Há muitos anos mora em mim o desejo de escrever sobre as crianças. Que tarefa difícil! Desde que me tornei pedagogo, esse tema martela o meu cérebro. Não sei bem explicar por que é um assunto difícil. Contudo, refletir sobre as crianças, como lidar com elas e sobre o valor que lhes é intrínseco, não obstante as práticas e posturas culturais que as colocaram às margens da sociedade e das decisões políticas, econômicas e religiosas, é condição indispensável para se construir uma sociedade democrática, humana e na qual caibam todos os seres que a constituem.
É um assunto difícil, talvez pelo fato de a gente nascer criança: serena, sem preconceitos, verdadeira… e, ao longo da vida, ter-se transformado em adultos autoescravizados, calculistas, frios, racionalistas, ambiciosos… Ainda penso que muitos de nós vamos nos tornar adultos, mas amadurecer, tornar a ser crianças outra vez, será tarefa alcançada por poucos. Quando falo em amadurecer, refiro-me a acabar com preconceitos, abrir mão de tantas coisas que, em vez de nos libertar, nos escravizam, e levar a vida menos a sério. Em breves palavras: criança não é meio para se chegar ao adulto. Criança é fim, o lugar aonde todo adulto deve chegar. Todo adulto deve voltar a ser criança, mas…
Rubem Alves era apaixonado pelas crianças. Entre as mais de duas dezenas de obras suas que já li, encontrei muitas referências às crianças. Pesquisador e estudioso profundo da literatura mundial, conhecia bem, desde os clássicos da Filosofia e da Literatura, as obras mais atuais. Rubem Alves era psicanalista, um conhecedor profundo dos mistérios da alma humana. A despeito de Monteiro Lobato e de Friedrich Nietzsche, dizia ele:
“Os dois, Lobato e Nietzsche, tinham a mesma coisa na alma. E, se querem saber o que era, digo. Eles, ambos, amavam as crianças. Não esse amor bobo, as crianças umas gracinhas, tolinhas, com quem se fala só por meio de diminutivos idiotas: tem dois aninhos, vai tomar sopinha, vai pôr roupinha. Levavam as crianças a sério. Concordavam com a opinião de Bernardo Soares, que notava a “diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos”. No mundo de Lobato, os adultos são seres-sombras, à margem do maravilhoso que acontece no mundo das crianças. Não escrevia para as crianças. Contava, para os adultos, estúpidos, o mundo das crianças. Zaratustra, o grande herói de Nietzsche, seu monstro dionisíaco, era uma criança. Tinha de ser, para se comover até às lágrimas com borboletas e bolhas de sabão. Seus escritos eram borboletas e bolhas de sabão. Os adultos não poderiam entender. (Alves, 2012, p. 27)”.
A citação é grande. Tem elementos maravilhosos que fundamentam o que queremos dizer a respeito das crianças. Bernardo Soares, um dos pseudônimos do grande Fernando Pessoa, ilumina a nossa mente ao fazer a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos. Isso me faz lembrar do grande escritor italiano radicado no Brasil, Alberto Banal, que costuma dizer que escreve para as crianças para fazer os adultos pensar. As crianças pensam, e pensam muito. Se elas tivessem a experiência, alguns domínios da linguagem e vivências diversas que nós temos, os seus pensamentos, todos eles, superariam os dos adultos. Acho que ninguém melhor para escrever sobre as crianças do que elas próprias. Se elas tivessem, repito, algumas técnicas que nós, adultos, adquirimos ao longo da vida, ninguém melhor do que elas para dizer o que pensam a respeito do mundo, da vida, dos seres, de Deus.
Quando Banal diz que escreve para as crianças para fazer o adulto pensar, penso que, com isso, ele quis expressar que há uma grande possibilidade de os adultos pensarem a partir das teorias e pensamentos voltados para as crianças. As crianças são profundas. Nós, adultos, é que muitas vezes não conseguimos ser claros ao falar com elas. Os adultos não são sinceros o suficiente para falar ao coração das crianças. Os cientistas, os místicos, os filósofos, os artistas são maravilhosas crianças. Os santos também são crianças adultas. Qualquer adulto prudente pode aprender com as crianças. Quando estudei literatura, fiquei impressionado com a profundidade da reflexão encontrada em obras como O Pequeno Príncipe e Alice no País das Maravilhas. Livros “apropriados” para crianças. Ainda expressando isso de outra forma, tive dificuldades para entender aquilo que as crianças entendem com tanta tranquilidade.
