Eu estava revendo um vídeo do canal da Editora Antofágica sobre Machado de Assis, e Lívia Piccolo, apresentadora do canal, começa com o seguinte texto:
“Eu sei que, em geral, o primeiro contato com Machado de Assis é na adolescência, através da escola. E esse encontro pode ser… meio desajeitado. Eu mesma, quando li Machado de Assis pela primeira vez, aos 16 anos, fiquei com a impressão de que era um chato, algo de outra época que com certeza não tinha a ver com o que eu tava vivendo. […] Felizmente, a adolescência não dura a vida toda e a gente pode encontrar o autor em outros momentos.“
Meu primeiro contato com o autor foi ao ler Dom Casmurro, durante o ensino médio. Felizmente, por ter desenvolvido um bom hábito de leitura na adolescência e acumulado um mínimo de “bagagem” nesse período, esse encontro não foi tão doloroso. Foi… ok. Gostei do livro. Não achei chato, mas também não achei nada demais.
Confesso que ficava perdido com as referências que o escritor fazia. Machado gosta de citar algum pensador, escritor ou imperador romano. Sem falar nas menções às ruas do Rio de Janeiro de seu tempo. Gostei do famoso debate “traiu ou não traiu” e, pra mim, era muito clara a inocência de Capitu e o ciúme ególatra e doentio de Bento. Naquela época, eu admirava mais a figura de Machado do que, de fato, sua obra.
O tempo passou e resolvi ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, já com meus 23 anos. Eu gargalhava com o humor ácido de Machado, e os capítulos passaram voando. Me encantei com sua genialidade pura. Li Quincas Borba, outra pérola da literatura brasileira, li Helena, que mudava o estilo que estava acostumado dele. O Alienista me fascinou e abriu as portas para a leitura de seus contos, que são uma verdadeira mina de diamantes, perfeitamente lapidados e brilhantes.
Machado virou meu escritor favorito. Desde então procuro ler ao menos um livro seu por ano. O próximo será Esaú e Jacó. É uma dádiva poder ler Machado no português em que foi escrito.
Agora, caro leitor, irei parar de falar do Bruxo do Cosme Velho. Perdoe-me se o enganei com um texto que começa falando de literatura. O que eu quero mesmo é falar sobre envelhecimento. Esse era o meu plano desde o começo.
Algumas vezes encontrei amigos do colégio e eles sempre relembram os tempos de escola. Dizem que a vida era melhor, que sentem saudade daquela época e que gostariam de voltar no tempo. Eu não tenho saudade alguma desse período. Não porque tenha sido traumático (muito pelo contrário). Foi um período tranquilo, inclusive a época do vestibular. Além disso, foi no colégio que conheci o amor da minha vida, com quem me casei.
Percebo muito esse discurso de querer voltar no tempo. Esse discurso costuma ser escrito com a pena da nostalgia e a tinta da fantasia. A memória tende a apagar o que houve de ruim e exagerar os pontos positivos. Eu sinto saudade de pessoas, óbvio. Lembro com carinho de vários momentos. Preferia que a foice da morte não tivesse levado tanta gente para longe de mim, mas aconteceu.
Minha esposa tem uma prima de 10 anos que nos perguntou recentemente: “Como é ser adulto?”. Depois completou: “É ruim trabalhar?”. Provavelmente, a dúvida dela vem de todas as liberdades que a vida adulta proporciona e que ela ainda não tem, por estar sob as rédeas dos pais. Acha o colégio ruim, mas será que trabalhar é pior?
Todas as fases da vida têm seus ônus e bônus. A “falta de liberdade” da infância existe justamente pela ausência de noção sobre a vida e suas responsabilidades. A revolta da adolescência começa quando você passa a perceber essas limitações, mas ainda não tem maturidade suficiente para entender por que elas existem. Começamos a conhecer um pouco do mundo, e temos várias certezas sobre tudo. A responsabilidade começa a bater na porta com o tempo, e todas as suas decisões dependem, basicamente, de você mesmo. As certezas acabam e dão lugar a uma coisa bela, mas que também nos maltrata: a incerteza, a dúvida. Trabalho, contas, decisões difíceis, dores físicas e emocionais, tudo chega para cobrar o preço do crescimento.
O trabalho pode ser cansativo, frustrante e até injusto. Ainda assim, ele ocupa apenas uma parte da vida. É importante não permitir que se torne a medida da própria existência.
Aproveite cada fase enquanto ela ainda é a sua. Releia livros, reveja opiniões e desconfie das próprias certezas. O tempo não volta. E de nada adianta lamentar quando os primeiros vermes começarem a roer as frias carnes do seu cadáver.
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