Há poemas que parecem nascer de um lugar onde o vivido se encontra com o indizível, onde a palavra tenta tocar aquilo que o tempo faz em silêncio. “Dívida” é um desses textos que, ao falar do Tempo, fala também do corpo, da alegria, da perda e, sobretudo, da condição humana diante de um credor que nunca deixa de cobrar. Ao aproximar esse poema do imaginário nordestino — e do voo poético que Igor Gregório realiza em Alma-de-gato no Voo da Alvorada — percebemos que o diálogo não é apenas temático, mas visceral.
Percebo que existe nele uma espécie de parentesco espiritual. Não é um parentesco de tema explícito, mas de postura perante o mundo. No Nordeste, o Tempo não é uma abstração. Ele é concreto, áspero, visível nos rostos queimados de sol, nas rugas antecipadas, nos caminhos poeirentos onde cada minuto pesa como pedra quente. É como se a própria alma do poema carregasse um pouco da poeira quente do sertão.
“Olho dentro dos olhos dos meus dias…” – A entrada no espelho do tempo.
O poema começa com uma imagem de introspecção:
Olho dentro dos olhos dos meus dias,
vejo um ser transpassando meus sorrisos.
Aqui, o eu lírico não olha para si, mas para seus dias — como se o tempo fosse um rosto, um rosto com olhos. Há uma tentativa de se enxergar através do que se viveu, mas o que retorna é uma espécie de assombro: um ser que atravessa os sorrisos, que os fura, que os interrompe.
Esse ser é nomeado em seguida:
É o Tempo que faz cortes precisos
retalhando meu rosto em linhas frias.
Essa imagem poderia muito bem nascer da vivência sertaneja, onde o corte, o facão, o risco sobre a terra e a pele fazem parte da narrativa do cotidiano, essas linhas retalhadas evocam o ambiente nordestino: o sol que desenha sulcos no rosto, a vida árdua que marca antes da idade, a rugosidade da existência. No sertão, o tempo tem dentes, garras e lâminas. Ele não apenas passa: ele marca.
Para o poeta, Igor Gregório, essa dureza também aparece: o tempo age, fere, transforma. A vida é um campo de batalha silencioso onde todos nós somos obrigados a negociar com as horas, essa concretude dura dialoga diretamente com o eu lírico, que frequentemente dá corpo ao abstrato e devolve ao tempo uma presença física.
“Seu labor apodrece minhas vias…” – A química da corrosão
Na segunda estrofe, o Tempo assume seu papel de trabalhador incansável:
Seu labor apodrece minhas vias
em um cálculo atômico e abstruso.
O uso de “labor” aproxima o Tempo de uma figura sertaneja: alguém que trabalha sem descanso, que desgasta a terra e, também, o corpo, entretanto, ao mesmo tempo, o processo é descrito como “atômico e abstruso”, indicando que existe nesse desgaste uma matemática invisível, incompreensível.
Aqui surge um contraste interessante: o porão rústico da existência nordestina encontra a linguagem “científica”, e essa fusão cria um estranhamento proposital. O poeta Igor Gregório faz muito isso: tira o sertão da estante das obviedades e o coloca como território do pensamento filosófico. Assim em “Dívida”, ele vê o Tempo não só como força natural, mas como equação que ninguém decifra.
Esse cruzamento entre rusticidade e erudição é recurso caro a Igor Gregório, que une a linguagem da pele à linguagem do pensamento.
O eu lírico, então, tenta se esconder:
Eu me escondo num ângulo obtuso
pra tentar ocultar Horas tardias…
Há aqui uma tentativa humana — e tão nordestina — de se defender do inevitável, como quem procura sombra onde não há, no sertão e na vida, todos tentamos fugir das horas tardias, mas elas nos encontram nos cantos mais inclinados da alma.
“Mas as pedras preciosas da Alegria…” – O tesouro e a penhora
A terceira estrofe dá uma guinada pictórica:
Mas as pedras preciosas da Alegria,
tão bonitas e raras no meu ser…”
Essa imagem se encaixa profundamente na sensibilidade nordestina. Alegria, por aqui, nunca é abundância; é raridade. É tesouro. E, como todo tesouro, está sempre na mira de alguém — neste caso, o próprio Tempo, esse cobrador cósmico que não perdoa atrasos nem sentimentos. A vida vira negociação, escambo, dívida que cresce conforme tentamos pagá-la. Não há crédito possível quando se vive sob o sol que envelhece antes da hora.
Enfim, a alegria para o nordestino, não é abundância: é diamante bruto encontrado depois da seca. É brilho raro. E o poema reconhece isso: a alegria é pedra preciosa — bela, mas pouca.
O golpe vem em seguida:
… são penhoras que o Tempo quer suster!
O Tempo aqui assume figura de agiota metafísica. Ele não só cobra: ele quer as garantias. É como se a alegria fosse constantemente tomada como pagamento adiantado por algo que não sabemos que dívida é. Essa metáfora dialoga com a literatura nordestina que vê a vida como negociação permanente com forças maiores — sejam elas a seca, o destino ou o próprio Tempo.
“Pois é neste Viver, cheio de agonias…” – A conclusão filosófica
Na estrofe final, o poema amplia seu olhar:
Pois é neste Viver, cheio de agonias,
que eu constato ao passo que escrevo:
A escrita surge como testemunha. É pela escrita que o eu lírico percebe, quase com resignação, sua condição diante do Tempo. A frase final dá o fechamento perfeito:
Quanto mais eu lhe pago, mais lhe devo!
Essa afirmação poderia ser lema de toda existência sertaneja, e de toda poesia que tenta segurar o instante com as mãos. A escrita, no poema, funciona como gesto de reconhecimento e de resistência. Escrever é quase uma tentativa de saldar a dívida — ainda que o saldo final nunca se torne positivo
É a síntese de toda existência humana — e, também, da existência nordestina. No fim das contas, ninguém quita a dívida com o Tempo.
Trabalhamos, vivemos, sofremos, sorrimos, pagamos como podemos. Mas o saldo permanece no vermelho e talvez esse seja o ponto onde o poema toca o coração do imaginário descrito pelo poeta Igor Gregório: a consciência de que viver é sempre dever ao Tempo algo que nunca conseguimos salvar.
O poema não usa símbolos explícitos do Nordeste, e não precisa. Ele opera na camada profunda, onde o Tempo tem peso, o corpo tem memória, e a vida é feita de uma luta silenciosa para manter as pequenas alegrias que o Tempo insiste em penhorar.
O que “Dívida” nos oferece é uma verdade que atravessa o sertão e atravessa o humano: o Tempo nos cobra por tudo, inclusive pelo que sentimos e, ainda, assim, continuamos vivendo — devendo, mas vivendo. Porque, de certo modo, a poesia é o único recibo que podemos oferecer.
No fim das contas, o Tempo vence — mas a poesia dá trabalho.
E talvez seja justamente nisso que mora a nossa chance de continuar devendo… e vivendo.
Wagno Lira, Advogado, Pós-graduado em Ciência Política e graduando em Filosofia.
Crédito da Imagem de Capa: As Coisas maravilhosas do Sertão – FotoDoc
