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A Moça do Sonho

Mainha costumava dizer que nossa família tem um dom estranho: prenúncios, sinais, sonhos premonitórios.

A noite era fria, e o frio era tal que até o pensamento era fleumático. Eu, deitado na rede, observava o mundo como quem está de fora, um gato deitado comigo oferecia algum conforto a meus pés.

Ocorre que, sem anúncio prévio, comecei a vagar por um jardim que não era o meu — era o de minha mãe. Mas parecia mais amplo, mais escuro, num tom azulado que minha casa assumia em tempos de chuva. Naquele sonho, minha mãe havia morrido, e eu, por razão que desconheço, caminhava descalço em sua terra molhada. Um perigo, um prenúncio, eu precisava lhe avisar, mas ela não estava mais ali, não poderia.

Os arbustos eram mais altos do que realmente eram, menos folhas, mais terra, e a terra era escura, como parecem ser os terrenos férteis. A casa era maior do que era, e estava em ruínas. Uma lâmpada sequer ligada.

Uma casa morta.

(E aquele sentimento opressor de que alguma coisa terrível estava para acontecer.)

Mainha! — eu gritei, mas não ouvi minha própria voz. Não ouvimos nos sonhos, só alucinamos.

Onde antes havia uma grade, lá estava, do outro lado do terreno, uma mulher numa camisola branca, seda bonita, quase cintilante naquela penumbra. (“quase”, pois nada realmente brilhava ali; era tudo azul-negro e suas diversas gradações.)

Ela se aproximava, e eu me aproximava também, com alegria nos olhos. Finalmente enlouqueci!

E a abracei. Que saudade! Seu corpo era fino, e tão frágil que temi se quebrasse enquanto a abraçava.

Não vi seu rosto exceto por um relance. Outra alucinação?

Acordei, assustando o gato. Mainha! Passava da meia-noite, ela não atendeu.

Ela estava bem. No outro dia, falei do sonho e do quanto ela fazia falta. Almoçamos juntos, conversamos trivialidades, ela manifestou preocupação com minha alimentação.

— Temi que fosse um encontro com o além-vida… Nunca se sabe!

— Eu estou bem, meu filho… — repetiu ela. Seus olhos pareciam cansados. Os meus também. Todos temos feridas que não irão cicatrizar. Perder alguém que se ama é uma dor à qual todos estamos fadados, mas nós… Quantas perdas tivemos numa vida tão curta… Mainha, não parta antes de eu lhe dizer adeus!

Imagem: Ophelia (1851–1852), de Sir John Everett Millais

Pedro Pereira de Sousa Neto
Pedro Pereira de Sousa Neto
Advogado, escritor e gestor cultural, foi Ouvidor da Comissão de Arte e Cultura da OAB-PB, sócio da União Brasileira de Escritores na Paraíba e cofundador da Cia Multicultural Art’Spaço. Publicou o romance Dois Sonhos: Primeiro Sonho (Viseu, 2024), desenvolvido com patrocínio do FAC-DF. Em 2025, realizou em Santa Rita a palestra de formação literária Entre Sonhos e Realidade, pela PNAB.

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