InícioColunaO Nazismo na Paraíba – Espionagem e Polícia Política - 1942/1945

O Nazismo na Paraíba – Espionagem e Polícia Política – 1942/1945

O Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945) ficou caracterizado pela oposição de grandes nações, que disputavam com modelos políticos antagônicos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). De um lado, as democracias liberais, representadas por França, Inglaterra e Estados Unidos, de outro, os governos ditatoriais de Hitler e Mussolini. É neste contexto global, que se torna necessário compreender as consequências das ações diplomáticas na política interna brasileira e, por fim, questionar os interesses de Getúlio Vargas com as duas ideologias que se enfrentaram em campo de batalha.

Existiam vertentes culturais, sociais e econômicas nas relações entre Brasil e Alemanha. Assim como boa parte das relações diplomáticas os acordos com o III Reich se iniciaram de forma comercial, com exportações de matérias-primas, e importações de produtos industrializados. O segmento militar brasileiro, teve oportunidade de experimentar essa proximidade com os alemães, pois muitos de seus armamentos, eram de origem alemã e sua qualidade era inquestionável perante a soldadesca;

Segundo, (BAUER, pag. 01, 2019) “Os alemães erradicados também representaram uma dinâmica que envolvia os caminhos da política externa, o desenrolar da geopolítica Alemã e questões internas na política brasileira. Eram, geralmente, famílias emigradas da República de Weimar – república alemã fundada após a primeira guerra e encerrada pela ditadura nazista – que se firmaram em solo brasileiro em busca de mudanças ou para trabalhos em empresas germânicas. A presença dessas famílias e de qualquer tipo de instituição alemã fora do Reich passou a ser responsabilidade do Auslandsorganisation (organização nazista para o exterior).”

A relação do governo Vargas com os alemães no Brasil foi muito volátil e foi mudando ao longo do tempo de acordo com os acontecimentos políticos que se desenrolavam pelo país. Enquanto pela diplomacia era observada uma proximidade entre fascistas e nazistas, alemães e italianos viviam de forma bastante natural em território brasileiro. Muito embora, alguns retornassem ao país de origem, para vivenciarem as transformações que lá ocorriam.

Entretanto, quando o governo brasileiro declarou guerra ao Eixo, alemães, japoneses e italianos tornaram-se inimigos internos e consequentemente um perigo à segurança interna do país.

No entender de (BAUER, pag. 01, 2019) “Compreender a relação Policial entre a ditadura Varguista e os indivíduos acusados de espionagem é o caminho para a definição de Quinta Coluna no Brasil. São classificados como Quinta Coluna aqueles indivíduos residentes no país e que representam os interesses de um inimigo em um contexto de guerra. Práticas como sabotagem e espionagem são típicas destes grupos, classificados como traidores. Em determinado momento da guerra, até mesmo o idioma – italiano, japonês e alemão – tornou-se proibido em estabelecimentos brasileiros, pois esta parcela da população representava uma grande ameaça.”

Já para (DIETRICH, 2007) “Os Departamentos Policiais do governo resumem em muitos pontos a dinâmica abordada neste texto. Em um primeiro momento destaca-se a sua proximidade com a Gestapo – polícia política nazista – e, após o processo de nacionalização – que consistiu em uma doutrina do Estado Novo na construção ideológica do Brasil – atuam como instrumentos estatais de perseguição e classificação de suspeitos.”

Ou seja, alemães, italianos e japoneses pertenciam a categoria da população brasileira, classificada nesse período como “categorias de suspeição”.

É ainda (BAUER, pag. 04, 2019) quem afirma: “Durante as boas relações diplomáticas entre os dois países, o Partido Nazista Brasileiro conseguiu se consolidar e angariar a participação dos germanófilos interessados em apoiar o Reich de alguma forma. Escolas passaram por um processo de aculturamento nazista, professores favoráveis ao regime difundiam sua ideologia, bancos alemães utilizam práticas cambiais ilegais, visando o envio de dinheiro para o país natal, entre outras formas de atuação. Isto demonstra como o ambiente brasileiro ainda era muito aberto a práticas deste tipo, condizendo em grande parte com a sua política externa de Equidistância Pragmática, termo utilizado para caracterizar a política externa Varguista nas relações diplomáticas “equidistantes” com as democracias liberais e com as ditaduras do eixo.”

Nesse momento de ambiguidades ideológicas, figuras importantes do governo brasileiro não escondiam suas simpatias pelos regimes de feição totalitária. Foi o caso do então Chefe de Polícia de Vargas, Felinto Muller, o responsável pela captura de Olga Benário e Luis Carlos Prestes. Muller representa o auge da proximidade diplomática brasileira com o Eixo, ao enviar Policiais de sua inteira confiança para estagiarem em departamentos da polícia alemã, leia-se Gestapo, a fim de aprimorarem técnicas de ação Policial e de tortura.

Com a instauração da ditadura do Estado Novo, teve início uma política de nacionalização da sociedade brasileira, baseada em ideais ufanistas muito comuns em regimes de exceção. O grande dilema estava na forma como os alemães se comportavam, principalmente ao colocarem a pátria de origem em primeiro lugar. A declaração de guerra ao Eixo (1942) e a consequente entrada no conflito ao lado dos Aliados, minguaram as relações do governo brasileiro com os Súditos do Eixo, atuando de forma mais incisiva e até mesmo desproporcional. (BAUER, pag. 06, 2019).