Parece ironia, mas é uma realidade: as crianças entendem facilmente situações que temos dificuldades para compreender. Ao abordarmos a temática das crianças, não podemos deixar de fora a questão da simplicidade. A ciência teológica diz que Deus é simples. Assim como Deus, as crianças também são simples. Elas nos fazem perguntas que, se fôssemos capazes de responder com simplicidade e verdade, elas entenderiam muito bem. Mas temos o hábito de complicar o simples. Todavia, penso que é preciso dizer algumas coisas mais a respeito da simplicidade. Dizer que Deus é simples significa dizer que ele é claro, notório, natural. E, dessa forma, ama as coisas que assim o são. Assim como Deus, as crianças também são muito simples. Penso que nasce daí o fato de serem tão verdadeiras. Ah, se nós conseguíssemos explicar de maneira simples, direta e objetiva situações como a morte, a gestação de um novo filho e o fato de elas não poderem ter tudo o que querem, a nossa relação com as crianças seria bem melhor, e elas não desenvolveriam possíveis traumas e revoltas futuras. Adultos sadios foram crianças que conseguiram ser crianças. Criança que vive na segurança afetiva será seguramente um adulto bem-sucedido.
“Criança é tudo isso: desejo de prazer, corpo entregue ao brinquedo, atividade que é um fim em si mesmo, pela pura alegria que produz. Na linguagem dos sonhos: é preciso que os adultos se transformem em crianças. Na linguagem psicanalítica: o princípio da realidade tem de se subordinar ao princípio do prazer. Ou, na linguagem política: o fim do poder é o prazer (Alves, 2012, p. 52)“.
Isso mesmo, as crianças se entregam ao brinquedo, com o simples desejo de brincar. Larissa, Isabelly e Manuelly, três alunas minhas do quinto ano, esses dias fizeram uma boneca com uma garrafa de Pepsi de 15 ml. Batizaram-na com o nome de Lúcia. Lúcia tinha uma roupa de papel pintado, com bolsa, pulseiras, colar e os olhinhos que me falavam de esperança. Tudo isso feito de papel. Parece que elas conhecem um pouco da alma do professor. E, em um determinado momento, quando a sala estava calma, elas me mostraram a Lúcia. Eu fiquei maravilhado. As meninas colocaram Lúcia em cima da mesa para assistir à aula com elas. Cada uma delas leva Lúcia para casa em um dia. E vão revezando. Esses dias, eu perguntei pela menina delas, e elas me disseram que havia ficado em casa, na casa da Larissa. Deu vontade de lhes dizer: da próxima vez que vocês forem fazer outra boneca, convidem o professor também.
Quando criança, não tive nenhum brinquedo como esses que as crianças têm hoje em dia. Meus brinquedos eram pedras, cacos de telhas, sabugos de milho. Eu, juntamente com os meus irmãos, fazíamos bois, vacas, seus bezerrinhos e cavalos com esses materiais tão comuns em nossa infância. Eu não conhecia fábulas, mas já naquele tempo a gente inventava a arte de dar vida a esses seres frágeis e inanimados. Nossas pedras tinham nomes, funções, sentimentos, histórias. A ciência prova a sabedoria das crianças. Os nossos brinquedos mais sofisticados eram carrinhos feitos de lata de sardinha Coqueiro ou um pneu velho, quando, por milagre, encontrávamos. Também fazíamos cozinhado. Mãe ficava muito brava porque roubávamos os parcos alimentos que tinha lá em casa. Às vezes, inventávamos de fazer batizado, rezar missas, brincar de balaços. O nosso quintal era sem fim: a natureza. Por isso é que, ainda hoje, minha alma sente saudades do mato. E o tempo para brincar foi muito curto, porque logo tivemos que ajudar nossos pais na roça.
