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A Centelha Mágica

Havia, num vilarejo à beira de nenhum mapa, um jovem chamado Orestes, que vivia dos ofícios que o inverno permitia: consertar telhados, rachar lenha, remendar o silêncio das casas frias. Todo mês de julho, quando o vento cortava como lâmina, ele pegava uma lousa velha e um pincel gasto e pintava, em laranja, os dias que a estação lhe roubava. Não sabia bem por quê. Sentia apenas que, se não o fizesse, o frio venceria alguma coisa dentro dele que ainda não tinha nome.

Foi numa dessas tardes, com a tinta ainda úmida sob as unhas, que ouviu falar, pela primeira vez, da Centelha Mágica. Contava-se, entre os anciãos, que existira, desde antes da primeira fogueira, uma centelha guardada pelos deuses a sete chaves, a mesma que ensinara à Fênix o segredo de arder sem morrer, de morrer sem findar.

Os sábios evitavam pronunciar seu nome à noite. Os demais preferiam não pensar nela. O que escapa à compreensão costuma ser mais confortável quando ignorado do que quando buscado.

Orestes, porém, era feito de outra teimosia.

Largou o pincel, guardou a lousa sob o braço como quem guarda um mapa e partiu.

Andou por dentro de si mesmo antes de andar por fora.

As lembranças vieram como quem abre um baú há muito trancado: o cheiro do quintal da infância, um riso que já não tinha rosto, promessas feitas a gente que o tempo apagara sem aviso. E então, sem que percebesse a transição, viu-se diante do mar.

Um mar de cor sonolenta, cor de coisa que dorme há séculos e sonha devagar. Imenso, indiferente, como se nada do que ali se passasse pudesse feri-lo ou salvá-lo. Orestes caminhou pela areia molhada e pensou: Estará ela ali, na profundeza, esperando que alguém tenha coragem de mergulhar?

Ajoelhou-se à beira da água.

Foi então que um perfume o atravessou como uma pergunta antiga, finalmente respondida: bergamota, primeiro, cítrica e desperta; depois, lavanda, que acalma o que dói; por fim, sândalo, grave, como madeira que ainda se lembra de ter sido árvore.

Os três aromas o cercaram, o vestiram.

Orestes compreendeu que aquilo era uma das mais nobres formas de poesia: a que não se escreve, apenas se respira.

O peito doeu-lhe de um jeito bom.

As lágrimas desceram não da tristeza, mas do encontro.

Ali, entre o cheiro e a memória, entre o mar sonolento e o quintal perdido, estava a Centelha.

Não em forma de fogo, nem de joia, nem de palavra.

Em forma de instante.

Sentiu os olhos cegarem-se de tanto vê-la. Não a chama em si, mas o que ardia dentro dela.

E compreendeu, com o espanto de quem se descobre outro, que a alma lhe andava perdida de tanto sonhá-la.

O coração já não lhe batia apenas para si.

Batia para aquele instante.

Ele o segurou entre as mãos como quem segura um pássaro que pode, a qualquer momento, decidir partir.

Foi então que Amphibolía, que o seguira por todo o caminho em silêncio, aproximou-se e murmurou ao seu ouvido, querendo saber onde ele estivera.

— Procura-me ali, respondeu Orestes, apontando para o vergel que crescia, verde e teimoso, na orla daquele mar impossível. É lá que vais me encontrar, sempre que precisares duvidar de novo.

Depois, virou-se para o horizonte, onde Aion corria adiante como quem foge de si mesmo, e gritou:

— Descompassa o Cronos! Que ele voe com o vento, pois já não suporto vê-lo caminhar, contando os meus dias como quem conta moedas!

O eco de sua voz pareceu rachar as águas sonolentas do mar.

E naquele instante, talvez apenas naquele instante, que é tudo o que qualquer instante promete ser, Orestes teve nas mãos o segredo mais simples e mais impossível de todos:

a existência humana não se mede.

Acende-se.

Voltou ao vilarejo antes do amanhecer. Ninguém percebeu que ele partira. Ninguém notaria, tampouco, o que trazia consigo. Mas, quando pintou naquele inverno a lousa de laranja, algo havia mudado.

A cor já não cobria o frio.

Ardia sobre ele.

E dizem os mesmos anciãos que a alma de Orestes, daquele dia em diante, carregou o mesmo brilho de Orfeu no instante exato em que viu Eurídice pela primeira vez: o brilho de quem descobre que amar alguma coisa plenamente já é uma forma de vencer o tempo, ainda que seja, também, a única forma de perdê-lo.

Pensava nisso sempre que a lousa esfriava sob seus dedos.

Amar assim não era temer perder-se.

Era temer nunca ter ardido.

Soube, então, algo que nenhum ancião lhe ensinara: os mundos podiam girar até se desfazerem, os astros podiam apagar-se um a um na escuridão, e ainda assim a Centelha permaneceria.

Não porque pertencesse ao tempo que se mede, mas àquele que se acende.

E, para quem a encontrasse uma vez, talvez ela fosse isso: o princípio e o fim de tudo o que nele ainda pudesse arder.

Fonte da Imagem: Gerada por IA

Wagno Lira
Wagno Lira
Advogado, Ator, Cantor e Escritor. É formado em Direito pela UNINASSAU, Pós-graduado em Ciência Política e Graduando em Filosofia pela UNIFAHE.

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