Durante o desenrolar das guerras, um fenômeno sempre as acompanhou: a mentira plantada como forma de verdade. No atual conflito envolvendo a Rússia e Ucrânia e mais presentemente Israel e Irã, ela está presente a todo o instante. É a chamada guerra de desinformação.
No entanto, as lições mais amargas desse fenômeno, me parece, estão nos subterrâneos mais sinistros da 2ª guerra mundial e no seu personagem central: Adolf Hitler.
É sempre bom buscarmos no passado lições que que nos ajudem a compreender melhor a conjuntura política, social e econômica do tempo presente. Nesse sentido, ao voltarmos ao passado, vemos que o pesadelo da 2ª guerra mundial foi desencadeado por uma torrente de mentiras criadas por Hitler e que as democracias ocidentais engoliram sem questionar. Talvez a única exceção seja a do Primeiro-Ministro inglês Sir Winston Churchill que por diversas vezes alertou o parlamento britânico das reais intenções de Hitler, sendo voz isolada por muito tempo.
As mais patentes mentiras de Adolf Hitler ocorreram entre 1933 e 1943. Falando em fevereiro de 1943, quando já havia invadido a Polônia e a França, ele descaradamente afirmava: “O primeiro e o melhor ponto do programa de governo (Nazista) é que não mentiremos e não mistificaremos”. Nesse ponto ele realmente acertou, pois era patente a sua intenção em 1939 de invadir a Polônia e em 1940 a França. As democracias do Ocidente é que não enxergaram isso.
Megalomaníaco, Hitler a 17 de maio desse mesmo ano falou no Reichstag, num discurso que é ainda mais bizarro se comparado com a sua promessa de fevereiro: Nele, o “Führer” diz: “A Alemanha, a França e a Polônia continuarão a existir. A Alemanha não deseja nada que não esteja pronta a dar aos outros. O povo alemão não cogita de invadir nenhum país”. Escárnio total, França e Polônia sofriam as agruras da ocupação militar alemã.
Por volta do fim do ano, depois de muitos outros protestos de inocência e intenções pacíficas, Hitler declarou em entrevista ao correspondente de “Le Matin” de Paris, (10 de novembro): “Sinto-me ofendido com a permanente afirmação de que desejo a guerra. Serei eu um louco? Guerra! A guerra nada resolveria”.
No mesmo dia, em discurso aos trabalhadores de Berlim: “Não sou insensato a ponto de querer a guerra… Queremos dar a mão aos nossos ex-inimigos… Quando jamais o povo alemão rompeu a sua palavra? Ele sempre a manteve com obstinação e fidelidade completas “.
Ainda em 1943, Hitler se referindo a questão racial, mentia descaradamente quando afirmava em janeiro daquele ano: “A ideologia racial do nacional-socialismo… não visa escarnecer ou desprezar as outras nações, mas conduz a um respeito natural pela vida e pelo caráter dos outros povos “.
E no dia seguinte, falando em Lippe afirmou: “Não queremos interferir com o direito alheio, restringir a vida dos outros povos, oprimir ou subjugar esses povos”. Nesse mesmo ano, o programa de campos de concentração corria célere, na lógica do que Hitler proclamava secretamente ser “a solução do problema judaíco”.
Poderíamos enumerar centenas e centenas de outras mentiras deslavadas proclamadas pelo líder alemão nos anos subsequentes a guerra. O mais incrível de tudo foi como os países aliados continuaram a acreditar numa mente insana como aquela, isso em pleno teatro das operações.
Essa coletânea de mentiras foi passada em revista pelo então Bureau de Informações de Guerra dos Estados Unidos, que na sua introdução afirmava: “uma lista breve e documentada das mais patentes mentiras de Adolf Hitler, de 1933 a 1943, em ordem cronológica”.
A matéria em questão, foi publicada então pelo jornal A União em sua edição de 07 de maio de 1943 com o título: DEZ ANOS DE MENTIRAS NAZISTAS.
Passado o pesadelo da 2ª guerra mundial, o mundo volta a se preocupar com um novo conflito, agora tendo como protagonistas Irã e Israel no qual não podemos prever quais serão os seus desdobramentos. Uma coisa, porém, é certa: a mentira, mascarada pela diplomacia e pelo poder militar, continua a dar as cartas nesse imenso tabuleiro da geopolítica mundial. Aguardemos os próximos lances.
