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O Artista Plástico Literário

Antes de qualquer coisa, não era o meu plano inicial continuar escrevendo sobre Tolkien e Ariano, mas, como os pensamentos são mais fortes que as pretensões, eu cedi aos meus impulsos e dessa maneira continuo a dialogar sobre ambos, utilizando-os como apoio para o tema que me proponho dar luz: O Artista Plástico Literário!

Na coluna anterior, relatei a minha experiência ao me debruçar sobre a literatura desses dois grandes escritores; porém, omiti um aspecto que me chamou bastante atenção nas páginas de seus livros. Ocultei-o pelo simples motivo de esse aspecto não estar necessariamente ligado ao subtexto que eu pretendia discorrer na coluna: “o que faz de um livro um clássico?”. No entanto, por coincidência — ou não —, esse ponto singular está presente tanto n’O Senhor dos Anéis quanto n’A Pedra do Reino: os dois livros foram construídos em prosa, poemas e ilustrações.

Quando li O Senhor dos Anéis — o primeiro livro que li desses dois autores, conforme já confessei na coluna anterior —, eu ainda não havia lido tantos livros em minha vida. Logicamente, eu tinha consciência de que existiam livros ilustrados, mas nenhum deles, ao menos até onde alcançava meu conhecimento, havia sido ilustrado pelo próprio autor. Até então, eu só havia consumido livros concebidos em um sistema colaborativo, no qual alguém escreve e outro ilustra.

Também nunca havia me deparado com poemas entrelaçados à prosa e, principalmente, nenhuma de minhas leituras havia causado tantas impressões em minha alma quanto a obra de Tolkien. Impressionado, contemplei aquela miscelânea de elementos como uma criança que vê o circo pela primeira vez. Em minha incredulidade, questionei-me: como é possível que tantos elementos sejam elaborados por uma só mente, por um só artista?

Em O Senhor dos Anéis, temos apenas uma ilustração de Tolkien: as Portas de Durin. No entanto, encontramos os mapas completos da Terra-média e as inscrições do Um Anel na língua negra de Mordor, ricamente adornadas e transpostas para as páginas do livro pela hábil caligrafia de Tolkien, que, por si só, já constitui uma obra de arte. Contudo, foi somente com a leitura d’O Hobbit que tomei conhecimento, de fato, do Tolkien artista plástico, pois nele — talvez por se tratar de um livro infantil, concebido para agradar a seus filhos — suas ilustrações correram soltas.

John Ronald Reuel Tolkien foi uma criança que passou a parte idílica de sua infância em uma espécie de “sertão da Inglaterra”, com acesso a florestas, vales e riachos. Esse cenário serviu de palco para que ele e seu irmão mais novo realizassem inúmeras aventuras inspiradas nos contos de fadas narrados por sua mãe. Foi ela, aliás, a grande incentivadora do lado artístico dos meninos: Ronald, na literatura e no desenho; Hilary, na música. Na biografia J.R.R. Tolkien: O Senhor da Fantasia, escrita por Michael White e publicada no Brasil pela DarkSide Books, há um trecho que diz:

Para Ronald, as fantasias sobre ogros e dragões começaram a se tornar mais bem definidas quando começou a ler. Sua mãe o encorajou e apresentou-o a muitos dos incríveis livros infantis da época, fábulas inspiradoras como A Ilha do Tesouro, Alice no País das Maravilhas e histórias clássicas como O Flautista de Hamelin. Mas o mais importante para Ronald, então com sete anos, foi um livro chamado Red Fairy Book (O Livro Vermelho das Fadas, em tradução literal), de Andrew Lang. Um acadêmico escocês que recolhia, adaptava e escrevia os seus próprios contos de fadas, Lang tornou-se muito conhecido por suas antologias. Ronald adorava essas histórias e lia com gosto uma atrás da outra, sobretudo se tivessem dragões e serpentes marinhas, aventuras míticas e os feitos de cavaleiros nobres”.

Vale observar que tanto O Livro Vermelho das Fadas quanto Alice no País das Maravilhas são livros ricamente ilustrados. Inclusive, o primeiro rascunho de Alice, feito por Lewis Carroll, continha ilustrações do próprio autor, que, convencido por seu editor, acabou “aceitando” a parceria com o ilustrador John Tenniel, contratado pela editora.

