Mais do que um review do novo disco deles, este texto é uma ode à Tangolo Mangos, escrita com todo o amor e carinho que tenho por essa banda. Formada em 2017, a Tangolo Mangos vem, há alguns anos, construindo um dos sons mais inventivos e interessantes da música brasileira atual. Misturando rock, ritmos nordestinos, experimentação e uma infinidade de outras referências, o grupo baiano transforma tudo isso numa linguagem única. A banda é formada por Felipe Vaqueiro (guitarra e voz), João Denovaro (baixo e voz), João Antônio Dourado (bateria), Theo Kiono (guitarra) e Bruno “Neca” Fechine (voz e percussão).
Eu fui aos três shows da Tangolo Mangos em João Pessoa, e sempre é uma catarse. Conheci os meninos por acaso, quando eles abriram para Vieira, justamente no dia do meu aniversário, em 2024. Um show de Vieira (músico pessoense que admiro há muitos anos) no dia do meu aniversário? Eu não ia perder por nada.
Ouvi algumas músicas da banda antes do show, para não chegar lá totalmente perdido, e já fui gostando do que ouvi. Mas foi ao vivo que fui completamente fisgado. A energia deles no palco é fora do comum. Mesmo não conhecendo as músicas, eu fui simplesmente abduzido pela banda. Logo após o show, comecei a conversar com Felipe Vaqueiro, que se mostrou a simpatia e o carisma em pessoa (nos shows seguintes, descobri que todos eles são), sobre o som da banda e como tinha achado incrível. Comprei um CD do Garatujas, ele descobriu que era meu aniversário e me deu um simpático chaveiro, que carrego todos os dias em minha mochila.
O resto é história, eles vieram mais duas vezes tocar aqui e o show foi a catarse de sempre. Uma delas inclusive registrada no Youtube pela Vila do Porto, onde dá pra ver eu e minha esposa alucinados curtindo o show na beira do palco. Nos últimos 24 meses, o único artista que tirou a banda do topo do meu ‘mais ouvido do mês’ no Spotify foi… o próprio Felipe Vaqueiro com seu trabalho junto a Sophia Chablau, o disco Handycam. Mas vamos ao disco da banda lançado (15/05/2026).
Depois dos EPs Mangas a Caminho da Feira, No. 1 (2019) e tngls_mngs.rar (2020), a banda lançou seu primeiro disco “cheio” em 2023: Garatujas. Desde então, fizeram diversos shows por todo o Brasil, além de uma turnê na Europa. Afiadíssimos, em seu novo disco PEDÁGIOS Y CARONAS, a Tangolo Mangos mostra toda a potência e confiança que já exibe nos palcos, agora plenamente traduzidas em estúdio. É aquele tipo de disco que você ouve sorrindo.

Muitas dessas músicas eu já conhecia pelas gravações dos shows da banda no YouTube (e aqui preciso deixar um agradecimento a Alexandre Matias, Vinicius Esteves, Pedro Montenegro e Rhus Pimentel, esses braços de ferro que filmam shows inteiros e os disponibilizam por lá). Algumas eu tive a felicidade de ouvir ao vivo nos dois últimos shows da banda aqui em João Pessoa.
O disco já começa com o pé na porta e um tapa na cara: um riff eletrizante e Jontonho martelando a bateria em “Armadura Armadilha”, agressivamente empolgante. Com uma vibe total de abertura de anime, Armadura é uma clássica música de abertura de show, daquelas em que eu já consigo imaginar Denovaro lançando um “MUITO BOA NOITE, JOÃO PESSOA” logo antes da música começar. A faixa termina abruptamente com o mesmo riff do começo, e logo em seguida vem um ska divertidíssimo e superdançante, que chega com outro pé na porta. Skarência traz a diversão tão características de outras músicas antigas do grupo.
“Ohayo Saravá” já havia sido lançada em 2025 no EP de Felipe Vaqueiro com Sophia Chablau, mas reaparece aqui com toda a energia e os elementos característicos da Tangolo Mangos: flautas, percussões e agora o acréscimo de metais. Enquanto a versão solo é mais tranquila, essa versão da banda é uma festa, um verdadeiro carnaval. Apesar da festa, a música traz ainda os gatilhos da vida CLT com os versos: “amanhã você vai acordar, se cansar, trabalhar, retornar, descansar…”. É impossível parar de dançar freneticamente com essas três primeiras faixas.
“DOMINÓ (Citação: ‘Falando Nisso’)”, lançada como single em 30/04, é de uma malemolência inacreditável. A linha de baixo de Denovaro e o groove de Jontonho guiam a faixa, enquanto riffs, guitarra base, efeitos de pedal e o vocal de Neca completam o charme. A partida de dominó cantada nasceu de um contexto de mudança e pertencimento vivido por Neca em São Paulo, e acabou me trazendo ótimas memórias de partidas de dominó na praça com os meus amigos.
“Sofá” é outra que já está no setlist há quase dois anos: superdançante e divertida. Na minha cabeça, as letras de “Sofá” e “Skarência” conversam como dois lados da mesma moeda. “Sofá” é daquelas músicas que dariam um clipe perfeito para eu assistir na MTV no fim dos anos 2000 e esperar ansiosamente para vê-la tocada no VMB.