É possível dizer que no momento anterior à declaração de guerra, o principal motivo para as perseguições contra nazistas no Brasil estava pautado na divergência de pensamento. Diferentemente do que se imagina, Vargas não estava combatendo o nazismo, estava combatendo o antipatriotismo, aqueles que não se enquadravam na lógica nacionalista. Continuar sendo um nazista não representava grandes problemas, apenas deveriam se comportar de acordo com a ideologia do regime. Entretanto, o fim dos partidos políticos representou o primeiro grande desentendimento diplomático, tornando o representante alemão Karl Ritter persona non grata no Brasil (DIETRICH, 2007).

A partir da declaração de guerra ao Eixo, a posição do governo brasileiro em relação aos súditos da Alemanha, Itália e Japão se radicalizou. Nesse momento, as perseguições a supostos espiões foram intensificadas, pessoas foram torturadas pelo simples fato de falarem alemão em público e campos de concentração foram criados. O saldo final de tudo isso, foi que muitos desses presos, ficaram encarcerados até o fim da guerra, e o mais drástico, não tiveram julgamentos conclusivos sobre se eram ou não inimigos do Estado.

Recife, termômetro da espionagem alemã no Nordeste

A cidade de Recife constituiu-se em importante centro de abastecimento para os aliados ingleses, norte-americanos e canadenses durante a Segunda guerra Mundial. Segundo (LEITE, pag. 81, 2017)

“A cidade do Recife foi alçada no contexto da guerra a um importante baluarte dos aliados no atlântico Sul Ocidental. Sua posição estrategicamente vital para o esforço de guerra associada às condições políticas e econômicas da época, transformaram a cidade numa das principais passagens das rotas de comércio interamricanas. O porto da cidade foi utilizado como ponto de abastecimento de navios aliados, em sua maioria ingleses, norte-americanos e canadenses. Os produtos comercializados eram diversos: minério de ferro, manganês, quartzo, borracha, algodão e outros artigos de valor para nações em situação de beligerância”

Em princípios de 1941, a cidade de Recife passou a sediar a base naval U.S. Navy no atlântico Sul Ocidental. Essa base era conhecida como Base Fox e representou uma das principais bases aliadas no Atlântico, estando em atividade até o fim da guerra em 1945.

Desde 1939 que o Abwehr (serviço de inteligência militar alemão) tinha um interesse vital na América. Para isso, a agência de inteligência alemã tinha organizado uma ampla rede de espionagem no continente americano. Esse interesse da espionagem alemã estava diretamente relacionado aos Estados Unidos em questões relacionadas como por exemplo: a capacidade industrial dos norte-americanos, principalmente na produção de navios e aviões; as importações de artigos estratégicos que eram negociados com a América do Sul e outras questões relacionadas com a área econômica além da colaboração dos Estados Unidos com a Grã-Bretanha.

A política interna brasileira também era alvo do interesse da Abwehr como por exemplo a campanha nacionalizadora de Vargas, que afetou diretamente a comunidade germânica no Brasil bem assim como dados econômicos e aspectos da geografia litorânea do Brasil. Todos esses fatores em conjunto, preocupavam os alemães em sua estratégia de guerra no Atlântico.

Dessa forma, foram enviados para o continente americano, espiões “especialistas” (profissionais enviados ao país com propósito definido de espionar) e “amadores” para tecerem essa trama de atividades subversivas em terras brasileiras. (SILVA, pag. 88, 1996).

Paulista e Rio Tinto na mira da Polícia Política

Dentro desse contexto, duas cidades nordestinas, Paulista, em Pernambuco, e Rio Tinto, na Paraíba, passaram a ser vigiadas de perto pela Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS). O que elas tinham em comum? É que ambas pertenciam a poderosa família Lundgren proprietária da empresa Companhia de Tecidos Paulista/Rio Tinto, Alberto Lundgren & Cia.

A polícia civil, através do DOPS, tinha informações de que essa família mantinha relações com pessoas que eram tidas como suspeitas pela polícia de exercerem atividades de propaganda e de espionagem no país, além de manterem contatos com membros do Partido Nazista e da Ação Integralista Brasileira em Pernambuco. Esses contatos se davam através do alemão Karl Heinz e seu pai, além de funcionários da Herm. & Stoltz.

Segundo (SILVA, pag. 90, 2017), “Algumas dessas relações, é importante salientar, foram estabelecidas durante o período de legalidade do partido nazista no Brasil. Os relatórios também apontavam para membros da família Lundgren e funcionários alemães em atividades pró-Alemanha.”

Um dos agentes alemães mais atuantes no estado e responsável por uma vasta rede de espionagem no nordeste foi Karl Heinz von den Steinen. Seu nome foi várias vezes citado em depoimentos e processos sobre atividades nazistas no país. Karl Heinz era filho primogênito do Cônsul no estado de Pernambuco. Nascido no Brasil, mas educado na Alemanha, Heinz dominava fluentemente o português, o alemão e o inglês, uma condição que segundo os relatórios do DOPS, facilitava sua comunicação com informantes brasileiros e alemães, em busca de informações úteis para Berlim. Essas informações se referiam basicamente a países como Inglaterra, Canadá e Estados Unidos onde o inglês era falado.

Além disso, Steinen era a pessoa ideal para desempenhar a tarefa de espionagem na região de Recife. Era um jovem teuto-brasileiro de 26 anos que havia sido soldado no Brasil, portanto ele era reservista brasileiro, comerciário e filho de um diplomata alemão no Brasil.