Com o passar dos anos, e por motivos financeiros e logísticos, Tolkien, o irmão e a mãe tiveram de deixar o campo e ir para a cidade. Lá, o jovem Tolkien, agora frequentando uma boa escola, deve ter tido contato com uma quantidade imensa de livros; entre eles, os Romances de Cavalaria. Cabe aqui uma breve definição, para melhor compreensão dessa influência: o Romance de Cavalaria, ou Novela de Cavalaria, é um gênero literário popular entre os séculos XV e XVII, centrado em narrativas, em prosa ou em verso, que relatam aventuras fantasiosas, ideais de honra, coragem e amor cortês protagonizados por cavaleiros errantes. Essas histórias misturam fatos históricos, elementos místicos, monstros e batalhas, destacando a luta do bem contra o mal e a busca pela justiça.

Outros dois livros que Tolkien cita especificamente como influência direta, tanto para O Hobbit quanto para O Senhor dos Anéis, são o romance histórico O Douglas Negro, de Samuel Rutherford Crockett, e o poema épico medieval Beowulf. Ambos circularam, ao longo dos anos, em edições ricamente ilustradas. Outro autor que exerceu grande influência sobre Tolkien — inclusive na possibilidade de fusão entre prosa, poesia e ilustrações — foi William Morris. Um exemplo dessa fusão estilística encontra-se em seu livro A História da Planície Reluzente (1891).

Na juventude de Tolkien, podemos afirmar que esses livros, somados a tantos outros — principalmente os do Ciclo Arturiano e do Ciclo Carolíngio —, constituíam o que havia de literatura infantojuvenil e, não por acaso, todos possuíam ilustrações dos heróis ou de passagens épicas das aventuras. Sendo assim, para qualquer menino que já nutrisse gosto pelo desenho, pela poesia e pela literatura, estes livros representavam o prato cheio que alimentava o exercício criativo.

Então, meu elevadíssimo leitor, é mais do que natural que, ao se dedicar à escrita, Tolkien já sentisse o ímpeto de ilustrar. Essa seria uma forma de continuar a tradição de seus livros favoritos, agradando assim sua criança interior e também seus filhos, que cresciam rodeados pelos incontáveis livros da biblioteca do pai, entre eles os já citados. Esses mesmos filhos receberam do pai As Cartas do Papai Noel, que, posteriormente, compiladas em um livro, continham inúmeras ilustrações de Tolkien. Quando, em 1930, nosso autor começa a escrever as páginas do que viria a ser O Hobbit, esse traço de sua personalidade de escritor já estava consolidado. E essa maturidade está presente em suas cartas enviadas à editora que publicaria o livro, tanto que seu editor, Rayner Unwin, comenta em suas memórias editoriais especificamente sobre as ilustrações de O Hobbit:

“Só em 1937, Tolkien escreveu 26 cartas para a George Allen & Unwin… detalhadas, fluentes, muitas vezes mordazes, mas infinitamente educadas e exasperantemente precisas… Duvido que qualquer autor hoje, por mais famoso que seja, receba uma atenção tão escrupulosa”.

As insistências e o preciosismo do autor se mostraram corretos, visto que O Hobbit foi lançado contendo dez ilustrações, dois mapas e inúmeras runas, além de capa e contracapa também terem sido elaboradas pelo próprio Tolkien.

Todavia, vale ressaltar que, quando se alcança certo nível de maturidade — no qual entendemos nossas limitações —, podemos explorar em sua plenitude as nossas qualidades, e foi exatamente o que Tolkien fez em sua obra. Ele admitia não conseguir desenhar bem a figura humana, cujas tentativas foram descritas como “cartunescas, como se uma mão diferente estivesse envolvida”. É justamente isso que podemos constatar nas ilustrações de O Hobbit: pouco ou nenhum ser semelhante à forma humana é representado. Predominam, nas imagens, paisagens, edificações e cidades. No entanto, nelas podemos perceber um artista habilidoso, que aplica perspectiva e linhas com o mesmo talento com que elabora ilustrações de natureza geográfica ou cartográfica, transmitindo a atmosfera de fantasia que o livro exige.