Brinquei pouco. Talvez seja por isso que hoje brinco com a escrita. Estou brincando de escrever. Aprendi na escola que escrita é coisa de homem, branco, hétero, europeu. Por isso estou brincando de inventar de escrever. Não sou um escritor famoso. Brinco e me curo escrevendo. Às vezes dá certo, saem coisas interessantes. Outras vezes, quando a alma não está leve, saem coisas que pouco atraem o meu leitor. Mas o importante é brincar. Talvez porque precise me curar dessas lacunas que, inconscientemente, inventei de escrever sobre as criancinhas.
Também sinto que estou envelhecendo, mas tenho comportamentos muito parecidos com os meninos. Acho que o menino que nunca cresceu encontrou outras formas de continuar se manifestando ou, outras vezes, se revelando. Também escrevendo, invento outros mundos possíveis. Esse é o poder da literatura. A vida é muito dura para ser vivida ao pé da letra. A existência humana pede sonho, fantasia, utopia, ilusão, ludicidade. Numa palavra, arte. Acho que só escrevendo consigo brincar de ser criança ou, como não consigo fazer todas as artes que as crianças fazem, escrevo sobre poucas coisas que sei sobre as crianças. Ao mesmo tempo, faço memória da criança que fui e que logo se perdeu na dureza da vida.
Tem razão o poeta Ernesto Che Guevara quando expressou: “Hay que endurecerse, mas sem perder a ternura, jamais”. Somente uma pessoa que se tornou madura no sentido que falamos acima consegue endurecer sem perder a sensibilidade das crianças. São poucos os que voltam a ser crianças. Gosto particularmente da palavra com a qual os espanhóis chamam as crianças: “los niños. Necesitamos volver a ser niños. Niños de las calles. Niños, solo niños saben de eso que ahora hablo”.
O pedagogo Luís de Scrosoppi também era apaixonado pelas crianças. É tanto que seu instituto tem como carisma cuidar dos mais pobres entre os pobres. As crianças e os velhinhos têm primazia nas instituições scrosopianas. Ele dizia que todo líder tem que ter, antes de tudo, ternura e firmeza. Penso que só as crianças são, de fato, ternas. Mas as crianças, quando querem, também são firmes. Elas são muito decididas quando desejam um brinquedo, por exemplo. Claro que há crianças indecisas. É aceitável uma criança que não seja firme em seus desejos. Soa estranho um adulto indeciso. Acho mesmo que podemos aprender com as crianças a ser firmes e ternos. Ou que, quando amadurecermos, nos tornemos pessoas cheias de ternura e de firmeza.
Mas isso não se aprende nas escolas. Onde está a escola em que se ensinam essas coisas? Em lugar nenhum. Não, não, não há escolas para isso. Parafraseando Rubem Alves, todas as escolas só conseguem nos ensinar a ser ferramentas. Será preciso que você procure professores que ainda não foram enfeitiçados por elas. Aconselho que procure as crianças. Apenas as crianças têm o poder de quebrar o feitiço que o está matando ainda em vida. As escolas foram corrompidas pelo poder do capitalismo. Elas querem que a gente seja um produto de fácil manipulação, a serviço dos aparelhos ideológicos do Estado: das mídias, da religião, da família, da escola. Se não fossem essas instituições, o Estado ficaria enfraquecido, não teria esses fortes aliados para manter o seu poder hegemônico. Nas palavras de Bell Hooks, a escola é porta voz do patriarcado supremacista branco capitalista imperialista.
Como genuíno pedagogo, também tenho minhas críticas à escola. Acho mesmo que ela é um mal necessário. Conheço vários pensadores que criticam a escola: Paulo Freire, Rubem Alves, Adélia Prado, Bachelard e outros. Se você não encontra nenhuma crítica à escola, aconselho que estude e vá pesquisar um pouco mais. Não tenho culpa do seu baixo nível cultural. As escolas, muitas vezes, assassinam os desejos das crianças. Não bastassem os adultos que querem que elas se tornem velhas antes do tempo.
Adélia Prado costumava dizer: “Escola é uma coisa sarnenta. Fosse terrorista, raptava era o diretor de escola dentro de três dias, amarrava no formigueiro, se não aceitasse minhas condições. Quando acabarem as escolas, quero nascer outra vez”.