Dessa forma, em 1940, o Abwehr o recrutou através de outro agente Karl Mugg, cujo codinome era “Moss” a fim de que ele, Steinen ficasse responsável pelas principais divisões da espionagem no nordeste em áreas como: Recife (PE), Maceió (AL), Cabedelo (PB) e Natal (RN).

Karl Heinz Steinen, para executar essa tarefa, possuía um eficiente e diversificado grupo de auxiliares formado por Oficiais do Porto e do cais da Alfândega, jornalistas, militares e ex-integralistas. Para (SILVA, pag. 91, 2017), “Conhecido polos seus superiores como um habilidoso recrutador de adeptos da causa alemã, principalmente através da aproximação com antigos participantes da extinta Ação Integralista Brasileira, (AIB), Steinen conseguiu estabelecer importantes vínculos de colaboradores e consequentemente levantar um significativo volume de informações de interesse para Berlim.

Os Lundgren e as Fábricas de Paulista e Rio Tinto

A polícia política pernambucana, iniciou desde o momento em que o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha e se alinhou com os Estados Unidos, uma série de investigações em torno de pessoas e empresas suspeitas de colaborarem com atividades nazistas no estado.

As investigações vinham sendo conduzidas no estado com o apoio da polícia marítima e aérea, que vinham monitorando as atividades de pessoas simpatizantes do nazismo em Recife. Dessas suspeitas, originaram-se diligências Policiais em torno de pessoas físicas e jurídicas.

Em relação às pessoas jurídicas, as autoridades Policiais de Pernambuco focaram sua atenção nas empresas da família Lundgren, possuidoras de empreendimentos comerciais nas cidades de Paulista, em Pernambuco e Rio Tinto, cidade paraibana.

Por possuírem uma grande quantidade de trabalhadores alemães, essas empresas passaram a ser vigiadas pelo DOPS, pois dentro da lógica da desconfiança, pensava-se que muitos desses trabalhadores desenvolvendo atividades subversivas, ou seja, atividades nazistas.

O alvo principal da polícia política, no entanto, foram os proprietários das empresas, pois a Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco (DOPS), achavam que eles eram coniventes com as atividades nazistas que eram desenvolvidas em suas fábricas.

Num relatório produzido pelo Investigador Pinheiro do DOPS pernambucano, ele faz uma sindicância em torno do comportamento da família Lundgren em relação ao que se passava em suas empresas: “…até que ponto os donos e dirigentes de Paulista e Rio Tinto ou elementos ali fixados estão cooperando nessas atividades é difícil acertar, mas na menor hipótese deve haver conivência dos seus proprietários, pois a quem conhece a organização Lundgren não é licito acreditar que em Paulista ou Rio Tinto possa haver atividade alguma que não seja pelo menos conhecida ou pressentida pelos mesmos…” (Relatório do Investigador Pinheiro. Prontuário funcional Fábrica Paulista (Sindicâncias) n. 29240 DOPS –APEJE, apud. CORDEIRO, pag. 88, 2005).

Os Lundgren eram de origem sueca e possuíam uma influência muito acentuada na sociedade pernambucana. O chefe do clã e fundador do grupo empresarial foi Herman Theodor Lundgren. Ele comprou a firma de tecidos Rodrigues Lima e Companhia, fazendo com que a região de Paulista até então inóspita, passasse a ser um grande polo industrial. Com o tempo o grupo cresceu, adquirindo não somente a fábrica de Tecidos Paulista, mas também a fábrica de pólvora Elefante, localizada em Pontezinha no Cabo, a fábrica de tecidos Rio Tinto em Mamanguape na Paraíba, inaugurada em 1924, a Companhia Têxtil Santa Elizabeth em Minas Gerais, fundada em 1955, a Companhia Renascença Industrial, também em Minas Gerais, inaugurada em 1963 e as Casas Pernambucanas que na segunda metade da década de 40 possuía mais de 600 lojas espalhadas pelo Brasil.

Segundo (CORDEIRO, pag. 88, 2005), “No entanto, mesmo com tanto poder político e econômico foram alvo de suspeitas e investigações por parte da polícia política de Pernambuco e essas investigações são reveladoras de uma verdadeira trama e combate entre forças, que envolviam não só o poder público e o poder privado, mas no interior do próprio poder público, entre os próprios investigadores”.

Motivos para as autoridades Policiais de Pernambuco suspeitarem da família Lundgren não faltavam: Em 1936, quando a Alemanha despontava no cenário internacional como país emergente saído de uma guerra mundial, com Hitler no comando de suas transformações, muitos alemães ao redor do mundo ficaram fascinados com essas transformações, entre elas, membro da família Lundgren, Anita Groske Lundgren, que recepcionou com um grande banquete em sua casa no Recife, membros da tripulação do cruzador alemão Schleswig-Holstein que estavam de passagem pela cidade.

