A primeira obra que me mostrou o poder das histórias em quadrinhos foi Watchmen. Para além do enredo, o que me conquistou foi a maneira como Alan Moore e Dave Gibbons exploravam a página, com a metalinguagem, as inovações narrativas e a sensação de que cada detalhe havia sido magistralmente pensado.
Quando cheguei ao final da edição, vi nos extras que o Mago Alan Moore realmente pensou magistralmente em cada quadro. Foi ali que o quadrinho se revelou para mim como uma linguagem própria. E essa linguagem, eu descobriria depois, é antes de tudo uma gramática do tempo.
Aprender a ler quadrinhos é aprender uma nova maneira de sentir a passagem do tempo. No cinema, por exemplo, o tempo se desenrola automaticamente quadro após quadro. Nos quadrinhos, ele se organiza no espaço da página. O passado permanece visível ao lado do presente, assim como o futuro já está diante dos olhos do leitor. Enquanto no cinema o espectador entrega o ritmo nas mãos do projetor, nos quadrinhos é o leitor quem funciona como relógio: ele decide quanto tempo permanecerá com os olhos repousados em cada quadro. Pode voltar, pode segurar dois momentos no campo de visão ao mesmo tempo, e até dar uma espiada nos últimos quadros da página.
Curiosamente, anos antes de Scott McCloud explicar esse conceito em seu excelente “Desvendando os Quadrinhos”, Alan Moore já havia colocado a mesma ideia na boca do Dr. Manhattan, no capítulo IX de Watchmen, como já apontado neste texto sobre o tempo nas histórias em quadrinhos. Para o personagem, que é um ser que percebe passado, presente e futuro de uma só vez, o tempo não passa, ele simplesmente é. Tudo em todo lugar ao mesmo tempo. A estrutura inteira está sempre visível, nós é que a olhamos parte a parte. A experiência temporal do personagem encontra um equivalente inesperado na própria linguagem dos quadrinhos, em que diferentes momentos coexistem diante do leitor na superfície da página.

Arte, além do enredo é Forma. E é justamente dentro dessa característica que mora a originalidade de uma obra ser feita em quadrinhos. Há histórias que poderiam migrar para o cinema ou para a prosa sem perder quase nada, pois o que importa nelas é o que acontece, e o que acontece cabe em qualquer meio. E há outras que só existem porque são quadrinhos. Tire a página, e elas simplesmente desmoronam! É sobre estas que eu quero falar. E uma das pessoas que brinca e tem total controle da Forma é o francês Marc-Antoine Mathieu.
3 Segundos
A obra “3 Segundos” faz dessa transformação o próprio princípio narrativo. A premissa é simples, embora um pouco difícil de explicar. Mathieu constrói o livro como um único movimento de aproximação, um zoom contínuo que acompanha a trajetória da luz pelo espaço. A imagem ricocheteia de uma superfície a outra e, a cada salto, revela novos detalhes e nos leva um pouco mais fundo numa cena que dura apenas três segundos.

Não há uma única palavra dita. No entanto, é nesse trajeto silencioso que uma trama (ironicamente atual) inteira se revela envolvendo dinheiro, esporte, bets, traição, um crime! Tudo isso montado não por balões e recordatórios, mas pelo que cada reflexo mostra ao leitor que precisa estar atento aos detalhes da página.
O que torna a obra impossível fora dos quadrinhos é o modo como ela trata o tempo. Os três segundos não são contados, eles são percorridos. Mathieu os converte em distância, num caminho espacial que atravessamos com os olhos, quadro após quadro. Uma experiência incrível. É nessa mesma pegada que O Prisioneiro dos Sonhos leva a espacialidade do quadrinho ao seu limite.
O Prisioneiro dos Sonhos
A série acompanha Julius Corentin Acquefacques, um pequeno funcionário perdido num mundo em preto e branco que parece saído direto de O Processo, de Kafka. É um universo superburocrático, em que tarefas banais se transformam em labirintos sem lógica. Corredores, formulários e escadas que não levam a lugar nenhum. Engrenagens sociais e espaciais que engolem o personagem sem que ele as controle ou sequer compreenda… Se pensarmos bem, nem é um universo tão irreal assim.
Mas Mathieu faz com essa atmosfera algo que a literatura não poderia: transforma-a em forma. Porque o verdadeiro assunto da série não é apenas a angústia do personagem, mas sim o próprio quadrinho enquanto um objeto físico, e a descoberta, por Julius, de que ele está preso não numa cidade nem numa repartição, mas nas páginas de uma história em quadrinhos. O aprisionamento deixa de ser tema e passa a ser estrutura. Enquanto em Kafka tínhamos uma metáfora existencial, aqui é a condição literal de uma criatura feita de papel e tinta.

Já no primeiro volume, A Origem, Julius começa a receber as pranchas de uma história em quadrinhos, e percebe que se trata da mesma história que ele está vivendo. A vertigem metalinguística poderia se esgotar na ideia, mas Mathieu faz algo que nenhum outro meio permitiria. Em determinado momento, abre um furo físico, recortado através de uma página do álbum. Um acontecimento que ainda está por vir fica, assim, literalmente visível através da matéria do papel, e o personagem chega a se servir desse buraco para escapar de uma página à outra. O futuro não é sugerido ele está ali, perfurado no seu gibi.

É a demonstração mais concreta daquilo que o teórico Thierry Groensteen chama de entrelaçamento (o tressage), isto é, a ideia de que os quadrinhos não são apenas uma sequência de imagens, mas um sistema em que cada quadro dialoga não só com o anterior e o seguinte, mas com todos os demais na página e no restante do livro. O leitor não percorre apenas uma linha temporal, ele navega por uma arquitetura de relações. Na obra de Mathieu, cada reflexo aponta para outro, cada detalhe prepara o seguinte, e essa rede se torna física, feita de papel. A leitura deixa de ser linear e vira exploração do espaço da página. O Prisioneiro dos Sonhos só pode ser feito em quadrinhos.
Há uma série de tiras de André Dahmer, cartunista brasileiro, cujo mote humorístico é “Em matéria de quadrinhos, tudo já foi feito”. Obras como as de Mathieu mostram que não, que felizmente, ainda há muito o que se fazer dentro da nona arte.

Arte de capa do texto: Charlie Chan Hock Chye
