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O Estado sou Eu

(Dizem que para conhecer alguém basta lhe dar dinheiro ou poder. A experiência mostra que o provérbio não mente.)

O Poder, como a linguagem, não é coisa externa a nós, mas está em nós, constituindo e formando quem somos, condicionando e mesmo moldando nossas performances. As condutas que impomos aos nossos filhos, a folha de ponto, os requisitos de admissibilidade de uma petição inicial — tudo isso é Poder, dissolvido em autoridades e instituições, em normas e punições, em TOCs e TODs, em neurose e esquizofrenia.

Observe e verá que, em alguns casos, autoridades e instituições se confundem: o homem já não é carne e desejos, mas conceito, metafísica; o político ou o doutrinador, personificação do certo e do justo.

Quem sou eu para julgar? — depois de duas horas de julgamento. Essas confusões são humanas, e são tão válidas quanto é válida a imperfeição do homem. Mas isso carrega o gérmen de sua corrupção: se não sou homem, sou história e conceito; e já não tenho as obrigações de um homem comum, cidadão e jurisdicionado — transcendo a um nível em que todo ato é legítimo, nem que faça chorar, sangrar, morrer.

Lembro de Raskólnikov, de Crime e Castigo (Dostoiévski, 1866); personagem que, arrogando-se um quase Além-Homem, achou que tinha direito sobre a vida de uma velha usurária, matando-a e lhe roubando — não pelo dinheiro, mas para provar que podia.

Lembro dos nossos juízes também, pois conheço muitos que violam prerrogativas, decidem contra legem e se vangloriam disso — e o fazem pelo Poder, porque eles podem.

(Antes que partidarizem esse impotente texto, eu digo: também lembro de certo político que, podendo assumir a vanguarda em plena crise sanitária e talvez até conquistar uns votos, preferiu o negacionismo, pelo custo da verdade e porque, vejam só, ele podia.)

Raskólnikov foi preso, um reles estudante sem renda. Mas e os juízes? E os políticos?

Ah, Além-Homens…! Torço para que sejam presos. De todo modo, seu destino há de ser o esquecimento; alguns altares bajulatórios, que também serão esquecidos; um ou outro nome de rua que, já sem sentido, no futuro será alterado.

Eles passarão — digo isso sem a candura do Mário Quintana. A vida é luta, meus amigos. A vida é luta!

Crédito da imagem: Raskólnikov e Marmeládov (1874), de Mikhail Klodt.

Pedro Pereira de Sousa Neto
Pedro Pereira de Sousa Neto
Advogado, escritor e gestor cultural, foi Ouvidor da Comissão de Arte e Cultura da OAB-PB, sócio da União Brasileira de Escritores na Paraíba e cofundador da Cia Multicultural Art’Spaço. Publicou o romance Dois Sonhos: Primeiro Sonho (Viseu, 2024), desenvolvido com patrocínio do FAC-DF. Em 2025, realizou em Santa Rita a palestra de formação literária Entre Sonhos e Realidade, pela PNAB.

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