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Os Guardiões da Memória

Recentemente, durante uma banca de mestrado, ouvi o meu amigo historiador Eduardo Knack usar um termo que há muito tempo andava distante do meu repertório diário, mas que ressoou com a força de um reencontro: guardiões da memória.

Entendido de forma simples como “narradores privilegiados da história de um grupo” — se tomarmos de empréstimo a conceituação precisa da historiadora Ângela de Castro Gomes — o termo me pôs a refletir, com meus botões, sobre a importância vital dessas “sentinelas” para a constituição de qualquer saber histórico.

No reduto doméstico, o guardião da memória costuma encarnar-se na figura dos mais velhos, que não produzem apenas lembranças, mas verdadeiros acervos existenciais. Se o leitor apurar o olhar, certamente encontrará em seu próprio núcleo um tio, uma avó ou aquela prima zelosa que guarda, sob sete chaves, álbuns de fotografias amareladas, cartas que ainda exalam o perfume do tempo ou cadernos de registros onde nascimentos e partidas são anotados com o rigor de um escrivão e o carinho de um devoto.

São esses sujeitos que tecem a genealogia dos afetos. Geralmente organizam encontros de clãs, aglutinam gerações dispersas por diferentes estados e países, e presidem rituais de pertencimento que impedem que o nome dos antepassados se apague na poeira dos dias. Eles não guardam apenas objetos; guardam o direito de cada descendente saber de onde veio.

Já no mapa das cidades, especialmente nas pequenas e médias, os guardiões da memória assumem uma face quase quixotesca. São os colecionadores compulsivos: sujeitos que acumulam fotos antigas, edições raras de livros e jornais, fitas de cinema mofadas, discos de artistas esquecidos, folhetos de cordel que rememoram acontecimentos antológicos.

Muitas vezes, transformam suas próprias casas em museus particulares ou públicos, por vezes precários em técnica, mas monumentais em intenção. São chamados muitas vezes de “cronistas urbanos”, “memorialistas municipais” ou “historiadores diletantes”. De toda a forma, não importante o nome, o que os definem é a defesa ferrenha do patrimônio cultural local, seja material ou imaterial. Eles lutam contra a destruição de um casarão antigo ou da descontinuidade de uma festividade popular com a mesma garra com que escrevem hinos municipais ou materiais didáticos.

Nesta oscilação entre serem conselheiros estratégicos ou opositores barulhentos no campo político, muitas vezes vivem em pé de guerra com o esquecimento imposto pelo dito “progresso”. Em alguns casos criam entidades culturais, como institutos históricos e genealógicos ou academia de letras, – aglutinando comunidades intelectuais diversas. Ora vistos como heróis, ora como excêntricos, são eles que fornecem muitas vezes a matéria-prima bruta para os presentes e futuros historiadores profissionais. E o mais importante: criam sentidos de pertencimento para uma “comunidade imaginada”.

Porém, de todos os perfis aqui apresentados, nenhum preenche com tanta integridade a terminologia do que homens e mulheres pertencentes às comunidades ditas tradicionais. Considero nesta lógica os quilombolas, ribeirinhos, indígenas, ciganos e mestres da cultura popular os guardiões supremos. Neles, a memória não é apenas um registro, é um corpo vivo.

Narradores únicos, eles cuidam da oralidade como quem cuida de uma chama em meio à tempestade. Carregam em seus relatos as cosmovisões de gerações que o papel nunca alcançou. Quando um desses guardiões silencia, é uma biblioteca inteira que arde, pois são eles os responsáveis por manter o cordão umbilical que liga o presente à sabedoria milenar de seus antepassados.

Temos, assim, um quadro rico, amplo e pulsante. Os guardiões da memória são, em última análise, os responsáveis por garantir que a humanidade não sofra de uma amnésia coletiva. Eles são a prova de que a história, na família, na cidade ou no país, se faz com a insistência daqueles que se recusam a deixar o esquecimento vencer.

Imagem: Gerada por Inteligência Artificial

Bruno Gaudêncio
Bruno Gaudêncio
Escritor e historiador. Natural de Campina Grande-PB. Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). É autor ou organizador de quase 30 livros, destaque para Ariano Suassuna em Quadrinhos (Patmos, 2015), Pedro Américo e o Espelho do Tempo (Plural, 2022) e A Invenção do Cavaleiro da Esperança (Paco, 2023).

1 COMENTÁRIO

  1. Bela crônica, confrade Bruno Gaudêncio. Os guardiões da memória, quer seja ela material ou emocional, política, cultural ou social, são capazes de entregar um legado para as próximas gerações, assegurando assim a evolução do ser humano, individual e socialmente. Gostei muito da imagem, gerada por  IA. Parabéns!

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