Vivemos um tempo de urgências. Urgências identitárias, urgências discursivas, urgências de pertencimento. E se, por um lado, essa velocidade pode reacender vozes há séculos silenciadas, por outro, ela parece ter imposto uma lógica perversa de enfrentamento, na qual mesmo o discurso mais cuidadoso corre o risco de ser interpretado como ataque; fragilizando, assim, além do entendimento, a própria possibilidade de construção.
Dias atrás, fui tomado por um desses episódios que nos obrigam a refletir. Conversava com um artista de origem indígena sobre um projeto literário em que ele propunha resgatar, através da narrativa, os apagamentos históricos da cultura indígena nordestina após a invasão portuguesa. Um projeto nobre, sem dúvida. Ao tentar compreender os contornos da obra, ousei perguntar se se tratava de uma proposta jornalístico-histórica, como o clássico Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, de Dee Brown. A resposta foi algo como “Não gosto de categorizações, são cartesianas e ocidentalizantes”. Foi um juízo, um desvio. Não havia espaço para meio-termo.
A verdade é que eu compreendia — e compreendo — a inquietação. Mas há uma diferença entre rejeitar a opressão das categorias e recusar o próprio diálogo com elas. O livro que se deseja publicar será lido, distribuído, debatido. E, nesse mundo concreto em que livros precisam ser organizados em estantes e catálogos, gêneros e prateleiras, o gesto de dialogar com a forma pode também ser um gesto de resistência. Ao negar esse ponto, o que parecia emergir ali não era a autonomia crítica de um autor, mas o desconforto de alguém já pronto para lutar, mesmo que ninguém tivesse iniciado um combate.
O conflito é hábito para quem é do Direito; mas, quando surge como resposta a um convite ao entendimento, inibe. E tem impacto político. Digo isso com a serenidade de quem não fala de fora. Venho de uma família de raízes indígenas. Vejo traços indígenas na pele de minha mãe, em suas feições, em meus tios e primos, e vejo-os também em mim — no cabelo, na cor da pele, marcados pela ancestralidade indígena e negra. Além da comunidade histórica, minha formação em direitos humanos me ofereceu uma escuta atenta ao sofrimento antigo dos povos originários.
Escolhi não revidar. Foi também uma decisão política: eu estava diante de um público — e, naquele contexto, o interlocutor não parecia interessado no melhor argumento, mas no duelo, no sangue, em encaixotar nas — veja só! — categorias de colonizador e resistência.
Não pretendo aqui questionar a dor do outro. Sei que ela é real. Mas é preciso nomear também outra dor: a de quem tenta dialogar e encontra apenas trincheiras; de quem, mesmo vindo de dentro, não é visto como pertencente; de quem busca pontes e é visto como ameaça.
A cultura perde quando se deixa levar por esse reflexo de hostilidade. Movimentos sociais perdem. A arte perde. O gesto de escutar — este ato radicalmente político — perde. Escutar envolve risco. Muitos preferem a segurança da separação ao risco do encontro. Não é preciso que todos concordem. Não é esse o objetivo da conversa. Mas é preciso que haja a conversa. Ou, no fim, estaremos todos falando sozinhos, cercados por nossos pares, sendo aplaudidos por nossos iguais, e nos perguntando por que, com tanto barulho, ainda não nos sentimos ouvidos.

Sua reflexão se conecta com o que penso.
Em tempo de tantas divisões e tantas reparações históricas a serem alcançadas, temos que escolher as lutas que merecem atenção, não para acirrar os ânimos, mas para promovermos a conciliação. Afinal, somos todos um só gênero e pertencemos a uma só raça, a humana,.
Obrigado pela leitura, Elisângela. Concordo plenamente: reconhecer as feridas históricas não precisa significar aprofundar divisões, mas sim abrir espaço para a escuta e a construção de pontes. Escolher as lutas certas é também escolher os caminhos da conciliação — e é nesse gesto, que é político e profundamente humano, que seguimos nos reconhecendo como parte de um só tecido social.