conversa dos outros” em um refeitório frio de uma grande empresa, pude constatar claramente a influência desse poder em suas várias formas: ser transportado no tempo; abraçar o que já passou ou perseguir o que ainda está por vir; reviver pessoas e pequenos momentos numa intensidade jamais imaginada; sentir perfumes, odores, sensações táteis e um arrepio inexplicável na alma, como se o mundo fosse muito mais do que os nossos tristes olhos podem ver!
E eu acredito nesse poder e na influência das palavras, assim como acreditou um jovem galileu chamado Jesus. É que ele, com sua crença na palavra de quatro letras, conseguiu conquistar um dos impérios mais violentos e opressores que já existiram. O pão e o peixe que ele repartiu foram muito mais do que o mero alimento; representam a palavra que saciou milhares. E, na boca e na mente desses milhares, Jesus ressuscitou e ressuscita diariamente.
Mas, como tudo o que é humano, as palavras podem ser usadas tanto para o mal quanto para o bem. A magia, o poder contido em suas entranhas, pode exercer influência negativa, como podemos muito bem observar no caso indigesto do próprio Cristo. Contudo, tento não absorver nada que não seja bom. A vida é feita de escolhas, e eu escolhi o bem das palavras para que, dessa maneira, em algum dia vindouro que pulsa além do sonho, alguém possa repeti-las em um simples café da manhã.
O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio
Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano Igor Gregório
Data: Vinte de julho de dois mil e vinte sete
Título: A Memória das Palavras
Imagem: Irmãos Limbourg, Multiplicação dos Pães e dos Peixes (1411-1415)
