Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Álvaro de Campos
Quem é você? — eis a pergunta que mais ouvi ultimamente, e que devolvo com alguma malícia a este amável leitor. Não o você do trabalho ou dos estudos, da rotina doméstica, dos animais e filhos, das plantas e dos vizinhos.
Você-você, antes das perguntas, de antes de começar a decifrar o mundo. Antes dos momentos divisivos, dos dentes de leite, dos brinquedos e lágrimas. Quem é você que o faz sentir que é você antes mesmo de olhar para si mesmo?
Eu mesmo não sei, pois nunca fui outra pessoa! Mas acredito que haja um eu anterior a mim, que olharia para o Pedro de hoje e diria Este sou eu!, apesar das diferenças, dos pelos, dos olhos exatos.
Ainda me lembro do mundo através dos olhos do eu-criança — e, por vezes, vezes felizes, o mundo é aquele. E este sou eu, radiante, disparando pensamentos elétricos que só verbalizados encontram sentido, ou não…
Sou eu, meu eu mais íntimo e fértil, sou eu antes de tudo; e este eu é meu lar, meu repouso sombrio, que antecede tudo o que as pessoas pensam a meu respeito: esse lar não precisa de suporte nem validação, ele existe por si só e, assim, se autovalida.
Você entende do que falo? Já chegou nessa cabana escura? Se não, em minha curta jornada cósmica, eu diria: Você é você! Mas vá que todos sejamos esse mesmo livro, vá que tenhamos todos esse lar escondido nas páginas da infância… Sendo assim, eu diria que encontrá-lo é uma jornada existencial íngreme e tortuosa; mas, quando encontrado, nele se acha a solidez que sempre buscou nos outros, nos pais, nos amigos, num mundo que raramente é generoso.
Sim, o real você sempre será a melhor moradia! Mas há um perigo.
O você anterior a você não é o você que resultou de tudo: ele vive só; e, quando ama, ama o que encontra de si mesmo nos outros; e, quando odeia, odeia a si mesmo em suas entrelinhas e dimensões. Este você não conhece outro mundo que não ele mesmo; e ele o ama, e o defende, e não se compromete com ninguém, nem com a própria história.
Ele sonha, e, quando sonha, é sobre como se tornar mais só: um sítio rodeado de plantas que ele mesmo irá regar; comidas para serem pedidas até enjoar; amantes de aplicativos que, quando se cansar, vai bloquear. Ele vive esse mundo sozinho, e encontrará cada vez mais crianças com quem brincar e comer e partir sem adeus.
Olhe ao redor: são crianças, cada vez mais crianças, solitárias, interagindo com o mundo como que brincando consigo mesmas. É um mundo belo à primeira vista, mas é sozinho, cada vez mais.
Para mim, que recuso esse mundo, essa morada não permite estadia longa: saber ser só é uma grande virtude, mas saber encontrar companheiros de jornada é maior ainda — arrisco dizer, a maior virtude de todas.
Créditos da imagem: steaming, de mufan.
