Já dizia Paulo César Nodari que Filosofar é repetir o “o que é”? O que é isso? E Immanuel Kant proclamou: não se pode ensinar Filosofia, mas se pode ensinar a filosofar.: fazer a si mesmo e a todas as coisas que se nos apresentam perguntas e perguntas, sem cessar…
E o filósofo, no seu exercício contínuo de perguntar, às vezes se põe a fazer perguntas ainda mais direta e perguntas sobre as coisas mais evidentes. Porque ele é capaz de descobrir o inédito do evidente.
Li, recentemente, num desses pensamentos que aparece no estragram o seguinte: nós viemos ao mundo sem nada, passamos a vida brigando por tudo e voltamos – não sei bem para onde, mas voltamos – sem nada.
Transpassados pela mensagem real que este pequeno pensamento nos provoca e observando tantos atos bárbaros que presenciamos no país, em cada situação de nosso cotidiano, na rua, no trabalho, em casa, conosco mesmo, viajei, esses dias, quilômetros dirigindo, sozinho, cansado, perguntando a mim mesmo: o que é isso? Pra que tudo isso?
E eu gritava sem gritar… e permaneci a viagem toda fazendo perguntas para todas as coisas que tenho feito, que estava fazendo e que ainda desejo fazer. E toda vez que me perguntava: para que isso? Aparecia a mesma pergunta relacionada até mesmo para aquilo que eu estava fazendo naquele exato momento que estava dirigindo, voltando de um trabalho para outro. E chegando em casa, eu iria comer apressadamente para não atrasar o expediente da tarde. Eu me perguntava de forma ainda mais incisiva: para que isso? Onde vou chegar? Como vou chegar? Vou chegar? Para onde mesmo estou indo? E se já estou indo, é assim mesmo que deveria ir? Só existe essa maneira de se chegar onde pretendo ir?
O que é que fazemos mesmo quando fazemos o que fazemos? Quando nós fazemos o que fazemos, fazemos apenas aquilo ou fazemos algo ainda mais complexo e profundo que não conseguimos ver, nem imaginar no costume rotineiro de fazer as coisas sem pensar? Para ser mais claro o que fazemos ao comer muito doce? O que fazemos quando dormimos muito? O que fazemos conosco e com os outros quando nos relacionamos sexualmente? O que eu não faço ao não tomar água? O que eu faço exatamente agora ao fazer o que estou fazendo?
O que não fazemos quando não fazemos o que deixamos de fazer? Quando fazemos algo só fazemos aquilo ou, no emaranhado daquilo que fazemos, estamos fazendo outras coisas que desejamos inconscientemente ou coisas que, de fato, queremos fazer ao fazer aquilo que estamos fazendo?
O que é isso que fazemos com a nossa vida? O que é isso que fazemos todos os dias? O que é isso que fazemos com os outros? O que é isso, essa forma louca de comer, de viver, de ser, de sentir, de existir?
O que é isso que estou vendo? O que é isso que estou ouvindo? O que é isso que estou pensando? O que é isso que desejo? O que é isso que não me deixa conseguir aquilo que quero? O que é isso, gente?
O que é isso que estou fazendo? O que é isso que está acontecendo com as nossas crianças? O que é isso que estamos fazendo com o meio ambiente? O que é isso, essa dor, esse vazio, esse medo, esse sentimento, esse desejo, essa ânsia, essa sensação? O que é isso?
O que é isso, essa necessidade de querer ter razão sempre? Que é isso esse desejo incontrolado de ter? O que é isso, essa mania de ter respostas para tudo? O que é isso, esse costume louco de está falando o tempo todo? O que é isso que fazemos quando fazemos o que fazemos? O que é isso que não fazemos? O que é isso, minha gente? O que é isso que você está pensando exatamente agora? Você já parou para pensar nas coisas que comumente pensa?
O filósofo mais lido no mundo, o coreano, Byung- Chul Han, tem discorrido sobre a sociedade paliativa caracterizada pelo curtir a vida, pela fuga da dor, de conflitos, de contradições, pelo medo do silencio, da contemplação… Neste âmbito, esquecemo-nos que a dor e estas outras problemáticas existenciais putrificam e daí falta a essa cultura – da curtição, da incapacidade de se perguntar e de se fazer a si mesmo perguntas e mais perguntas cada vez mais profundas – a possibilidade da catarse.
Os psicólogos nos orientam a contar até dez quando temos uma raiva e a atitude que podemos tomar após esses instantes pode ser totalmente diferente daquela que tomaríamos no exato momento da raiva. A filosofia, além de auxiliar-nos a pensar corretamente, pode redirecionar os nossos pensamentos. Toda vez que agente vir algo, sentir ou pensar se colocar a seguinte questão: o que é isso? Pra que mesmo isso?
Referências
HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa. A dor hoje. 1ª edição. Petropólis, RJ: Vozes, 2021.
NODARI, Paulo César. Por quê. A arte de perguntar. São Paulo: Paulinas, 2011.