Em relatório de investigação, envolvendo o nome da sra. Anita Groske, a polícia afirma ter ela grande simpatia pelo nazismo: “…enquanto os irmãos Lundgrens não deixam transparecer abertamente as suas simpatias, a sua irmã Anita Lundgren Groske é abertamente simpática a causa nazista. É vista frequentando todas as suas reuniões mais importantes, coloca o seu carro a disposição deles e, segundo dizem, forneça ajuda financeira. Reside a Rua Padre Roma 302, vizinha de Hans Sievert, um dos dirigentes principais da organização nazista local, tendo ressentimento aberto uma porta de comunicação entre as duas casas…” (Relatório do Investigador Pinheiro. Prontuário funcional Fábrica Paulista (Sindicâncias) n. 29240: DOPS-APEJE. Citado em CORDEIRO, Philonila M.N. op. Cit. P. 31)

Em 24 de janeiro de 1942, o então Ministro da Justiça Vasco Leitão da Cunha, enviava telegrama ao Interventor de Pernambuco Agamenon Magalhães alertando ter recebido denúncias sobre atividades suspeitas de administradores e de membros da família Lundgren em suas propriedades. No mesmo telegrama, o ministro da justiça solicitava ao Interventor que se necessário fosse, ele ordenasse a incomunicabilidade dos mesmos; batidas regulares nas propriedades de Paulista e Rio Tinto na Paraíba a fim de verificar se existiam trabalhos suspeitos em terras do litoral e no interior; localizar e apreender estações clandestinas de rádio bem como apreender aparelhos receptores dos empregados e dos estrangeiros que residissem no raio dessas propriedades. Existia também uma denúncia levada ao conhecimento do ministro da justiça, da existência de preparo de um campo de aviação e de um depósito de munições na localidade denominada Timbó. E por última, o ministro aconselhava ao Interventor Agamenon Magalhães, proibir a admissão de novos alemães e italianos nas propriedades e estabelecimentos dos Lundgren.

A preocupação da polícia civil através do DOPS tinha sua razão de ser: eles entendiam que as localidades de Paulista e Rio Tinto seriam perfeitas para a instalação de uma base “temporária que serviria aos propósitos dos eixistas se ocorresse alguma tentativa de ataque as zonas consideradas vulneráveis que eram de Natal a Recife. (CORDEIRO, pag. 92, 2005).

Dessa forma, nada escapava aos olhares atentos dos investigadores do DOPS. Nesse sentido, (CORDEIRO, pag. 92, 2005) afirma que: “Nessa ocasião, as suspeitas aumentavam devido a compra em demasia de combustível feito por parte da fábrica, incluindo aí, toda espécie de óleo, diesel, lubrificante e até gás de avião, uma vez que não havia tanta necessidade, tendo em vista utilizarem a lenha para seu funcionamento”. Ainda mais que nessas transações quando havia o envolvimento de integralistas as suspeitas aumentavam de intensidade como a que foi relatada por um investigador do DOPS: “…até em João Pessoa, efetuaram compras, tendo comprado 50 caixas da firma J. Mesquita, daquela praça, sob a alegação de que era para melhorar a gasolina dos automóveis da fábrica! J. Mesquita que é extremamente germanófilo e forte integralista comprou a gasolina de “Texas” em João Pessoa…”

A troca de informações entre as polícias da Paraíba e Pernambuco, possibilitava que, tanto lá quanto cá, o serviço de monitoramento fosse feito em torno de pessoas ou estabelecimentos comerciais que tivessem qualquer relação com a família e as empresas Lundgren.

Após a tentativa de golpe de 1938, os integralistas passaram a ser tratados como “traidores da pátria”. Vargas irá utilizar esse discurso para legitimar o trabalho de repressão da polícia, mostrando os integralistas como perigosos elementos para à segurança nacional do país. Por isso, sempre que aparecia num relatório Policial, notadamente em relação a família Lundgren, relações comerciais envolvendo integralistas, caso da compra de combustível em João Pessoa, o alerta era acionado em proporções máximas.

Para (CORDEIRO, pag. 93, 2005), “No entanto, diante das denúncias, faziam-se diligências no local, mas nunca se encontrava nada que pudessem comprová-las”.

Em 2 de março de 1942, o então delegado do DOPS pernambucano Fábio Correa, em ofício endereçado ao Secretário de Segurança Pública do estado, informava que o Serviço de Ordem Social daquela delegacia, através de nove investigadores de polícia, fez buscas nas dependências da fábrica da família Lundgren sendo o resultado negativo para as denúncias que a polícia havia recebido até então. No entanto, informava o delegado Fabio Correa, apesar das buscas terem resultado negativo, o DOPS continuava com o seu discreto trabalho de vigilância em torno das empresas da família Lundgren, conforme havia determinado o Secretário de Segurança Pública do estado. (Ofício. 145 de Fabio Correa para o Secretário de Segurança Pública 02/03/1942. Prontuário Funcional Alemanha n. 29653: DOPS-APEJE. Apud. CORDEIRO).

Segundo (CORDEIRO, pag. 94, 2005), “Outras diligências foram feitas e novamente não se encontrava nada, o que gerou desconfianças e acusações de que a própria polícia recebia suborno para darem informações e acatarem determinações da companhia”.

Num outro relatório, dessa feita, elaborado por um investigador do DOPS, endereçado ao delegado Fábio Correia no dia 22 de março de 1942, o mesmo informava que após novas diligências efetuadas em Paulista nas empresas Lundgren, as pessoas apontadas como suspeitas e de confiança da empresa, já estava, a par dessas operações, 24 horas antes. Informa esse Policial que as informações haviam vazado por conta de que Policiais do DOPS que eram subvencionados pela empresa, avisaram com antecedência que a empresa iria sofrer novas diligências Policiais. A denúncia ia muito mais além, quando esse Policial implicou o delegado local de Paulista, como sendo subvencionado semanalmente pela empresa e cumprindo ordens de um empregado da Fábrica Lundgren, “João Felix, pessoa de raro prestígio na companhia é quem fica encarregado de subornar as autoridades, sendo o ditador da polícia local”. (Relatorio sobre sindicância em Paulista em 22/03/1942. Prontuário Funcional Fábrica Paulista – sindicâncias 108 A n. 29240 – APEJE – DOPS. Apud CORDEIRO).

