Antes de se limitar a nichos e círculos acadêmicos, a Ciência deveria ser discutida em ônibus e praças públicas: um tratado, uma nova tese, apreciados e debatidos coletivamente, como a cena de uma novela ou a final de um campeonato.
Ah, essa sociedade do livre-pensar! Há beleza nela; há utopia, também. Na era da pós-verdade, do deepfake, de fanatismos e fascismos, sabemos como nunca dos perigos da verdade inventada, do imperativo que é o Método Científico.
Mas o fato inevitável é que os transeuntes também pensam, e são livres para alcançar suas verdades, debater sobre elas, concordar, discordar. Nesse contexto, a Ciência aprende e reaprende a entrar nessa ciranda: falar ao povo e aprender com ele, ensinar e cada vez mais aprender.
Na dança também entra a Arte — espelho e catarse de seu tempo. Kafka denunciava uma sociedade hipócrita sendo ele mesmo tessitura dessa hipocrisia; Dostoiévski compunha um retrato fiel da mente humana quando o Ocidente organizava suas Grandes Navegações pelo inconsciente.
A Arte fala ao mundo porque é catarse.
A Arte ri do método, e o segue, e dedilha cantarolante as cordas de seus tratados, e mimetiza, e rasga, e gira como uma louca enquanto sapateia, chorando.
A Arte fala ao mundo porque é espelho.
Olhe esse espelho! Olhe bem! Há alguém do outro lado dele, que não é você. Está além: são conceitos, imagens de mundo, cultura fervilhante e ancestral. São risos e lágrimas suas num mundo possível; é a morte e a vida da vizinha que você nunca teve; é o brilho nos olhos que apagaram, magicamente acesos; é você sorrindo o sorriso de sua avó, pelas mesmas razões… quiçá!
Arte não é Ciência, Ciência não é Arte. Em ambas, há beleza e há verdade.
Créditos da imagem: La reproduction interdite (1937), de René Magritte.