Inicialmente, todas as ilustrações d’O Hobbit foram publicadas em preto e branco, a meu ver, por dois motivos. O primeiro, financeiro: vale lembrar que, dois anos depois do lançamento do livro, o mundo mergulhou na Segunda Guerra Mundial — e nenhuma guerra começa do dia para a noite; há sempre uma conjuntura, principalmente econômica, envolvida. O segundo motivo pode ter sido a influência dos antigos livros de cavalaria e dos contos de fadas lidos por Tolkien, que continham ilustrações predominantemente em preto e branco. Porém, Tolkien, como todo artista de gênio, se mostrava insatisfeito com seus resultados. Aproveitando o sucesso e as novas edições d’O Hobbit, ele refez as ilustrações convertendo-as em belíssimas aquarelas, o que deu um ar ainda mais fantástico a sua obra.

Por toda sua vida Tolkien desenhou, no entanto, ao criar o seu universo, a Terra-Média, a sua produção plástica ganhou um novo sentido. Isso fica comprovado nos seus manuscritos do Silmarillion, livro publicado post mortem pelo seu filho Christopher, que narra os eventos mitológicos de origem da Terra-Média. Há inúmeras ilustrações de Tolkien sobre os contos do livro, mas as que mais me impressionaram foram os ladrilhos-heráldicos das casas reais descritas em suas páginas, que por sua vez possuem influência direta do já citado William Morris, que, para termos uma noção, ao longo da vida criou mais de 600 padrões para papel de parede, têxteis e bordados, mais de 150 padrões para vitrais, três fontes tipográficas e cerca de 650 ornamentos tipográficos.

No ano de 1927, enquanto na Inglaterra o jovem Tolkien escrevia os manuscritos do que viria a ser o Silmarillion, na capital da Paraíba nascia um menino que inicialmente foi chamado de Pedro, mas que graças ao santo de seu dia de nascimento, foi batizado como Ariano Suassuana. Filho de um ex-presidente do estado, título referente ao governador da época, Ariano foi levado com três anos de idade para a cidade de Sousa, mais especificamente, para Fazenda Acahuan, que por si só já uma edificação castelar fantástica, localizada no Sertão Paraibano, que havia sido aquirida por seu pai após a conclusão de seu mandato.

Mas, assim como Tolkien, aos 4 anos de idade Ariano perde seu pai. Adianto aqui que esse será o mote da terceira coluna que irei publicar: As semelhanças nas trajetórias de vida entre Ariano e Tolkien. A criança é forçada, junto aos seus irmãos e mãe, a venderem a Fazenda Acahuan e se mudarem para a cidade de Taperoá, no Cariri Paraibano onde residia grande parte da família de sua mãe. Lá todos eles estariam protegidos da conflagração que se encontrava a Paraíba e que foi o motivo da morte de seu pai, assassinado covardemente pelas costas com um tiro.

O pai de Ariano, João Suassuna, foi um grande leitor e por consequência, por ser um homem de poses, deixou uma considerável biblioteca para os filhos. Vale salientar que nessa época, no Sertão Paraibano, nem os municípios possuíam bibliotecas, primeiro devido ao isolamento geográfico das localidades e em segundo lugar porque havia necessidades básicas mais urgentes. Dessa maneira, ter acesso a esse universo literário era um grande privilégio que o jovem Ariano aproveitou enormemente. Citando um desde livros da biblioteca de seu pai, em entrevista ao repórter Pedro Bial, esta Scaramouche do escritor italiano Rafael Sabatini. Já em um documentário, uma prima de Ariano revela também o grande interesse dele pela obra de Monteiro Lobato, que na juventude de Suassuna, despontava como um grande autor nacional de literatura infantil. Posso estar enganado, mas acredito que a pedra fundamental do jovem Ariano, tanto na questão já citada da fusão entre prosa, poema e ilustração, como na questão de sua conexão com os Romances de Cavalaria, tenha sido o Dom Quixote, livro tão referenciado por ele em suas Aulas Espetáculo.