Não somente as autoridades Policiais, mas também o povo de Paulista e Rio Tinto, descreviam a família Lundgren como envolvida em atividades nazistas. Essas denúncias vinham muito antes da guerra. Por volta de 1939, Agamenon Magalhães recebeu uma carta de um remetente anônimo, onde era descrita denúncias contra a família de industriais. O remetente, relaciona o acúmulo de terras da família Lundgren, com um suposto plano de invasão nazista: “ Recife, 25 de fevereiro de 1939. Exmo. Sr. Dr. Agamenon Magalhães. M.D. Interventor do Estado de Pernambuco Um dos últimos artigos lendo como tema uma visita que V. Excia fez a Fábrica Paulista de propriedade dos alemães Lundgren os quais são brasileiros somente para efeito comercial, V. Excia que tinha observado uma tendência latifundiária nos mesmos não sabendo explicar o porque…naturalmente já receberam eles instruções do governo alemão para adquirir as maiores extensões territoriais possíveis no Brasil, a fim de que na próxima invasão nazista e consequente dominação que eles julgam fácil, estarem aqui os seus companheiros bem estabilizados como senhores de direito de nossas riquezas…um brasileiro”. (Carta de “um brasileiro” para Agamenon Magalhães 25/02/1939. Prontuário Funcional Fábrica Paulista – Sindicâncias n. 29240 DOPS APEJE. Apud CORDEIRO. Op. Cit. P. 28)

Observamos que na carta anônima, a família Lundgren era vista como de origem alemã…na realidade eles eram suecos, e assim eles serão sempre vistos pela população local. A carta em tom um tanto quanto alarmista, mostrava a relação de terras como um suposto plano para a Alemanha se estabelecer em solo brasileiro com a ajuda da família Lundgren. Evidentemente o mito do perigo alemão tomava conta da sociedade fazendo com que denúncias como essa aparecessem constantemente no imaginário das pessoas.

A Quinta Coluna na Paraíba

Em 18 de março de 1942, o jornal A União, noticiava:

AS ATIVIDADES DA QUINTA COLUNA NA PARAÍBA

“Em sensacional diligência a polícia detém o fuhrer” dos ‘ kamaradas alemàes” nèste Estado •. Gottlob Zolimann, outro nazista prêso, propagandista do Reich — Detido também o nazista Werner Gunler — 0 que é a Sociedade Nacional Socialista dos Guerreiros Alemaes — Gunter serve ao Fuehrer” e ao grande Reich alemão”

Numa diligência polícial, o então Delegado de Ordem Política e Social da Paraíba (DOPS), dr. Ivaldo Falconi de Melo, juntamemte com o Chefe de Polícia, Capitão Solon Ribeiro, prendia o alemão Otto Bruntzek. A reportagem do jornal A União assim descreve o fato: “Depois de localizar a residência de Otto e os seus pontos prediletos de reunião, o Delegado da Ordem Política e Social pode enfim apreender documentos de extrema importância um dos quais vai transcrito nesta reportagem. Trata-se de uma carta do alemão Hans Albrecht intitulada “Fuehrer dos Camaradas no Brasil”. Contendo instruções para o melhor desempenho da tarefa, essa carta informa também a Oto Bruntzek, o qual tem uma carteira do Partido Nazista, visada por Hammler e Rober Ley, a sua nomeação para o cargo de Comandante do grupo da Sociedade Nacional Socialista dos Guerreiros Alemães neste Estado.”

Nesse grupo de alemães, atuantes no Estado da Paraíba, figurava outro alemão, o fotógrafo Gottleb Zollmann residente em Campina Grande. Quando os Políciais do DOPS o prenderam, encontraram em seu poder diversas fotografias da cidade. Segundo a polícia política, “ Zollmann era “camelot” do partido e recebia diretamente do Cônsul alemão em Recife todo um arsenal de propaganda que se encarregava de distribuir junto aos seus companheiros e aos quinta-colunistas campinenses. Além de publicações do Ministério do Exterior da Alemanha. Zollmann tinha uma geografia do Brasil escrita em alemão, com indicações sobre as nossas principais matérias-primas e sua importância para a indústria alemã. Agindo com sutileza, Zollmann se dedicava especialmente a propaganda”.

À frente das investigações em Campina Grande, estava o Investigador do DOPS Evódio Cesar de Almeida, que através da Seção de Ordem Social daquela especializada, conseguiu prender Zollmann remetendo-o para a Chefatura de Polícia da capital juntamente com todo material apreendido em seu poder.

Entrevistado pelo jornal A União, Zollmann contestou as suas ligações para fins subversivos com o consulado alemão.

Outro alemão preso nessas diligências foi Werner Gunther. Segundo a reportagem do jornal A União, “Mais instruído que os outros dois, Gunther preferia agir entre as classes cultas. Gostava de discutir política e economia e mostrar as vantagens do regime alemão sobre os demais. Ensinando a língua de sua nacionalidade, quase sempre gratuitamente, Gunther procurava catequizar os seus discípulos, convencê-los de que a salvação do Brasil estava numa organização político-social idêntica a da Alemanha. Conseguiu dessa maneira muitos adeptos. Ridicularizava os característicos étnicos de nossa formação, convicto de sua superioridade ariana. O trabalho de sapa a cargo de Gunther era assim menos político do que cultural. Ultimamente andou percorrendo o estado para melhor conhecer-lhe a geografia e as condições econômicas. A Polícia surpreende-o em sua obra de catequese e apreendeu em seu poder também farto material de propaganda. Como Zollmann e Brunthzek. Ghunter confessou todos os detalhes de sua missão e se mostra satisfeito em estar por esse modo, servindo ao seu Fuehrer”.

