Aos sair de casa, esses dias, com destino a capital, fui surpreendido, na estrada, com aquela visão que, no meu período de criança e adolescente, era tão comum. Imagine aquela sensação de entrar dentro das nuvens, de não conseguir ver dez metros além do lugar que você se encontra. Foi assim mesmo…
Eu dirigia… enquanto a neblina que cobria as serras, a vegetação, a estrada também me envolviam no seu manto branco, sagrado. Tudo era magia. Cresci chamando aquilo de névoa. Aprendo com meus pais. Eles diziam: “hoje amanheceu coberto de névoa”. “Vamos deixar a névoa cair para a gente ir para o roçado”. “Quando a névoa passar a gente vai amarrar as ovelhas no mato”. Aquela massa enorme, branca que cobria as matas, as serras e com o surgimento do sol ia se dissipando. A gente a via desaparecendo ao passo que o sol ia subindo.
Quando fui morar com padres italianos e dizia que na Paraíba nevava, eles riam muito. Nunca me esqueço, que num momento de refeição, na nossa casa religiosa, em Timon, no estado do Maranhão, não sei bem se era almoço ou jantar, uns dos padres insistiam em me perguntar: “Severo, quer dizer que na Paraíba tem névoa”? Eles falavam em tom de brincadeira e de maneira respeitosa, percebendo, assim a minha inocência e naturalidade. E eu afirmava sem titubear. Na minha a terra tem névoa sim. Só depois, conhecendo névoa na Europa e convivendo com europeus de diversos países fui diferenciando a névoa de neblina.
Para quem não sabe, Teresina é a capital mais quente do país. Existem outras cidades quentes como são Paulo, Rio de Janeiro, Palmas. Nestas cidades há uma grande inconstância no clima. Horas é quente demais e outras horas frio demais. Porém, em Teresina o calor permanece grande parte do ano. Dizem que em Teresina nem o ar é fresco. Rolam várias anedotas em torno do sol causticante no Piauí. Dizem que em Teresina os urubus voam com uma só asa. Uma é para voar outra é para se abanar. Também se comenta que pode se colocar uma folha na praça e depois ir procurar que ela vai estar no mesmo lugar. Por que não venta. Isso eu posso constatar. Um dos lugares mais frequentados em Teresina é o Teresina Shopping. O leitor já pode inferir por que. As pessoas buscam lugares que sejam frios, refrigerados. E nada melhor que o shopping ou o encontro das águas do rio Paranaíba e do rio Poti. É famoso também a história dos “bros”. Os meses que terminam com essas letras: setembro, outubro, novembro e dezembro. São meses de calor insuportável. Até as pessoas que nasceram e cresceram lá reclamam. Eu estudei no seminário diocesano. O seminário fica as margens do rio Paranaíba. Uns dez metros só de distância, entre a cozinha do seminário e o rio. Lá tem o sistema de colocar espécie de chuveiros em cima das telhas. A aquilo fica o dia todo derramando água. A gente tem a sensação de estar chovendo. Era para resfriar as telhas para a gente poder assistir as aulas.
Ainda me recordo que num determinado mês de junho, minha mãe ficou doente e eu precisei vir em casa, fazer uma visita a ela. Quem é da paraíba, especificamente a região do brejo sabe que nesse período é frio. Existem até os caminhos do frio em minha terra, Areia. Os caminhos do frio envolvem várias cidades: Areia, Pilões, Solânea, Bananeira, Arara, Remígio, Alagoa Nova, Alagoa Grande, Alagoinha… E acontece entre julho até o mês de setembro. Então, ao retornar a Teresina cheguei dizendo que lá estava frio. De fato, os termômetros de Areia assinalaram, naquele período, 12 graus. Quando falei isso lá, foi motivo de muitas risadas…piadas… ironias…
As temperaturas têm aumentado muito, infelizmente. Mas em Areia ainda se encontra temperaturas próximas a esta que descrevi acima. E estes dias revivi tudo outra vez: falta de coragem para tomar banho ao anoitecer, garoas, neblinas, uma vegetação deslumbrante e ao entrar no carro vi o céu se misturando com a terra. Havia horas que tinha dúvidas de onde começava o céu ou a terra. Tudo era lindo, era divino, era único. Tinha vontade de continuar dirigindo, porque queria voltar para casa, e tinha o desejo forte de parar o meu carro e registar tudo. Decidi, pois, registar na memória e no coração e agora, deixo aqui o registro escrito desse fenômeno sobrenatural. Eu vi a terra beijando o céu ou o céu que tomou a iniciativa de beijar a terra. O feminino no masculino, o humano e o divino. Sem sexo. Se o beijo entre dois seres terrestres já é encantador, imagine você ver humano e divino se beijando, dois divinos num beijo demorado. O beijo de um humano com o divino é indescritível. Não sei bem quem era humano e quem era divino. Só sei que essa atitude de o divino se fazer humano o torna ainda mais divino. Como Deus que armou a sua tenda no meio de nós. Ele que veio até nós por meio de seu filho Jesus de Nazaré. Há horas que não consigo separar humano e divino.
Aliás, essa separação quem fez mesmo foram os homens. Porque Deus ama o humano. Tão humano Ele é que só pode ser divino. Disse são João ao contemplar a sua santidade. Eu vi e sentir terra e céu se beijando num beijo que me envolveu e em acalmou. E por um instante, eu senti outra vez a presença sem pressa do divino no humano.
E depois, ao refletir e contemplar esse beijo do céu e da terra, me dei conta que eu fui beijado também. Se o céu tomou a iniciativa de beijar a terra bendita, ele também me beija num beijo eterno… o homem que é uma das mais belas criaturas dele. E chegando em casa, à noite, beijei o divino ao beijar o humano. Fui beijado outra vez por o humano que pode se converter num divino e pelo o divino humanizado.