As crianças verdadeiramente crianças ficam felizes por pouca coisa. E isso porque elas possuem o poder mágico de transformar aquilo que é nada em algo que é muito. Pelo poder da imaginação, um cabo de vassoura se transforma num cavalo, e uma caixa de sapatos vazia, amarrada a um barbante, é um carrinho.
Ficava maravilhado com minha mãe, com o passar do tempo, ter voltado a ser criança. Mãe achava tudo bonito: uma sacolinha diferente que vinha com algumas compras, caixinhas, latas e embalagens que chegavam em casa com algumas compras ou encomendas que alguém trazia, as embalagens de presente. Tudo ela achava lindo e queria guardar. Com o passar do tempo, arrumou uma boneca; não sei nem bem como foi que aquela boneca chegou lá em casa. Em seu quarto tinha uma mesinha onde ela grudava essa boneca e uns ursos de pelúcia. E, o mais interessante, a boneca ficava perto de algumas imagens de santos que ela tinha dentro de seu quarto. Às vezes, ela até as colocava em cima de sua cama.
Acho que preciso de muitas aulas de psicanálise para entender esse mistério bonito. Acho mesmo é que mãe, por sorte sua e graça divina, conseguiu recuperar algumas oportunidades de prazer e puro sabor que perdeu quando criança. As crianças, no tempo de meus pais, começavam a trabalhar muito cedo. Além disso, ajudavam os pais no trabalho de cuidar dos irmãos mais velhos.
Rubem Alves, a respeito dos velhos e das crianças, se posiciona assim: “As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!”
Bachelard, quando escreveu a sua obra A Poética do Devaneio, dedicou um capítulo inteiro às crianças. Parafraseando Rubem Alves, penso que, lendo esta obra, a gente fica desejando que os terapeutas e educadores ficassem mais sábios se lessem esse texto maravilhoso. Compreenderiam melhor as crianças se se entregassem aos seus próprios devaneios de criança! São tantos os poetas que Bachelard cita e que desconheço!
Para se conhecer a alma de uma criança, é preciso abandonar a memória biográfica e entrar na imaginação, naquilo que nunca foi. Como é isso: não conhecer e, no entanto, reconhecer? Os poetas sabem que é assim. Na mais bela declaração de amor jamais escrita, Fernando Pessoa diz: “Quando te vi, amei-te já muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei”.
No que se refere às crianças, outra questão intrigante aparece nos Evangelhos, quando Jesus diz exatamente nesses termos: quem não se tornar uma criança não conseguirá entrar no Reino dos Céus. Jesus convivia com toda espécie de gente de sua época. Entre essas pessoas, os fariseus eram um grupo que convivia com Jesus. Embora doutores da lei, homens das letras e de muita cultura, não conseguiam entender as mensagens do Mestre de Nazaré.
Mas, afinal, o que queria dizer Jesus quando disse que se tornar criança é condição indispensável para alcançar o céu? Esta passagem se encontra diretamente no Evangelho de Mateus 18, 3-4: “Eu lhes garanto: se vocês não se converterem e não se tornarem como criança, vocês nunca entrarão no Reino do céu”.
A comunidade cristã não é a reprodução de uma sociedade que se baseia na riqueza e no poder. Nela, é maior ou mais importante aquele que se converter, deixando todas as pretensões sociais, para pertencer a um grupo que acolhe fraternalmente Jesus na pessoa dos pequeninos, fracos e pobres. As crianças não têm o apego material que nós temos e nem guardam mágoas. Quem não testemunhou uma criança levar umas palmadas, carões ou algum tipo de castigo e, pouco tempo depois, aparecer juntamente com aquele que lhe fez sofrer, como se não houvesse acontecido nada? Só as crianças perdoam, de fato. Só as crianças sabem dormir.
Uma das interpretações mais bonitas dos exegetas a respeito desse trecho — “se tornar criança” — quer dizer o homem que se tornou criança pela simplicidade. As crianças são claras, simples, objetivas, transparentes. O coração de Jesus palpita por esse tipo de ser humano: honesto, verdadeiro, simples… É preciso muita interioridade para mergulhar nas profundezas e no mistério desse tornar-se simples. Isso me faz lembrar Barthes, que dizia que, no fim da vida, queria nada de poder, pouco saber e o máximo de sabor. Há algo mais lindo do que uma criança que se delicia com um copo de água, um suco, um sorvete, uma fruta? Imagine agora essa imagem.
