Desde que o ChatGPT se tornou hype, eu — advogado e escritor que, por muito tempo, se autoproduziu — venho o utilizando para fins de revisão de textos técnicos ou de redes sociais: um raciocínio que ficou truncado, um erro de digitação, uma percepção incompleta ou equivocada, tudo isso passa pelo pente-fino da Inteligência Artificial; que, por sua vez, me traz sugestões muito válidas de aperfeiçoamento.
Também, como apreciador de artes visuais, eventualmente peço imagens que ilustrem meus poemas e até alguns artigos em minha coluna. Não tenho talento para a pintura, mas, nossa, como são lindas as aquarelas, as pinturas a tinta óleo, as compleições do Impressionismo na exuberância cromática do Barroco!
Aqui, tomo sempre um cuidado: nada de IA em meus textos artísticos. Arte é coisa séria, é sentimento e é humana. IA não sentiria a dor de perder a mãe enquanto se dissolvia ao observar uma lâmpada elétrica pela primeira vez; tampouco questionaria um governo que naufragou sua própria tripulação enquanto percorria quilômetros a nado, logo após um colapso nervoso. Ela, no máximo, emularia tudo isso.
Arte é moção, antes de tudo, mas também é expressão, espelho, catarse. A arte fala ao mundo, mas, antes, fala ao artista que a escreveu, cantou, encenou.
Há muitos meios de se fazer “arte” por Inteligência Artificial. A primeira que conheci foi a Midjourney. Burocrática, hermética, se você soubesse mexer abria portas para um novo mundo! Leonardo.ai foi minha queridinha por algum tempo. Foi de lá, inclusive, que vieram todas as imagens que usei para ilustrar meu poema O Espetáculo dos Devotos. O ChatGPT, para mim, foi revolucionário: legendas de Instagram, revisão de petições e projetos artísticos; a interface se tornou um copiloto em minha presença virtual, potencializando meu tempo e me permitindo dedicar a atividades mais substantivas.
Nesse contexto, entretanto, em que a IA emula tão bem as moções e expressões humanas, quem nunca questionou a autenticidade de um texto bonito? Se as linhas definidas e benfeitas de um vídeo são o produto de uma edição humana ou passaram pela régua padronizadora de um aplicativo? Se uma arte emocional e potente não é apenas o produto de um prompt sofisticado?
Essas desconfianças não vêm por acaso: num cenário em que a performance social é mediada por tantas alienações sistêmicas, de trabalho, de tempo, de imagens de mundo, nós nos defrontamos com outra camada de alienação, mediando a performance por uma inteligência que não é sua, por linguagens e meios que não são seus: eis a alienação da própria Inteligência — que não é realmente nova, nem se iniciou com a IA, mas é, sem dúvida, potencializada por ela.
Depois disso, o que restará de humano nas interações humanas? Haverá interação, de fato, ou seremos todos mediados por um aplicativo rodando em segundo plano?
De antemão, cumpre questionar o que realmente é nosso. A própria linguagem não seria um aparato dos outros? Aprendê-la para falá-la (e falar ao mundo) não seria, de certa forma, se alienar um pouco? Quanto à IA, que parte de contexto e pano de fundo de linguagem, ela também não seria nossa? São questionamentos densos, que exigiriam um pouco mais do que meu espaço nesta coluna! Por esta razão, parto logo para os finalmentes: a linguagem, construída em nosso devir histórico, nos constitui e nos forma, sendo não apenas nossa (como coisa externa a nós, um aparato), mas em nós também, como engrenagens e fluidos, em seus fluxos e contrafluxos. O que difere a IA de um mero banco de dados é que, além de territorializar esse campo extenso e essencialmente humano, ela opera sínteses com base nesse campo, em verdadeira performance criativa. São essas sínteses — que não emergem de corpos, histórias e afetos — que não são, nem poderiam ser, nossas.
Pois bem. Além de regulamentar, vigiar, punir, não há muito o que se fazer para conter os movimentos da sede humana. IA é uma realidade, e há de permear tanto quanto possível as mecânicas pulsantes de nossa linguagem. De fato, se hoje, de um lado, temos editais de seleção vetando arte feita com qualquer colaboração de IA, de outro, também temos concursos de arte que admitem IA como ferramenta de apoio e até mesmo seleções de obras confeccionadas unicamente com IA.
The times they are a-changin’!
Hão de dizer que é catastrófico. Eu mesmo, numa primeira versão deste artigo, dizia isso. Entretanto — porque é fácil demais ceder a discursos escatológicos, mas ver a luz nas trevas? Ah, meus amigos, não há nada mais humano! —, a vida permanece! Acredito que aí, no humano, esteja o verdadeiro sentido da arte. A centelha que inicia, mesmo por artifícios cibernéticos, o incêndio das moções. Eis o real, eis o autêntico, o brilho nos olhos que o ChatGPT nunca conseguirá emular.
Foto de Capa: Boy With Machine (1956), de Richard Hamilton. Uma engrenagem analógica em tempos digitais — sem prompts, apenas tinta, recursos humanos e uma visão sociocultural consistente
