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Dez Mil Coisas

Aos 11 anos, visitei o Instituto Ricardo Brennand, o grande museu do Recife, pela primeira vez. Retornei posteriormente, aos 25. É uma viagem no tempo, em algum tempo, de 50 ou de 500 anos atrás. Um castelo recheado de pinturas oitocentistas, porcelanas chinesas, tapeçarias imensas, armaduras medievais, louça real, mobiliário de Art Nouveau doado por influentes famílias pernambucanas. Uma escultura em marfim e uma coleção de xícaras bigodeiras. Um anjo barroco e relógios astronômicos.

Lembro de voltar olhando a casa com novos olhos. Na estante, a imagem de um São Francisco acompanhado de um tucano e uma arara que eu trouxe de uma viagem ao pantanal não parece digna de Brennand? A pintura de uma mulher de olhos castanhos ao lado de um pavão que os antigos donos deixaram na casa não pode ser motivo de excursões? Os desenhos do meu sobrinho na porta da geladeira não poderiam ser exemplares legítimos de Arte Naïf? O que faz um objeto digno de museu?

Na museologia, um artefato é qualquer objeto produzido ou utilizado por seres humanos que carrega significado histórico, artístico ou cultural. São provas da atividade social. Vestígios da existência humana. Passei a refletir sobre esse conceito com carinho após conhecer o trabalho de Shin Yu Pai, poeta e museóloga taiwanesa-americana. As perguntas que surgiram em mim após visitar Brennand foram as mesmas que a moveram a desenvolver um podcast chamado Ten Thousand Things, fruto da combinação entre seu olhar de poeta e seu carinho pela história humana. Em cada episódio, Shin Yu Pai entrevista uma pessoa diferente. O centro da conversa é um objeto. Um vestido, um brinquedo, uma jarra de água do rio Ganges, uma torta de ube. A partir do objeto, cada entrevistado conta sua história como imigrante ou descendente asiático nos Estados Unidos. As coisas cotidianas se tornam artefatos. Estão ali, vivos, seus pais, seus avós, sua pátria.

Em muito me distancio dessas pessoas. Nunca conheci a sensação de ser estrangeira por mais que algumas semanas de férias. Mas, enquanto pessoa, começo a pensar nos meus próprios artefatos. Na verdade, guardo uma caixinha recheada de artefatos. Objetos de memória que me transportam diretamente para determinado ponto no espaço e no tempo. Moram nela, preservados como relíquias, a chave do apartamento em que morei por 12 anos, o programa de um musical que assisti com minha irmã, um papel de presente estampado com caneta nanquim por um amigo que me presenteou no natal de 2015. Guardo a caneta que usei para autografar os primeiros exemplares do meu primeiro livro, as carteirinhas de estudante com meu rosto de criança. Tudo dentro de uma caixinha forrada de veludo que trouxe um presente no meu aniversário de 15 anos.

Na cultura chinesa, muito se utiliza da expressão “dez mil coisas”, como o Ten Thousand Things de Shin Yu Pai. “Dez mil coisas” representa o infinito. É uma forma de dizer o todo. “Os dez mil rios retornam à origem.” Tomo conhecimento deste ditado. Ele me diz aquilo que desconfio enquanto observo Brennand ou vasculho caixas deixadas pelos antigos moradores: constantemente criamos arquivos da nossa espécie. Nossos artefatos próprios estão, silenciosos, a contar nossa história. Nosso baú de lembranças, nossos álbuns de fotos, nossa sacola de roupas, nossa estante de livros. Observável história de como cheguei a ser quem sou e como escolho por meus olhos sobre a Terra. Dez mil coisas são a assinatura de certificação de nossa passagem pela Terra. Tudo retorna à memória.

Analice Chaves
Analice Chaves
Analice Chaves nasceu em 1998, em Belém do Pará, mas tem sangue paraibano e mora em João Pessoa desde os 8 anos. Ainda criança, começou a ler e escrever poesia. Em 2015 pulicou seu primeiro livro, "Setembrices e outros resquícios de revolução" e em 2022, o segundo, "Um poema é um horizonte entempestado". Participou de obras de teatro, dança e circo. Atualmante, trabalha como professora e compartilha suas observações de mundo nas redes sociais.

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