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Os Interiores: Um Ensaio Sobre o Sertão Distópico e a Alma Trágica Brasileira

Apresentar João Matias e seu romance de estreia, “Os Interiores”, é, para mim, um exercício que atravessa o tempo, a memória e a amizade. Nossa história remonta a um período de efervescência cultural em Campina Grande neste início de século XXI, quando dividíamos a edição da revista Blecaute e a organização de eventos como o Encontro de Literatura Contemporânea em Campina Grande, quando buscávamos, incansavelmente, conectar o rigor do mundo acadêmico à pulsação vibrante das ruas por meio de uma boemia intelectual. João sempre foi, antes de tudo, um leitor voraz e um sociólogo de olhar aguçado, alguém que vivenciou a cidade, a pesquisa social e a literatura não apenas como objetos de estudos, mas como território de afetos e conflitos.

Desta junção rara — o rigor do pensamento social com a sensibilidade do esteta — nasceu o escritor que hoje nos entrega sua obra mais ambiciosa até o momento. Após consolidar-se como contista, João Matias preparou-se meticulosamente para o fôlego do romance. Isso tenho certeza produziu hesitações em seu processo criativo, seja de forma ou conteúdo. O resultado, embora marcado por hesitações, mais internas do que externas, acabou por produzir um livro bastante exitoso. Pois sua estreia é uma narrativa que não apenas dialoga com o pensamento social e os problemas brasileiros, mas o tensiona através da lente da distopia.

“Os Interiores” (Patuá, 2025) não deve ser lido apenas como uma ficção científica ou um exercício de gênero; ele é, em particular, um laboratório da crise brasileira. A trama ganha vida através de Tieta, uma personagem que, em um ato de ruptura brutal e simbólica, assassina seu marido, o General Mauro Müller. O General, descrito como um herói da intervenção brasileira no Haiti, representa aqui uma instituição em frangalhos, vendo-se no centro de um golpe de Estado enquanto é executado em seu próprio tapete persa. O que se segue a este crime não é apenas uma fuga, mas um mergulho em uma espiral de violência e desterro que João Matias conduz com a precisão de um cirurgião e o ritmo de uma trama tarantinesco, como bem afirmou um dos seus resenhistas mais recentes.

A marcha de Tieta pelos “interiores” revela um território que espelha o colapso institucional e ambiental do país. O autor utiliza a poderosa metáfora das “voçorocas” — crateras imensas causadas pela erosão em terras exauridas — para descrever um Brasil que está sendo literalmente engolido. Essas crateras são mais do que fenômenos geológicos; são feridas abertas na terra que refletem os vastos vazios dentro da alma nacional. Cidades inteiras desaparecem no romance, consumidas por um solo que já não suporta o peso da negligência e da ambição desmedida. É nesse cenário de aridez e poeira que a escrita de João Matias evoca a secura clássica de Rachel de Queiroz, mas com a brutalidade direta e contemporânea de um Marçal Aquino. Junção que acho pertinente em uma aparente cartografia de influências.

O sertão de João Matias é um espaço profundamente militarizado. Nele, a miséria deixou de ser vista como uma tragédia humana para ser administrada como uma ameaça à segurança. Surgem então os “tortos”, legiões de retirantes e refugiados climáticos que vagam por terras rasgadas, sendo empilhados em campos de concentração improvisados ou atingidos por tiros que não distinguem homens, mulheres ou crianças. Aqui, a questão social é, como sempre foi na história do Brasil, tratada como “questão de polícia” e remete aos campos de concentração de retirantes das secas ocorridos entre o final do século XIX e início do século XX, fenômeno pouco conhecido e estudado no Brasil.

O autor nos mostra que a distopia brasileira não está projetada em um futuro distante; ela está enraizada no nosso narcisismo burguês, no arquivo histórico das nossas secas e nas políticas que transformam a pobreza em crime. O Brasil possui uma coleção real de barbáries. Canudos na Bahia e o massacre de Carandiru em São Paulo são diferentes exemplos deste mosaico infinitos. Barbacena em Minas, os campos de concentração no Ceará, eldorado dos Carajás no Pará. A lista real é grande e espaçosa.

A trajetória de Tieta, ao cruzar zonas interditadas e cidades em colapso, ecoa a experiência histórica de milhões de brasileiros deslocados de seus horizontes de liberdade no passado. João Matias, o sociólogo-esteta, nos desafia a reconhecer que as catástrofes que narra não são episódios isolados, mas parte de um projeto histórico contínuo. O presentismo do passado transforma-se em distopia que reflete o mundo social do presente. O livro sugere que o colapso não começa quando a terra se rompe, mas quando o Estado decide quem tem direito à dignidade e quem é descartável.

Concluir este texto é reafirmar a importância de João Matias na literatura contemporânea brasileira, nordestina, cearense e porque não campinense, pois foi em Campina Grande que o ficcionista e sociólogo criou um território de formação, cujas leituras, vivências, uma educação sentimental, uma topofilia ou angústia da influência se constituiu colaborando consciente e inconscientemente na escrita de “os interiores”.

João Matias nos entrega um romance que incomoda porque é real demais; uma obra que utiliza a estética do apocalipse para nos fazer enxergar o que o discurso oficial tenta apagar. “Os Interiores” é um gesto de reconhecimento de nossas raízes profundas e de nossas crises climáticas e sociais. É a prova de que a literatura, ao acompanhar os passos de uma mulher em fuga, pode nos permitir enxergar o coração das trevas de um país que, antes de tropeçar no colapso, passou séculos ensaiando-o com perfeição.

Imagem: acervo da internet (Google Imagens)

Bruno Gaudêncio
Bruno Gaudêncio
Escritor e historiador. Natural de Campina Grande-PB. Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). É autor ou organizador de quase 30 livros, destaque para Ariano Suassuna em Quadrinhos (Patmos, 2015), Pedro Américo e o Espelho do Tempo (Plural, 2022) e A Invenção do Cavaleiro da Esperança (Paco, 2023).

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