É certo que o Mestre de Nazaré tinha inúmeras razões para dizer que se tornar criança é condição indispensável para se ter acesso ao Reino de Deus. Em Mateus 14, 13–21 também encontramos uma passagem que faz menção às crianças. Dessa vez, de modo até triste. Explico por quê.
O texto termina dizendo que, com cinco pães e dois peixes, Jesus alimentou cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. Vejamos. As crianças e as mulheres inexistiam. Essas duas categorias humanas eram absolutamente insignificantes naquela cultura. Jesus alimenta essa multidão de cinco mil homens e ainda sobraram doze cestos de alimentos. Mas as crianças e as mulheres que também estavam ali não entram nas estatísticas humanas. As crianças e as mulheres são refugos humanos, são lixo, não fazem parte da matemática. Certamente, essa seja mais uma razão para Jesus colocar a criança no centro do projeto salvífico do Pai. Todos sabemos de seu amor preferencial pelos pobres, pelas crianças e pelas categorias marginalizadas da sociedade: os doentes, os pecadores, os estrangeiros.
Finalmente, chegando às palavras finais dessa reflexão, deixo algumas questões que servirão de aprofundamento e retomada desse pensamento. Todo pedagogo, de verdade, deve ser apaixonado pelas crianças. Não sei se a minha dificuldade em escrever sobre as crianças tenha origem no fato de conhecer pouca literatura sobre essa temática. Não sei se a resistência em refletir sobre esse assunto ainda tenha a ver com outra dificuldade que creio que seja ainda maior: a necessidade de voltarmos a nos transformar em crianças para poder saborear tantas benesses que foram marginalizadas na vida adulta: o prazer, a liberdade, a pureza, o perdão, o desapego material e, sobretudo, acessar outras realidades, como o Reino de Deus…
Todavia, ainda penso que outra questão que nos atrapalha a pensar sobre as crianças e a ser como elas esteja relacionada com a simplicidade. As crianças são simples. Não quero fazer uma reflexão mais demorada sobre a simplicidade. Mas, dando uma rápida olhada no Dicionário Básico de Filosofia, de Hilton Japiassú, encontramos muitas pistas para pensar melhor sobre o que significa ser simples.
A criança é simples. E simples é aquilo que é indivisível, que não pode ser decomposto, que não tem partes. Em Descartes, as naturezas são as essências: chamamos simples aquelas naturezas cujo conhecimento é tão claro e distinto que o espírito não as pode dividir em outras mais numerosas, cujo conhecimento seja mais distinto: tais são a figura, a extensão e o movimento.
As crianças, tais como Deus, são simples. Não são seres divididos entre várias realidades, como são os adultos. Elas estão por inteiras naquilo que fazem. Para elas não existe passado nem futuro. O presente é seu único presente, que precisa ser degustado, saboreado, vivido em sua plenitude. As crianças nascem sem depressão e sem ansiedade. Adquirem esses males com os adultos e, quando começam a ser fragmentadas pelas dinâmicas dessa sociedade doente.
Desejo que as reflexões empregadas neste texto sejam, para você, um momento de catarse, de encontro com a criança que dormita no seu peito. Criança essa esquecida pelo sistema de vida atual… Escrever estas linhas, para mim, foi um momento de reencontro com dois tipos de crianças: aquelas que amo e a criança que preciso amar, escondida em mim.
Porque criança não é uma fase da vida na busca do adulto que virá; criança é fim, um lugar sagrado onde todo adulto deveria, um dia, chegar. Mas…
Referências
ALVES, Rubem. Se eu pudesse viver a minha vida novamente. Campinas, SP: Verus, 2012.
BANAL, Alberto. Resgate de Wallalami. João Pessoa: Mídia Gráfica e Editora, 2024.
JAPIASSÚ, Hilton. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
SCROSOPPI, Luís. Cartas. São Paulo: Paulinas, 199.
GUEVARA, Ernesto Che. O socialismo humanista. São Paulo: Verus, 2000.