E em paralelo a este contato quixotesco, tem a ligação do jovem Ariano com a arte de sua terra, de seu povo, e esse se deu em profundidade quando Suassuna foi para o Recife, capital do vizinho estado do Pernambuco, para estudar, e, especificamente, quando ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Na entrevista citada, ele comenta que já havia tido contato em Taperoá com o teatro do dramaturgo norueguês Henrik Johan Ibsen, por intermédio do médico da cidade que o emprestou uma coleção contendo suas peças teatrais. Como acredito que acontece com todos os escritores quando algo lhes impacta, Ariano imediatamente começou a tentar escrever peças. Mas ele mesmo confessa que o que escrevia não era a sua verdade e sim a verdade de Ibsen. Foi somente na Faculdade de Direito, em contato com o grande Hermilo Borba Filho, com quem viria a montar o Teatro do Estudante, que Ariano encontrou o que viria a moldar toda sua produção artística.  Hermilo, com a sensibilidade dos mestres, percebeu que aquele engraçado jovem sertanejo se identificaria muito mais com as peças do espanhol Federico García Lorca do que as do norueguês.

Como todos sabem a Espanha tem uma parcela enorme de Sertão, então nada mais natural que Suassuna identificasse, nas histórias de Lorca, paralelos com a cultura e os tipos humanos que ele teve contato por toda a sua infância em Taperoá: O circo, o circo-teatro, o teatro de mamulengos, os autos guerreiros, os cordelistas, os cantadores e uma infinidade de personas que influenciariam diretamente a sua obra, como o famigerado Chicó, que existiu e viveu em Taperoá. Ainda na citada entrevista, ele afirma que foi um processo natural identificar, especialmente no Cancioneiro Cigano, de Lorca, inúmeros traços do nosso Romanceiro Nordestino. E o que seria um romanceiro? O romanceiro é uma coletânea ou conjunto de romances, poemas narrativos tradicionais, geralmente de origem indefinida e transmitidos oralmente, que refletem a cultura, a história, os valores e o imaginário coletivo de uma nação, de um povo ou uma comunidade.

E este acaba, a meu ver, sendo o ponto de virada de Suassuna. A partir destas influências toda sua obra passa a dialogar com a produção artística de seu povo, em especial, conforme ele afirmou diversas vezes, o Folheto de Cordel. Quando Suassuna nasceu em 1927 o cordel estava consolidada como a “literatura e o jornal do povo”. Tudo era transmitido através dele. Desde as notícias sobre Lampião, até velhos romances herdados da península ibérica. E ao se consolidar no meio do povo nordestino, o cordel emitiu três características principais: A Rima e a Metrica que permitiam uma absorção altamente musicada; A Enredo que por via de regra era rápido e simples, contendo início, meio e fim; E por fim, já nos meados dos anos 1940, a consolidação da Xilogravura como identificação visual instantânea do objeto cordel.

Ariano, com toda sua formação erudita e seu tino de gênio, logo percebeu todo o potencial daquele pequeno artefato. A partir do Folheto de Cordel os artistas poderiam se inspirar para seguir por inúmeros caminhos artísticos, como o cinema, o teatro, a música, as artes plásticas, a prosa e a poesia. E o mais importante de tudo, gerar uma arte com raízes genuinamente brasileiras! Ciente disso e, com incríveis 27 anos de idade, ele escreve, depois de compostas algumas peças com o novo olhar, a maior peça do teatro brasileiro: O Auto da Compadecia. Conforme Suassuna revelou posteriormente, a tradição do auto estava esquecida há séculos, dessa forma, ele, inspirado por três Folhetos (“O Dinheiro” ou “O Testamento do Cachorro” e “O Cavalo que Defecava Dinheiro”, de Leandro Gomes de Barros, e “O Castigo da Soberba”, de Silvino Pirauá de Lima) reativou esta tradição.

Bastava o Auto da Compadecida para o nome Ariano Suassuna ficar marcado para sempre no panteão da cultura brasileira. Mas meu conterrâneo foi além, empurrado para frente pela sua descoberta. Entre as aulas, a família, os compromissos que a vida de dramaturgo acumulava, Suassuna escrevia. Até que outro ponto de virada se deu em sua vida: O Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Para aqueles que não sabem o enredo desenvolvido pelo escritor mineiro tem como espinha dorsal o romance medieval português d’A Donzela Guerreira. Agora me falha a memória, mas acho que foi ou João Cabral de Mello ou Raquel de Queiroz que, ao ter lido o Grande Sertão, em conversa com Ariano, afirmou que ele seria o único nordestino capaz de fazer uma obra a altura. E aparentemente, ele aceitou o desafio.

