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Eu só li dois livros em minha vida

Todos nós, que gostamos de ler e escrever, temos aqueles livros fundamentais, totêmicos em nossa formação literária, que ocasionam um impacto tão grande em nossa personalidade, tanto de leitor quanto de escritor, que nós não conseguimos mais, depois do encontro inicial, encontrar paralelos, fazendo assim com que eles passem a ser únicos em nossa existência! E é aí que se solidifica a formação do leitor.

Esse tipo de coisa, percebo, é ponto comum também entre os cinéfilos e entre os músicos: Consumir uma obra tão potente e reveladora que não somente impacta, mas que transforma a existência de quem a consome. Geralmente, essa obra já é um clássico e por motivos específicos como a ancestralidade e a universalidade de temas humanos que ela carrega em si. E o nosso coração, ao consumir essa determinada obra, sente que ela é um cochicho do Passado, falado pelo Presente nos ouvidos atentos do Futuro.

No meu caso dois livros, em dois momentos diferentes de minha vida, me deixaram esse impacto que, confesso, até hoje não me recuperei. O primeiro foi O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien. A primeira vez que vi o livro, lançado em 29 de julho de 1954, foi numa vitrine de uma livraria no shopping. Eu era um adolescente de 16 e tinha acabado de assistir justamente o último filme da trilogia, O Retorno do Rei, que adaptava para as telonas os livros, que pouco tempo depois consegui ler.

O impacto já havia sido grande com os filmes, mas ao ler o livro percebi o quão profundo e belo pode ser um ser humano. Os clássicos, por excelência são livros que são difíceis de se consumir, mas no caso dos Senhor dos Anéis e do próximo que comentarei aqui, pareceram, para aquele jovem e inexperiente leitor, notícia de jornal. Tive um sentimento imediato de que tudo que estava naquelas páginas, tudo que habitava e formava a Terra Média de Tolkien e a Terra Média em si, tinham sido escritos para mim (outra característica dos clássicos). Tudo fazia sentido e todas as palavras eram claras como os raios brilhosos emitidos dos longos e indescritíveis cabelos de Galadriel.

Ao concluir a leitura eu não era mais o mesmo. Nunca mais fui o mesmo. Uma mudança completa havia se instalado no meu ser. Temas como Amizade, Esperança, Resiliência, Coragem e Medo passaram a ter uma importância crucial em minha vida. As páginas escritas na década de 50, por um inglês de classe média, revelaram para um moleque paraibano e repleto de insegurança que todos esses temas eram reais e que, por mais que o mundo dissesse e continua dizendo que não, valia a pena manter o coração integro e forte, pois, no fim, o bem sempre ganha.

Chegando na metade desse texto, podemos construir aqui um parágrafo que tanto serve para o começo e para o fim, visto que outra característica, da obra acima e da obra abaixo, é o poder de conversar com todas as pessoas do planeta. E essa universalidade está não no cachimbo fumado pelos Hobbits, ou em suas vestimentas, ela lateja justamente nos temas que citei e que marcaram meu coração para sempre.

O segundo livro que tive o prazer de ler foi O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, do meu conterrâneo Ariano Suassuna. E aqui começo pelo fim: Ao concluir a leitura desta obra, duas surpresas se fizeram presentes em meu ser: A primeira foi constatar, até ingenuamente, como escritor, que é possível fazer uma obra tão grandiosa, como o Senhor dos Anéis, aqui na minha terra, a Paraíba; A segunda surpresa foi perceber como ambas as obras se parecem estruturalmente na questão dos temas universais e por isso, assim como a obra inglesa, automaticamente senti que a Pedra do Reino era um clássico em toda a sua potência.

No entanto o tema que mais deixou suas marcas em minha alma, foi o Sonho. Ele está presente em cada página do livro de Suassuna. O seu personagem principal, Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, ou simplesmente Quaderna, é um sonhador inveterado. Não somente no campo do onírico, mas na prática, no dia a dia, na realidade. Ele transforma a realidade a seu modo e, mesmo que tudo trabalhe contra, buscar o mágico, a felicidade, a verdade e a beleza em uma cavalhada, nas páginas de um Cordel ou simplesmente nas forças das palavras muito bem aplicadas por Ariano na boca de Quaderna: Sangue, Facheiro, Pedra, Divino, Sagrado, Reino, Terra, Sol, Morte, Fogo, Sertão, Onça, Jurema etc.

Quando li a Pedra do Reino eu já tinha 30 anos de idade. Já era bem mais experiente do que quando li o Senhor dos Anéis, mas confesso que não estava preparado para a lapada que levaria ao me debruçar sobre as desventuras de Quaderna. No livro, ele me apresenta uma Paraíba que até então eu desconhecia, uma Paraíba linda e maravilhosa repleta de poetas, festas, livros, entidades divinais e tudo mais que faz desse mundo um lugar de sonho e luz.

A partir daí tudo mudou: A forma como eu enxergava a Paraíba, a minha escrita, meus pensamentos sobre a cultura brasileira e nordestina. A Revelação é outra característica fortíssima dos clássicos e é exatamente isso que a Pedra do Reino faz, em especial com os paraibanos, que se debruçam sobre suas páginas: Revela que o sonho é possível e não está longe de cada um de nós! Quaderna, ao sonhar com o impossível, se tornar, a partir da literatura, Gênio da Raça e Imperador do Brasil, remonta sua realidade para seguir esse sonho.  Tudo passa a ser possível, tudo passa a fazer parte dessa construção, cada pequeno ato, cada pequena palavra, e é este sentimento encorajador que eu carrego em cada dia da minha vida!

Hoje quando os releio, e releio ambos os livros com frequência, sempre encontro um trecho, uma fala, uma imagem poética que reafirma a potência de ambos. Nunca os li sem chorar ou sorrir. E acho que essa é última característica que me permito descrever aqui: Os clássicos são sempre atuais. A cada leitura há um novo sentimento a se descobrir. Assim como nós mudamos no decorrer dos anos, eles também mudam e se encaixam com os novos desafios que enfrentamos em nossa vida, nos dando consolo e a certeza de que sempre teremos um amigo. Nos dão a certeza de que nunca mais estaremos sozinhos e por mais que a vida mude para o bem ou para mal, Gandalf ou Quaderna estarão ali nos convidando para mais uma aventura pela Terra Média ou pela Paraíba.

Eu só li dois livros na minha vida e vou continuar a ler os dois para o resto de minha vida!

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O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio

Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano, Igor Gregório.

Data: Três de janeiro de dois mil e vinte e seis

Título: Eu só li dois livros em minha vida

Igor Gregório
Igor Gregório
Nasceu na Parahyba. Escritor por vocação, já publicou vinte e um Folhetos de Cordéis, chegando a ser contemplado com premiações estaduais. Em 2023 publicou seu primeiro de livro de poemas: Alma-de-Gato no Voo da Alvorada. Além do trabalho impresso, tem uma produção ativa nas redes sociais, colunas e em saraus.

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