Pulso, pulso, capilares, veias
Respiração densa, olhos vidrados
Pulso, pulso, artérias, capilares
Olhos vibrantes, o peito em chamas
Aos dezesseis, fui diagnosticado com hipertensão. Um falso diagnóstico, logo se notou; mas que me ensinou ainda cedo que o corpo responde ao mundo externo, como parte de um todo, artérias, capilares.
Respiração densa, olhos vidrados. Se o corpo responde ao mundo externo, evitar conflitos é uma virtude. Basta ver: se quem denuncia se cala, quem há de saber do crime? Quem nota o problema faz parte dele, e eu… bem, eu posso ser um problema se eu simplesmente não existir?
Pulso, pulso, capilares, veias
Aos trinta e dois, eu via inerte o mundo se mover, transpassando paredes, ladeando alcovas; quando me deparei com a seguinte pergunta: se eu não existo e não sou um problema, quem sou eu observando minhas próprias mãos, translúcidas, exauridas, que sequer existem? Quem sou eu cercado de paredes, que escuto pelas frestas minha própria voz?
Pulso, pulso, artérias, capilares
O mundo é cruel; e o corpo o dirá, de uma forma ou de outra. Eczema, sangue no olho, ódio irrompendo por artérias e veias. A lição da juventude revela enfim seu melhor sentido, sepultando o dilema injusto que ela mesma gerou: sim, eu existo, e fatalmente assombrarei quem não gosta disso.
E, francamente, se eu sou um problema por simplesmente existir, que eu seja, que eu seja!
Créditos da imagem: colagem digital por Robin Isely.