Suassuna, pelo que se pode constatar, era um entusiasta de “obras grandes”, a exemplo d’Os Sertões de Euclydes da Cunha (que continha mapas e algumas ilustrações compostas pelo autor) e o Dom Quixote de Miguel de Cervantes, conforme já citei. Logo, foi natural o nível de mergulho que ele dedicou a provocação feita. Inicialmente, ele pensou em um livro que narrasse a trajetória de seu pai, uma espécie de biografia romanceada, pois, conforme confessou em entrevistas, uma das formas de vingar o assassinado de seu foi através da literatura. Mas os planos mudam, os personagens ganham vida e voz e depois de doze anos de pesquisas e escritos o romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta foi lançado, como primeira parte de uma trilogia, em 1971 se consolidando imediatamente como um clássico da literatura brasileira.

Assim como Tolkien, meu conterrâneo foi fortemente inspirado pelos Romances de Cavalaria e a fusão de prosa, poema e ilustração também está presente na Pedra do Reino, no entanto, Ariano agregou ao seu castelo de influências uma que o inglês não teve acesso, justamente o Folheto de Cordel, em especial, tratando de ilustrações, a Xilogravura. De fato, essa não é uma arte puramente brasileira, conforme explico neste outra coluna (Link aqui). Independente disso, ela foi adotada pelos nossos poetas cordelistas que, a partir de seus entalhes únicos na madeira, criaram a insígnia visual do Nordeste brasileiro. Dessa maneira, ao elabora o seu grande romance, Suassuna compôs suas ilustrações diretamente influenciadas pelas artes de capas dos nossos Folhetos de Cordel.

Entretanto, inicialmente, Ariano inseguro procurou o seu amigo Francisco Brennand, grande artista plástico pernambucano, para ilustrar seu livro. Brennand declinou do convite e indicou outro amigo Aloísio Magalhães, designer gráfico também pernambucano, mas logo mudou de ideia decidindo acender a centelha criativa de Suassuna, insistindo para que o próprio autor ilustrasse o romance. Era de conhecimento de Francisco que Ariano havia tido experiências plásticas junto ao Gráfico Amador, um movimento que buscava imprimir pequenas tiragens de obras da cena pernambucana. Ariano acatou o conselho de Brennand e fez todas as ilustrações contidas na Pedra do Reino.

Diferente da obra inicial de Tolkien, O Hobbit, as ilustrações da Pedra do Reino têm um motivo narrativo para estarem lá. Na narrativa do livro elas foram elaboradas por Taparica Quaderna, irmão do protagonista, Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, que as utiliza como evidências ao tentar provar sua inocência diante o processo judicial que vem sofrendo no decorrer do livro, que por sua vez é, em grande parte, a narração deste mesmo processo. No Senhor dos Anéis, Tolkien evolui neste conceito e também passou a justificar as imagens contidas no livro. Tolkien era um filólogo e por este motivo tinha como matéria de estudo e profissão a pesquisa de inúmeros manuscritos medievais ingleses. No imaginário que ele criou para si, ele não criou O Senhor dos Anéis, ele o traduziu do Livro Vermelho do Marco Ocidental, assim como fez com vários manuscritos verdadeiros. Nesta grande obra, que, posteriormente O Hobbit passou a integrar, ele descobriu não somente uma história fantástica, mas também evidências, como mapas, ilustrações e pergaminhos que “provavam” a existência da Terra-Média. Ambas foram soluções engenhosas para ilustrações contidas em suas obras.

Um ano antes do lançamento da Pedra do Reino, em 1970, Ariano Suassuna lança no Recife o Movimento Armorial. Este projeto formava uma corrente de pensamento e de fazer artístico-cultural que buscava criar e incentivar uma arte erudita a partir das raízes populares do Nordeste/Brasil. Assim, publicado no ano seguinte, a Pedra do Reino se tornou (e perdão por isso) a pedra fundamental do movimento, pois este livro unia em si todos os elementos que o movimento propunha. Além das belíssimas ilustrações, contendo padrões de equilíbrio visual e simetria muito bem definidos, em preto e branco, baseadas na Xilogravura nordestina e que representam cenas do romance, Ariano desenha bandeiras e mapas, tudo conversando em perfeita harmonia com a sua literatura e os seus poemas.