Em 20 de março de 1942, A União noticiava:

SEGUIRAM PARA O RIO OS ESPIÕES NAZISTAS DEBAIXO DAVIGILÂNCIA POLÍCIAL

A prisão dos alemães Oto Bruntzer, Gottlob Zollmann e Werner Gunther, resultante de uma sensacional diligência da nossa polícia, vem sendo ainda o grande acontecimento da cidade. Em nossa edição do dia 18 noticiamos detalhadamente toda a trama do quinta-colunismo entre nós, inserindo em nosso noticiário como documentação de primeiro plano a carta dirigida a um dos nazistas ligado a Organização Nacional Socialista dos Guerreiros Alemães. Hoje para conhecimento do nosso grande público Informamos ter a maldita trinca embarcado para a Capital do país, onde será processada pela justiça competente. A Polícia providenciou com rapidez o embarque dos súditos alemães os quais vão acompanhados até o Rio de Janeiro pelo Investigador Antônio Serra Júnior e um soldado da nossa milícia.

Pesquisando a temática do nazismo na Paraíba, o jornalista Hilton Gouveia, publicou na imprensa local sugestiva reportagem intitulada:

ESPIÕES NAZISTAS NA PARAÍBA – OXÊNTE HITLER: ARQUIVOS E DOCUMENTOS MOSTRAM QUE OS NAZISTAS ESTIVERAM NA PARAÍBA

Segundo (GOUVEIA, pag. 01, 2014), “A presença de espiões nazistas na Paraíba foi tão corriqueira durante a Segunda Guerra Mundial, que um certo Ernest Hans ensinava às crianças de Rio Tinto (45 Km ao Norte de João Pessoa), a marchar com a cadência do passo-de-ganso do Exército Prussiano. A fim de melhor popularizar a saudação marcial ao Führer, nesta parte nordestina do Brasil, ele mandava meninos e meninas colocar a mão direita em riste, juntar os calcanhares e gritar Ôxente Hitler! Este alemão, que sumiu misteriosamente quando sentiu a polícia nos calcanhares, criou a versão paraibana da Juventude Hitlerista. E teria deixado aqui um legado tristemente célebre, se o Exército não tomasse providências, colocando sob vigilância os operários teutônicos da Fábrica de Tecidos da família Lundgreen, hoje desativada.

Tudo isto acontecia no crepúsculo da Segunda Grande Guerra. Em João Pessoa, a Delegacia Especial de Segurança e Política Social da Paraíba –DESPS – destacou-se como zeloso órgão da contraespionagem, através do investigador Policial Antônio Pereira Filho que, segundo os depoimentos da época, “sabia enxergar um súdito do Eixo a milhas de distância”. Se o suspeito possuísse sotaque estrangeiro, olhos azuis ou apertados, Pereira o encarava como um espião em potencial e o conduzia para o DESPS, para as chamadas averiguações.

As investigações da DESPS paraibana prenderam em 1943, oito alemães. Dentre esses, três despertaram as desconfianças da polícia política paraibana. Ainda segundo (GOUVEIA, pag. 02, 2014) “Entre oito suspeitos conduzidos, três se aproximaram da verdade. O primeiro foi o alemão Gunter Heinzel, 28 anos. O Policial pernambucano que o deteve na tarde de 24 de novembro de 1943, pedia aos peritos do Instituto de Medicina Legal da Paraíba que o identificasse. Gunther havia chegado clandestinamente a João Pessoa, no auge da guerra. Era acusado de ser um dos emissários de Hitler. E como tal, deveria ser confinado no Mosteiro de São Bento, em João Pessoa, ou em Camaratuba, no Litoral Norte. Em síntese, o Policial trazia de Recife uma mensagem de rádio decodificada, que dizia ser Gunther “um súdito do Eixo Alemanha – Itália – Japão, contra as Forças Aliadas”.

A Paraíba era considerada pelos aliados o calcanhar de Aquiles da América. Motivo: muito próxima da Costa da África, poderia sofrer uma invasão de tropas conduzidas por submarinos ou navios. Ou seria porto apropriado para desembarque de espiões em suas praias ermas. Por causa desses fatores, era grande a pressão de ingleses e americanos – estes últimos já instalados na base aérea de Parnamirim Field, em Natal -, no sentido de obrigar as autoridades a exercer severa vigilância sobre as famílias alemãs, japonesas e italianas que residiam em João Pessoa e cidades próximas.”

Rio Tinto no radar do DOPS

As autoridades Policiais de Pernambuco estavam em permanente contato com a polícia paraibana desde 1942 quando se iniciaram as investigações em torno da família Lundgren e sua Fábrica em Rio Tinto. Segundo (LEWIS, pag. 159, 2005), “Em fevereiro de 1942, ao abordar as atividades políticas do nordeste do Brasil, o Cônsul norte-americano Walter Linthicum, expunha a questão das ações nazistas na região. Segundo ele, “tem havido rumores nos grandes centros e as atividades nazistas mais gritantes nessa área estão em Paulista no estado de Pernambuco e Rio Tinto no estado da Paraíba”. Ainda segundo (LEWIS, pag. 159, 2005), “As cidades mencionadas ganharam a reputação de serem centros nazistas mais por causa da quantidade de alemães empregados nas fábricas”.