A balada “Açafrão”, composta por Denovaro, eu já tinha ouvido numa live dos meninos logo após o lançamento de tngls_mngs.rar lá em agosto de 2020, quando a faixa ainda não tinha nome decidido e poderia ter sido “Suco de Limão”. Eu enxergo as primeiras notas da música chegarem como se fosse um filme gravado em Super 8, uma longa viagem de carro, o nascer do sol atrás das serras do brejo paraibano. Pra minha feliz surpresa, é a mesma linha estética da gravação acústica recentemente postada. Um incrível trabalho de direção de Sócrates Miranda. A canção traz de volta as influências do baião e é uma coisa linda, que me desperta um sentimento muito forte de saudade e vou carinhosamente chamá-la de uma belíssima “baiãoladinha”.
“Gerais do Vieira” começa tensa, conduzida pela bateria, até que entra um riff armorial. Em determinado momento, surge uma espécie de interlúdio que mistura o assobio de uma trilha de faroeste spaghetti com o rock progressivo de Hey You, em um encontro glorioso de Ennio Morricone com Pink Floyd, preparando o terreno para “Gerais do Rio Preto”, que chega com uma vibe meio southern country rock (ou em sua versão brasileira, nordeste-sertão-rock). A faixa acelera, freia, retorna em um baião-rock absurdo. Ela me lembra bastante o primeiro EP, e é a música que mais mistura ritmos e prova que o caos não é tão mal. O caos sonoro da Tangolo Mangos é excelente.
“Lua de Fogo” já começa com outra surra reflexiva, com a frase: “Em um céu distante, em outro planeta, as mesmas estrelas são outra constelação”. Ouvi essa música pela primeira vez em um show solo de Felipe Vaqueiro (registrado no YouTube por Alexandre Matias) e imediatamente se tornou uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. Ela é a minha favorita do disco. O difícil é dizer qual ficaria em segundo lugar nesse pódio. Na versão de banda completa em estúdio, ela ganha ainda mais potência e incorpora as variações rítmicas tão características do grupo, além de influências orientais em alguns trechos. É incrível como várias músicas do disco parecem crescer, crescer e CRESCER… Até finalmente acalmarem para que você possa respirar.
Olavo Bilac dizia ouvir as estrelas, mas Jontonho e Vaqueiro hoje já não conseguem sequer vê-las: no céu há apenas aviões, canhões de holofotes e giroflex. Felizmente, em noites de lua cheia, ainda conseguimos admirar a Lua em toda a sua imponência, com São Jorge incendiando-a inteira com seu dragão.
O disco então se encerra magistralmente com “Vou Acordar Com Essa Nova Ideia na Cabeça”, que me traz memórias de Diamond Sea, do Sonic Youth, e Homo Erectus Plus, da Cidade Dormitório. Traz também algumas linhas orientais e um solo magistral, em que a guitarra chega crua, me lembrando o solo de John Lennon em The End. Essa música ainda me remete a “ansiedade”, de Hipóteses, música do EP tngl_mngs.rar, mas essa talvez seja só mais uma das conexões aleatórias que minha cabeça faz.
Pedágios y Caronas é o retrato de uma Tangolo Mangos absolutamente confortável com o som que faz e, justamente por isso, dona de uma assinatura única. Como falei para Vaqueiro dois anos atrás: a Tangolo Mangos parece ter as mesmas referências que eu tive, e então cria exatamente a música que eu sonharia em ouvir.
Deno e Jontonho estão em uma sinergia fora do normal e são a espinha dorsal do disco, guiando o tempo, todas as acelerações e frenagens da banda. As guitarras de Theo e Vaqueiro (que certamente disputa o recorde mundial de cordas arrebentadas por show) são agressivas, calmas, rápidas, lentas, cruas, secas, cheias de efeitos e riffs eletrizantes que não desgrudam da cabeça. A guitarra base é perfeita, os solos são no ponto certo, e eu não consigo nem descrever o quanto eu amo o uso de pedais deles. A percussão é a cobertura desse bolo: Neca preenche as músicas, encorpa cada faixa e completa a identidade sonora da banda. Cada centímetro do palco sonoro é preenchido quando se escuta Tangolo Mangos. O disco é energia pura, exatamente a energia que eles exalam nos palcos. Para terminar com uma frase mais clichê: entre pedágios e caronas, nesse disco a Tangolo Mangos leva toda a sua potência para o mundo.
Por fim, queria dizer que a Tangolo Mangos é minha banda favorita. É incrível como, a cada fonograma que produzem, eu me conecto ainda mais com eles. Me conecto com eles no “belo”, no experimental, no psicodélico, no pop, na estética, nas letras. Dois anos atrás, um show deles mudou minha vida para sempre e, desde então, eles não saem mais do meu fone de ouvido. Esse disco consolida ainda mais o lugar da banda no topo da minha hierarquia musical, e eu já estou ansioso pelos próximos projetos, como a saga da Diamantina e outras cartas nas mangas (haha!) que eles tenham. Mas isso fica para o futuro, porque pelos próximos meses estarei completamente imerso em Pedágios y Caronas. Obrigado, Vaqueiro, Deno, Jontonho, Neca e Theo por essa obra-prima.