A partir da aceitação da Pedra do Reino, acredito que Ariano tenha obtido a validação interna, oriunda da externa, para produzir cada vez mais no campo das artes plásticas. Seguiu-se então o seu livro de Ferros do Cariri: Uma Heráldica Sertaneja (1974), que deu origem ao seu alfabeto armorial criado pelo próprio Ariano a partir das referências dos ferros de marcar gado das famílias sertanejas. Na década de 80 surgiram as suas iluminogravuras, baseadas nas iluminuras medievais, lhe oferecendo mais uma vez a possibilidade de unir elementos da gravura nordestina à uma forma clássica, no caso o Soneto Petrarquiano. Várias outras criações foram elaboradas por Suassuna e muito melhor do que eu, as descreve o professor Carlos Newton Júnior em sua recente palestra na Academia Brasileira de Letras (link abaixo):

Já me aproximando da conclusão do texto, e já pedindo perdão ao elevadíssimo leitor pela sua extensão, aponto que a síntese do pensamento-suassuna, em termos de fusão artística, é a sua obra póstuma Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores. Assim como o Silmarillion foi para Tolkien o livro de sua vida, em termos justamente de síntese artística, o Dom Pandero consagra Ariano como um grande vanguardista literário. Além das gravuras, ricamente inspiradas nas pinturas rupestres pré-históricas brasileiras, além da prosa e dos poemas, há também um outro elemento que me impactou bastante: A presença de um QRCODE no livro que direciona o leitor para o vídeo de uma aula espetáculo de Ariano.

Na aula, Suassuna, representa o personagem do livro, fazendo com que o leitor mergulhe em seu universo por completo a partir dessa interatividade que o recurso oferece. Alguns críticos, que não entenderam a obra, a taxaram de confusa. Essa é uma avalição de quem justamente não está familiarizado com o conceito do Artista Plástico Literário, que, já no caso do Dom Pantero, é extrapolado por Ariano fazendo-o mutar para o Artista Literário, uma vez que com a possibilidade interativa que Suassuna nos apresenta, o escritor pode, além de desenhar e pintar, encenar, recitar ou até mesmo cantar. Para quem sempre carregou o injusto título de retrógrado por toda a sua caminhada cultural, devido a sua defesa da tradição, Ariano, transcendendo a mortalidade da crítica, enfrenta o futuro com a imortalidade inovadora que somente pessoas de gênio tem acesso.

Bom, agora assumo: Eu os imito! Vou continuar a fusão que tanto me agrada, de prosa, poemas e ilustrações, e que tão bem foi realizada por Tolkien e Ariano. E já, literalmente, copiei a ideia do QRCODE em meu primeiro livro de poesias, direcionando o leitor para as gravações nas quais eu declamo em vídeo todos os poemas contidos no livro. Já passei a realizar todo o design gráfico das capas dos meus livros. Já passei a desenhar todas as capas dos meus cordéis. Já passei a explorar as artes gráficas contidas em minhas obras através de quadros e outros objetos. Tudo isso sendo passado a limpo pelo mais rigoroso dos julgamentos: o meu! O Artista Plástico Literário é a forma que eu encontrei para definir estes dois escritores que ilustraram as suas próprias obras e que, pelo peso literário delas, foram vistos como artistas plásticos menores ou até infantis. Porém, o que a realidade nos revela é que tanto Tolkien quanto Ariano, deram vida aos seus textos, inspirando milhares de pessoas e identificando-as e identificando-os, instantaneamente, em um gigantesco oceano de livros e de autores. A infantilidade de ambos está contida em suas almas de meninos encantados pelos seus romanceiros, jamais em suas artes plásticas ricamente elaboradas a partir da coletividade de seus povos.

O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio

Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano, Igor Gregório.

Data: vinte e seis de janeiro de dois mil e vinte e seis

Igor Gregório
Igor Gregório
Nasceu na Parahyba. Escritor por vocação, já publicou vinte e um Folhetos de Cordéis, chegando a ser contemplado com premiações estaduais. Em 2023 publicou seu primeiro de livro de poemas: Alma-de-Gato no Voo da Alvorada. Além do trabalho impresso, tem uma produção ativa nas redes sociais, colunas e em saraus.

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pelo belo texto. o paralelismo existente entre esses dois escritores mostra a universalidade da criatividade.

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