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Sangue no Olho

Pulso, pulso, capilares, veias

Respiração densa, olhos vidrados

Pulso, pulso, artérias, capilares

Olhos vibrantes, o peito em chamas

Aos dezesseis, fui diagnosticado com hipertensão. Um falso diagnóstico, logo se notou; mas que me ensinou ainda cedo que o corpo responde ao mundo externo, como parte de um todo, artérias, capilares.

Respiração densa, olhos vidrados. Se o corpo responde ao mundo externo, evitar conflitos é uma virtude. Basta ver: se quem denuncia se cala, quem há de saber do crime? Quem nota o problema faz parte dele, e eu… bem, eu posso ser um problema se eu simplesmente não existir?

Pulso, pulso, capilares, veias

Aos trinta e dois, eu via inerte o mundo se mover, transpassando paredes, ladeando alcovas; quando me deparei com a seguinte pergunta: se eu não existo e não sou um problema, quem sou eu observando minhas próprias mãos, translúcidas, exauridas, que sequer existem? Quem sou eu cercado de paredes, que escuto pelas frestas minha própria voz?

Pulso, pulso, artérias, capilares

O mundo é cruel; e o corpo o dirá, de uma forma ou de outra. Eczema, sangue no olho, ódio irrompendo por artérias e veias. A lição da juventude revela enfim seu melhor sentido, sepultando o dilema injusto que ela mesma gerou: sim, eu existo, e fatalmente assombrarei quem não gosta disso.

E, francamente, se eu sou um problema por simplesmente existir, que eu seja, que eu seja!

Créditos da imagem: colagem digital por Robin Isely.

Pedro Pereira de Sousa Neto
Pedro Pereira de Sousa Neto
Advogado, escritor e gestor cultural, foi Ouvidor da Comissão de Arte e Cultura da OAB-PB, sócio da União Brasileira de Escritores na Paraíba e cofundador da Cia Multicultural Art’Spaço. Publicou o romance Dois Sonhos: Primeiro Sonho (Viseu, 2024), desenvolvido com patrocínio do FAC-DF. Em 2025, realizou em Santa Rita a palestra de formação literária Entre Sonhos e Realidade, pela PNAB.

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