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A Leitura Como Obrigação

Eu e meu querido amigo Ruan Virginio estamos levando à frente um diminuto clube de leitura que se propõe a ler e discutir uma obra por mês. Essa é uma tarefa árdua, pois a rotina nos esmaga e outros interesses tentam invadir nosso castelo para conquistar nossas atenções. No entanto conseguimos concluir o primeiro livro, fato esse que foi bastante encorajador.

Um ponto interessante, antes de adentrar no assunto específico do livro, é que para decidir qual livro iria ser lido, os integrantes do grupo definiram duas regras essenciais: A primeira é que, logicamente, a obra tem que ser inédita para ambos. A segunda regra é que ela se encontre fora do interesse “normal” de ambos. Ou seja, o livro a ser lido tem que ser um livro que provável e dificilmente os dois iriam ler.

Ruan Virginio e Igor Gregório

Já aviso que, como todos os acordos que a humanidade fez no decorrer de sua história, já quebramos essa última regra de imediato! O primeiro livro que nos debruçamos foi “O Desertor de Princesa” de Ariano Suassuna, o que logicamente já expressa o meu interesse natural, haja visto que Ariano é e sempre será o meu mestre. Porém, essa quebra na regra foi um fato não programado. Explico: É que eu, por completo abestalhamento, havia comprado o mesmo livro duas vezes. Esse fato, somado a tantos outros relacionados à compra de coleções, acabou por batizar o nome do nosso clube de “A Confraria Literária dos Ratos Colecionadores”. E foi também esse fato, o da duplicidade, que fez com que nós adotássemos a obra do “Imperador da Pedra do Reino” como nossa primeira leitura clubesca.

Dei o meu refugo a Ruan e “caímos em campo” desvendando rapidamente os pragais e carrascais elaborados pelo Mestre de Taperoá. A leitura foi rápida e prazerosa para ambos, visto que o conteúdo do livro é uma peça de teatro e não um romance. Este é um fato que me alegrou! É que raramente tenho enredos de peças teatrais na mira de meu interesse literário. Geralmente estou imerso no estudo da História e leio para entretenimento, de preferência, grandes romances (no sentido de volume de páginas).

Um contexto necessário: No prefácio do livro, Carlos Newton Júnior, o maior estudioso da obra de Suassuna, deixa claro que os escritos que seguem são de um autor que dá os seus primeiros passos e que o texto foi modificado no decorrer dos anos, o que o melhorou substancialmente. Nos alerta Carlos que ali está a segunda peça escrita por Ariano, que anos antes havia escrito e montado a primeira com relativo sucesso: “Uma Mulher Vestida de Sol” (1947).

Livro O Desertor de Princesa, de Ariano Suassuna

De fato, é o que encontramos. Diferente de sua peça mais famosa, “O Auto da Compadecida”, o “Desertor de Princesa”, que antes foi batizada de “Cantam as harpas de Sião” (título muito mais poderoso e cabalístico), é um drama. O cenário da história? A imortal e invencível cidade paraibana de Taperoá. Os personagens? Quatro vivos e um morto sempre mencionado. O contexto e o tema principal? A Insensatez das Guerras!

Carlos Newton nos aponta e Ariano nos revela em seu texto este tema tão atemporal na história humana e que por vezes ressurge em nossas vidas como um câncer mal curado. As guerras que ceifam tantas vidas inocentes e que são elaboradas por homens poderosos e desprovidos de empatia que, por orgulho e gana de poder, fazem com que uma juventude mate e morra por causas desprovidas de verdade.

Mas Suassuna não seria Suassuna se não colocasse os temas universais em seus cenários locais. Então, buscando essa aflição gerada pelas guerras que humanidade compartilha desde sempre, ele nos arremessa na Taperoá da década de 30. E ali encontramos uma Paraíba dividida entre a Capital e o Sertão no conflito que ficou conhecido como A Guerra de Princesa ou a Revolta de Princesa. Ali mergulhamos nos quatros personagens que resumem os sentimentos de toda uma população que foi atingida diretamente pela insensatez da guerra. Vale lembrar que Ariano escreveu esta peça logo após o fim da Segunda Guerra Mundial e ele estava perfeitamente a par do conflito e tenho certeza absoluta que esta peça é um brado, um grito, um protesto contra tantas atrocidades cometidas.

O Desertor, o protagonista, deixa o seu papel de covarde no senso comum e passa, no decorrer do livro, e no julgamento do leitor, a expressar este inconformismo diante o caos, a morte e o sangue. Ninguém que foge de uma guerra sem sentido é um covarde! A covardia se transforma em coragem no olhar daqueles que possuem empatia pela vida alheia e que preverem exercer a bravura da não violência do que a fraqueza de matar um irmão. Dizem por aí que “não podemos confundir luta com violência”, que a luta está no campo das ideias e violência é para onde os covardes recorrem quando são incapazes de dialogar. É difícil pensar assim, sei disso, estando diante do Nazismo, por exemplo, mas é preciso lembrar que até ele, o Nazismo, começou no campo das ideias humanas, e por tanto seria evitável se aqueles que o compunham e os que se opunham tivesse chegado a variantes diferentes das que a história nos conta.  Acho eu, que Ariano luta e luta com as armas que pode. Nesta peça, sua arma, ele deixa claro de que lado esta e de que lado sempre esteve. E termina por convencer o leitor de que, ao contrário da guerra, viver vale a pena.

Ariano Suassuna na década de 1970, provavelmente em algum sessão de autógrafos do livro A Pedra do Reino.

Infelizmente concluímos o livro com a percepção do não avanço moral e social da humanidade. Percebemos, repletos de tristeza, que, ainda hoje, estamos mergulhados no caos, na violência e sangue oriundos de conflitos tão atemporais quanto as ideias do livro. O elevadíssimo leitor que está a ler esta coluna pode estar pensando: “Mas por que danado que eu vou ler um livro que me deixa assim”? E eu o respondo dizendo que um livro não é um analgésico para alma! Um bom livro está mais para uma vacina que, nos infectando com dosagens seguras de males atenuados, nos deixa preparados, e de certa forma imunes, para enfrentar a dureza da realidade. E da mesma forma que ele protege, ele pode nos dá esperança de continuar. Afinal, assim como na vida, as histórias contidas nos livros são policromas.

É por isto que, recheado de sentimentos antagônicos, eu estou muito satisfeito com o nosso pequeno clube de leitura. Apesar do título desta coluna anunciar “A Leitura Como Obrigação”, o elevadíssimo leitor não o leve para o lado enfadonho das obrigações rotineiras. Nós só temos uma obrigação real na vida, que é respirar, o resto é opcional. A leitura como obrigação aqui se traduz em nos forçarmos a ler, pensar e discutir uma obra por mês que, como eu já disse, dificilmente iriamos ler pelo simples fato da falta de interesse. Mas aí é que está o ponto: Ninguém sabe o gosto de nada até ter provado!

O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio

Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano, Igor Gregório.

Data: 26 de setembro de dois mil e vinte e cinco

Título: A Leitura Como Obrigação

Igor Gregório
Igor Gregório
Nasceu na Parahyba. Escritor por vocação, já publicou vinte e um Folhetos de Cordéis, chegando a ser contemplado com premiações estaduais. Em 2023 publicou seu primeiro de livro de poemas: Alma-de-Gato no Voo da Alvorada. Além do trabalho impresso, tem uma produção ativa nas redes sociais, colunas e em saraus.

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