Por trás de uma pergunta como essa se esconde uma afirmação clandestina, infundada e de uma desonestidade intelectual sem precedentes. Mas é claro que a filosofia não serve para nada quando essa afirmação parte de pessoas que não fazem nada sem que haja um interesse, material e imediato. Quando nasce de pessoas que não estão nem aí para reflexão, para duvidar das próprias coisas que pensam, para perguntar a própria pergunta e uma vez encontrando a resposta fazer de novo a pergunta.
Já dizia o grande filósofo grego de Estagira Aristóteles: “O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz”. Esse movimento nada tem de interessem-te para quem está preocupado em apenas ter….Aliás, a posição e conjugação do verbo “servir” dentro da pergunta que dá título a este texto já indica o tipo de ser que elabora tal questão. Todavia, Luís Fernado Veríssimo já dizia “Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas”. Será que quem faz esse tipo de pergunta não já tem a resposta?
Sem negar o valor filosófico e pedagógico da arte de fazer perguntas, é preciso ainda dizer que por trás de certas perguntas reside o medo ou a covardia de se dizer o que se pensa, de não se dizer diretamente aquilo que se pretende. Dizer que a filosofia não serve para nada, é uma postura muito própria de pessoas que têm a mente atrofiada ou que têm respostas para tudo. Quem é de todos não é de ninguém. Quem faz tudo não faz nada. Quem tem tudo não tem nada. Quem sabe tudo não sabe de nada. Pessoas que sabem de tudo conseguem saber de algo com profundidade?
Todavia, a filosofia tem semelhança com terapia psicológica. A filosofia como também a terapia psicológica não dá respostas prontas para os nossos problemas. A psicoterapia devolve a pergunta ao cliente para que ele vá, paulatinamente, auxiliado pelo terapeuta, encontrando as respostas. A Filosofia, por sua vez, pergunta a própria pergunta ou dizendo em outros termos, ela trata das causas supremas e absolutas de todas as coisas existentes. Elas desejam oferecer ao leitor ou cliente meios apropriados para se andar nos caminhos que se almejam ou encontrar os caminhos pelos quais se desejam caminhar ou ainda se livrar de barreiras que nos impedem de continuar caminhando.
Numa sociedade marcada pelo capitalismo, pela ansiedade, pela saturação de informações, de leituras apressadas e de releeses feitos por meio da IA e de pessoas tolhidas por interesses pessoais e de natureza, sobretudo, materialista…. é óbvio a aversão à Filosofia. No que tange a inteligência artificial prefiro manter-me na postura proposta por Cortella: nem informatofobia nem infortatolatria. A inteligência artificial está sob a inteligência humana e a Filosofia busca algo que supera em grande estilo as duas. Porque todo sábio é inteligente, mas o inteligente para ser sábio necessita ter algo mais. Só o sábio poderá inferir esse “algo a mais” que estamos nos referindo aqui. O sábio jamais faria uma pergunta como essa que dá nome a este artigo. Certamente ele a inverteria: para que não serve a filosofia? Esse será o título para outro texto.
Existem coisas que não necessitam de muitas explicações, elas existem porque existem e por si mesmas têm sua razão de ser. A filosofia, dizia Habermas, é a força do argumento sem força. Quando nós dizemos, por exemplo, “ninguém está isento de nada”, “a história é consistente”, “nada vai ficar sem respostas”. Essas construções sintáticas têm, em sim mesmas, uma força objetiva, lógica e filosófica tão grande que não necessitam de força físicas para serem proferidas ou ouvidas. Não é preciso gritar. Para dizer a verdade não precisa ir contra ao vento. Assim, é a filosofia. Ela retira de nossa frente os empecilhos que nos atrapalham ou impedem de ver as coisas como elas são. Não é à toa que ela busca a verdade. Sim, a missão da filosofia é a busca pela verdade.
Agora você entende porquê tem gente que diz que ela não serve para nada? Pessoas que não são livres, que escondem a verdade, que passam longe de uma postura baseada na sabedoria, detestam a filosofia. De modo meio que desinteressado procure conhecer pessoas que aparecem com esse tipo de pergunta. Elas carregam em si essas características “inconscientes”.
A filosofia, segundo grandes filósofos, é a busca pelo conhecimento e compreensão da realidade, do ser humano e do mundo, através da razão e do questionamento. Ainda se faz necessário dizer ao leitor que de todos os elementos que marcaram o nascimento da Filosofia, a admiração é o mais importante.
Vejamos que ao falar um pouco da admiração, conseguimos justificar tudo que fora dito anteriormente sobre a atitude deletéria de algumas pessoas em dizer que a filosofia não serve para nada. Admirar é ver por dentro, ver de forma diferente, ver o que poucas pessoas conseguem ver, não porque são incapazes, mas porque não se dispõem para tal. Admirar é ver com uma espécie de lupa ou de microscópio. A admiração é a atitude das crianças, dos filósofos, dos poetas, dos santos – santos não no sentido empregado pela igreja católica. Para começar o exercício de admiração é preciso aprender a ver de novo tudo que já fora visto. É preciso desver o visto para vê-lo sob outra ótica. A atitude de admiração está profundamente relacionada com a postura de pessoas que são capazes de rever, de mudar o olhar, de redirecionar a pergunta, de duvidar do que veem, do que pensam do que sentem. René Descartes já dizia que os nossos sentidos nos enganam.
E aí você, como uma gama de pessoa, ainda vai continuar fazendo perguntas interesseiras como essas: “para que serve a filosofia?” Ou é você que não é capaz de ver as coisas de outra forma, que envelheceu precocemente, que não sabe fazer perguntas, que pretende continuar ocultando a verdade, que tem medo de liberdade ou que não está nem aí para refletir sobre os sentidos supremos, absolutos e sublimes da vida humana? A visão utilitarista, interesseira das coisas e da realidade é própria de quem não consegue pensar além dos seus interesses, materiais, imediatos e só consegue ver em cada pessoa humana, uma forma de se ganhar, inclusive, dinheiro. Escolas e igrejas estão repletas desse tipo de seres que sem pensar, “pensam” dessa forma.
Da próxima vez que você ouvir esta pergunta, inverta a questão. Pergunte a pessoa para que não serve a filosofia? Talvez ela não consiga, sem a ajuda de um ser que pense mais do que ela, perceber que a filosofia não serve para ver para que serve determinada pessoa, porque cada uma dela, independentemente de sua origem, cor, raça, religião tem, uma dignidade humana incontestável, imensurável, irrefutável, indissolúvel que transcende a todos os interesses capitalistas e desumanos de pessoas como essas que afirmam de maneira irracional que a filosofia não serve para nada. Quem não serve para nada? O filósofo não serve para nada porque não serve para servir para esse tipo de gente que só consegue ver nos outros um meio de se alcançar seus podres interesses. Para que(m) não serve a filosofia?
Referências:
RENÉ, Descartes. O discurso do método. São Paulo: Paulinas,2020.
CORTELLA, Mario Sergio. Pensar bem faz bem. São Paulo: Planeta, 2017.
Imagem: Criada por IA