Nesse período, existiam 40 alemães trabalhando na fábrica da família Lundgren em Paulista e 30 na fábrica de Rio Tinto. (LEWIS, pag. 159, 2005).

Para (GOUVEIA, pag. 03, 2014) “A população nativa de Cabedelo, Rio Tinto, João Pessoa e Pitimbu, segundo os Aliados, seriam as mais potencialmente visadas pelos inimigos. As residências locais e casas de comércio eram submetidas a ocasionais exercícios de black-out. Os militares justificavam que este seria o melhor meio de reagir a um eventual bombardeio sobre as povoações costeiras (que nunca veio). Em Rio Tinto, onde havia famílias alemãs, surgia o boato de que os nazistas teriam instalado “um ninho de metralhadoras antiaéreas” no Palácio dos Lungrenens de Vila Regina.

Outras falácias insistiam na existência de rádios-transmissores nas casas dos operários alemães que trabalhavam para os Lündgreen, em Rio Tinto e Pitimbu. Nesta última cidade, uma barcaça da família Lündgreen foi vistoriada por patrulhas do Exército, sob a suspeita de que conduzia armas e equipamentos alemães. Fantasia? O que deixava a população com a mosca na orelha era a simpatia aberta que os operários alemães da Fábrica de Tecidos nutriam pelos patrícios nazistas.

Numa manifestação maior de apoio ao regime Hitlerista, os pedreiros alemães desenharam uma águia e o símbolo dos continentes na cinta do meio da Igreja de Rio Tinto. Dizia-se, então, que era a águia do Terceiro Reich e o cetro dos continentes que Hitler pretendia conquistar. Outro fato que aconteceu em 1943, trouxe maior clima de suspeitas sobre a presença de espiões nazistas na Paraíba.

A polícia de João Pessoa prendeu Horst Baron Von Strick, operário de nível da Fábrica de Tecidos Rio Tinto. Rastreado desde quando apanhou um navio no Rio de Janeiro, ele foi preso em Cabedelo, durante o desembarque. Passaram a suspeitar de Strick por causa das estranhas perguntas que ele fazia aos passageiros do navio, interessando-se em apurar o número de soldados colocados de plantão na costa da Paraíba e qual o tipo de armamento que era utilizado. Até hoje permanece a dúvida sobre a nacionalidade de Strick: a polícia não conseguiu descobrir se ele era alemão ou lituano.

Apurou-se que Strick fazia frequentes viagens a Europa. E que quase não conduzia bagagem. Para obter um álibi de legalidade nesta prisão, a polícia anunciava que “prendia os cidadãos alemães para protegê-los contra os exaltados”. Depois da prisão de Strick, gerentes, capatazes e encarregados da indústria de tecidos de Rio Tinto foram vigiados com mais rigor.

Todos esses acontecimentos em Rio Tinto foram motivados por investigações levadas a efeito pela polícia pernambucana a partir de 1942 em sua fábrica em Paulista que depois se estenderam até Rio Tinto na Paraíba. O mito do perigo alemão havia tomado conta da população da cidade com as notícias muitas delas boatos, se espalhando rapidamente, o que motivava interpretações as mais espalhafatosas possíveis, como as analisadas pelo jornalista Hilton Gouveia em sua investigação sobre os fatos que se desenrolaram na cidade de Rio Tinto.

O Sentimento anti-nazista em Rio Tinto

Ainda segundo (GOUVEIA, pag. 04, 2014) “O Comando do então 15º Regimento de Infantaria (atual 15º Batalhão de Infantaria Motorizada, no bairro de Cruz das Armas, João Pessoa) enviou duas companhias para Rio Tinto, comandadas pelos capitães Demétrius e Meirelles. Os contingentes militares permaneceram na área até 8 de maio de 1945, para controlar o sentimento antinazista propagado nessas regiões.

No dia 18 do mesmo mês ainda permanecia um pequeno contingente do Exército na área, o que impediu que famílias alemãs fossem mortas e seus bens saqueados. Tudo por causa da exaltação de José Mousinho e Frederico Baltar, que bebiam com outros, digamos, nacionalistas. O estopim da bomba foi aceso justamente quando a sirene da fábrica de tecidos anunciava a saída vespertina de 600 operários.

De dentro de um bar próximo, alguém gritou: “Vencemos a guerra. Agora, vamos expulsar os alemães”. As casas mais próximas não escaparam à fúria da multidão. Uma turma tentou incendiar a fábrica de tecidos, mas foi repelida pela guarnição do Exército. A multidão rumou para Vila Regina e vingou-se no acervo do Palácio dos Lündgreen, de onde roubou tapeçarias, quadros, móveis e baixelas de prata.

Poucos dias antes desses acontecimentos em Rio Tinto, outro fato ocorreu no litoral norte da Paraíba, reforçando mais uma vez a tese dos boatos provocados pelo mito do perigo alemão naquele momento histórico. É (GOUVEIA, pag. 04, 2005), quem narra o fato: “Poucos dias antes uma aeronave americana decolou de Parnamirim Field, em Natal, para fazer uma patrulha sobre o Litoral Norte da Paraíba. Sofreu uma pane e amerissou em Baía da Traição, a 74 Km ao norte de João Pessoa, diante da Praia do Tambá. O boato espalhado em Rio Tinto dizia que a nave fora vítima das “baterias antiaéreas instaladas no Palácio dos Lündgreen”. Não foi. Até o ano de 1984 os restos da aeronave ainda eram vistos no mar, a nove metros de profundidade. Caçadores de tesouros subaquáticos deram fim às relíquias históricas.”

