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Só sei que de nada sei

É assombroso e chega até a parecer contraditório quando uma pessoa que não sabe filosofia ouve da boca do pai da ciência filosófica uma expressão dessa natureza. O que elas não sabem é que essa é verdadeira posição de um filósofo diante do conhecimento.

Quando Sócrates se posicionou dessa maneira, quis dizer mais ou menos isso:

Só sei que de nada sei, apenas eu.

Só sei que de nada sei que as gerações que vieram antes de mim também não pudessem ter sabido.

Só sei que de nada sei que aqueles que vierem depois de mim também não poderão saber.

Só sei que de nada sei completamente.

Só sei que de nada sei que não possa saber juntamente com os outros também desejosos e capazes de saber.

Só sei que de nada sei que qualquer pessoa também não possa saber.

Só sei que nada sei que não possa ser questionado ou até mesmo refutado.

Só sei que nada sei que me impeça de saber mais ou continuar sabendo, sempre.

Só sei que de nada sei que deveria, de fato, saber. 

Só que de nada sei que não me reste dúvida sobre sua veracidade.

Só sei que de nada sei que seja puro. Existe conhecimento puro?

Só sei que de nada sei que não possa saber sempre mais.

Só sei que de nada sei eternamente. O conhecimento é sempre anterior e posterior a nós mesmos.

Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia, expressou isso dessa forma: “Sei que ignoro e sei que sei. Por isso, tanto posso saber o que ainda não sei como posso saber melhor o que já sei. E saberei tão melhor e mais autenticamente quanto mais eficazmente construa minha autonomia em respeito à dos outros”.

O patrono da educação brasileira também se referiu a essa sabedoria em sua Pedagogia da esperança. Ele revela que passou juntamente com outros amigos, a noite inteira enredados numa conversa movida por querer bem e pela curiosidade inquieta de saber.  E nesses termos ressalta: “Por essa curiosidade que só tem quem, sabendo que sabe, sabe que sabe pouco e que precisa e pode saber mais. Essa não é curiosidade que tenha quem se saiba abarrotado de saber.

Isac Newton também expressou essa sabedoria socrática mais ou menos nesses termos: o que nós sabemos é um pingo. E o que nós ignoramos é um oceano.  

O nosso saber será sempre e decididamente inferior aos nossos não saberes. Talvez esteja aí mais uma chance para nós homens nos debruçarmos sobre a nossa relação de finitude diante da infinitude de coisas, seres, fenômenos que existem e coexistem conosco. O só sei que de nada sei socrático não revela burrice, mas uma sabedoria profunda, sabedoria das minorias frente a maioria.

Eu sei. E sei que sei. Mas tenho consciência de que aquilo que sei nunca deve impedir de eu continuar na busca de saber mais e enquanto mais e mais eu souber mais e sempre mais haverá para saber.

Poeticamente falando, existe uma relação entre o horizonte e o conhecimento: os dois são absolutamente infinitos.

É possível o infinito caber dentro do finito?

Referência  

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança. Um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. 

Redação
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