De todo o exposto, podemos concluir que a partir de 1942 com a declaração de guerra do Brasil à Alemanha e com a intensificação da guerra no Atlântico, a chamada “guerra submarina”, aumentou no Brasil a vigilância por parte das autoridades Políciais, leia-se DOPS, a todos os súditos do eixo Roma-Berlim-Tóquio em território nacional. Na Paraíba não foi diferente, quando a polícia política desarticulou uma organização nazista, a chamada Sociedade Nacional Socialista dos Guerreiros Alemães, uma obscura entidade com sede em Campina Grande, prendendo seus membros as ações intensificaram-se ainda mais em território paraibano a partir de 1942.

Paralelo a isso, a Delegacia de Ordem Política e Social da Paraíba, (DOPS) em diligências com a polícia de Pernambuco, colocou a cidade de Rio Tinto no rol de vigilância contínua dos empregados da Fábrica da família Lundgren, formada em sua maioria por alemães. Debalde todos os boatos e exageros que pesem nessas ações, as mesmas se justificavam devido ao chamado “perigo alemão” tão em voga na época.

No entanto, não podemos negar que a espionagem levada a efeito pelo Abwehr alemão no nordeste, tinha em mente montar uma bem estruturada rede de inteligência partindo de Pernambuco e se irradiando por outros estados do nordeste incluindo a Paraíba, dada a sua privilegiada localização geográfica, vital para os alemães em sua campanha de guerra no Oceano Atlântico.

A lógica da desconfiança e suspeição levada a efeito pela polícia política nesse período, estava justamente assentada nessas bases, motivadas pelo já referido “perigo alemão” tão disseminado no meio da população, ainda mais quando essa mesma população era formada por súditos desses países envolvidos no conflito bélico.

As acusações feitas pela polícia política pernambucana de que a família Lundgren estaria realizando atividades de espionagem em favor da Alemanha, nunca foram totalmente provadas. No dizer de (LEWIS, pag. 199, 2005), “ A crença de tal perigo por parte das autoridades, relacionou-se a outros propósitos e foram realizadas estratégias para concretizá-los. Foi o que se verificou com Agamenon e os Lundgren, onde a acusação de nazismo sobre a família e seus funcionários estrangeiros, relacionava-se também as disputas pelo poder sobre o município de Paulista, controlado pelos industriais”.

Finalizando esse entendimento (LEWIS, pag. 182, 2005) afirma que: “A ideia do “perigo alemão” ou da “quinta coluna” possibilitava o enquadramento à ordem vigente e ao pensamento autoritário do Estado Novo. Além disso, contribuía para ampliar o controle sobre grupos ou pessoas que expressavam opiniões divergentes daquelas requeridas e permitidas pelo regime. O nacionalismo do Estado Novo estabelecia padrões a serem seguidos e uma ordem vigente que excluía idéias ou comportamentos considerados contrários à mesma”.

REFERÊNCIAS

BAUER, Carlos. Os Súditos do Eixo: Quinta-Coluna e Estado Novo

em Tempos de Guerra. História da Ditadura, 23/04/2019.

CORDEIRO, Philonila Maria Nogueira. Ascensão das Ideias Nazistas em

Pernambuco: A Quinta Coluna em Ação (1937-1945).

DIETRICH, Ana Maria. Caça as Suásticas: O Partido Nazista em

São Paulo sob a mira da Polícia Política. FAPESP: São Paulo, 2007.

GOUVEIA, Hilton. Ôxente: arquivos e documentos mostram que os

nazistas estiveram na Paraíba, Portal ClickPb, 10/12/2015.

LEITE, Juliana Ferreira Campos. Nas Páginas dos Jornais: a imprensa

e a repressão aos alemães em Pernambuco (1938-1945), Dissertação de

Mestrado, Universidade Federal Rural de Pernambuco, s/d.

LEWIS, Susan. Indesejáveis e Perigosos na Arena Política: Pernambuco,

o Antissemitismo e a questão alemã durante o Estado Novo (1937-1945),

(dissertação mestrado em história), Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2005.

SILVA, Giselda Brito. A Ação Integralista Brasileira em Pernambuco (AIB-PE):

1932-1938. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de

Pernambuco, Recife, 1996.

Imagem de capa: Pisos com suásticas foram instalados no primeiro ano de Argemiro de Figueiredo como interventor da Paraíba – fonte: Arquivo Jornal A União.

Fernando Dutra
Fernando Dutra
Iniciou-se no jornalismo, em 1985, no Jornal A União. Como jornalista, teve passagens pelos jornais A Tribuna e O Combate, neste último, por largo tempo manteve uma coluna especializada em história e literatura. Juntamente com essas atividades, participou, em 1990, da organização e revisão de coletâneas e da revisão de livros individuais - entre eles, o Dicionário Biobibliográfico Paraibano, de autoria do jornalista José Leal, editado pela Funcep. Na área acadêmica, participou de inúmeros seminários na área de ciências sociais. Especialista em órgãos de inteligência da ditadura militar no Brasil, atualmente desenvolve pesquisas sobre a atuação do Serviço Nacional de Informações no período compreendido entre 1969 e 1974. Graduou-se em história pela Universidade Federal da Paraíba, em 2009, e fez especialização em Práticas Curriculares Interdisciplinares pela Universidade Estadual da Paraíba, em 2014.

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