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Três Quadrinhos e Um Documentário

O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio

Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano, Igor Gregório.

Data: Vinte e três de junho de dois mil e vinte cinco

Título: Três Quadrinhos e Um Documentário

Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos foi o primeiro quadrinho. Publicado pela Editora Conrad em 2010, este volume compila algumas histórias resultantes da parceria entre o escritor Harvey Pekar e o artista gráfico e ilustrador Robert Crumb. As histórias versam sobre a rotina do autor em sua cidade natal, Cleveland, Ohio, EUA. No prefácio da HQ, escrito por Crumb, há um trecho que descreve as histórias contadas por Harvey como “realistas” que, deixando de lado a “fantasia”, narram a maçante vida rotineira do autor. Todavia, ao ler o quadrinho, percebi que elas podem até abandonar a fantasia propriamente dita, mas não abandonam o “fantástico”, pois as histórias sempre descrevem o inusitado dentro do cotidiano do autor. Ou seja, por mais que as histórias não tenham seres com superpoderes, elas buscam aquele superpoder escondido num encontro, num sorriso, num absurdo, numa palavra, numa frase. Um exemplo:

Harvey está no elevador do trabalho e um colega, do nada, diz um trecho de um poema “The Eagle and the Mole” da poetisa Elinor Morton Hoyt Wylie, que eu desconhecia por completo:

Avoid the reeking herd,

Shun the polluted flock,

Live like that stoic bird,

The eagle of the rock.”

 Em tradução livre:

Evite o rebanho fedorento,

Evite o rebanho poluído,

Viva como aquele pássaro estoico,

A Águia da Rocha“.

Por fim, há um discursão nos corredores, enquanto caminham, entre os colegas de trabalho sobre o significado do poema. Acredito eu que isso é “fantástico” das histórias de Harvey. Acredito que esse é o fantástico da vida, onde o verdadeiro superpoder é saber colher essas preciosidades das nossas rotinas e, injetando-as em nosso sangue, conseguirmos ter a força necessária para suportarmos o peso da existência. Em 1986, Will Eisner publicou um grande quadrinho chamado “Nova York, A Vida Numa Grande Cidade”, e me parece, posso estar enganado, que essa publicação tem muito do que Harvey fez na sua afamada revista, e grande propulsora de suas histórias, a American Splendor.

Harvey Pekar

***

O segundo quadrinho foi “Lavagem”, do meu conterrâneo Shiko. Publicado em 2021 pela Editora Mino, o quadrinho se utiliza da ambiguidade do nome Lavagem para tanto fazer alusão à comida dos porcos que permeiam a história, como a lavagem do cérebro e do espírito a qual é submetida a personagem principal. De imediato, essa história me fez lembrar da minha infância na cidade de Bayeux. Lá era constante pelas ruas o trânsito das carroças que, puxadas por sofridos burros e guiadas por maltratados seres humanos, recolhiam, de casa em casa, os restos de comida para alimentar as criações de porcos. Porcos estes que eram libertos e vagavam pelas ruas para que conseguissem, por conta própria, fuçando nos lixos postos nas calçadas, um alimento extra. Me recordo do nojo que sentia ao ver aquelas carroças, não somente pelo odor insuportável da lavagem que elas carregavam, mas pelo nível de degradação em que o ser humano que a conduzia era e é submetido pela sociedade.

Confesso que quando tive a HQ em mãos, eu não associei o nome Lavagem aos restos de comida humana que servem de alimento para os animais.  Ao me dar conta disso, e ao virar cada página, percebi mais uma vez como pode ser rica a experiência entre a obra e o leitor. Percebi claramente como uma obra pode ativar transmissores adormecidos em nossos cérebros e nos trazer lembranças adormecidas das entranhas da nossa mente. E foi devido a essa conexão que senti o odor da lavagem no decorrer da obra, fazendo com que ela fosse extremamente real para mim.

Outro ponto mexeu bastante nas minhas percepções: A dualidade religiosa. A HQ provoca o leitor de maneira exacerbada, não sei se intencionalmente, a questionar o papel e peso da religiosidade em nossas vidas. Não sei se o Shiko teve um background religioso na sua trajetória, mas eu tive. E eu vi claramente como, em nome de Deus e do Diabo, as pessoas fazem coisas surreais. Minha Avó era da tesouraria da igreja, lia a Bíblia diariamente e fazia as maiores crueldades, psicológicas e físicas, com seus filhos. Minhas tias, que possuem uma vivência profunda dentro da igreja, muitas participando ativamente de movimentos como a Renovação Carismática e eventos como o EJC, vivem em pé de guerra, claro, em consequência da criação tiveram. Então me foi perfeitamente plausível observar a loucura da protagonista oscilando entre o discurso religioso e crueldade extrema. Afinal, “tudo é como Deus quer” ou “era o Diabo que estava dentro de mim”.

Shiko

Ao final, a protagonista toma um banho. Um simples banho, que, renovando-a, serve para que ela deixe todo o mau cheiro que reinava em sua vida para trás e siga em frente para um novo caminho. E nós? Seguimos com ela! Sem poder julgar o que é certo e errado diante das atitudes que tomamos ante os sofrimentos da vida, apenas felizes por se livrar do odor que nos impregnava.

***

O terceiro quadrinho foi A “Espada Selvagem de Conan, número 1”, lançado em 2019 pela Editora Panini em vários encadernados belíssimos. O quadrinho é uma adaptação dos contos do escritor americano Robert E. Howard. Essas HQ’s começaram a ser publicadas pela Marvel a partir da década de 1970, obtendo um grande sucesso. A adaptação inicial dos contos para os quadrinhos ficou por conta do, também estadunidense, roteirista Roy Thomas. E apesar de estar há tanto tempo no mercado, só há alguns meses que comecei a construir a minha coleção, comprando os encadernados da Panini na Banca Central, lá no Mercado Central de João Pessoa, e somente neste fim de semana que me aventurei por suas páginas.

Confesso que na minha infância eu cheguei a ver nos sebos e nas bancas de revistas as velhas edições da Editora Abril da “Espada Selvagem”, porém eu tinha a dura tarefa de escolher, devido à falta de dinheiro, somente uma revista em quadrinhos para comprar, e eu sempre adiava o encontro com o Guerreiro Cimério. Hoje adulto, nos encontramos outra vez, e é claro que tenho uma visão um pouco mais apurada da realidade do que quando era um jovem leitor. Vale lembrar que estes quadrinhos foram publicados na década de 1970 no EUA e no Brasil na década de 1980, com histórias adaptadas das décadas 1920 e 1930. Combinadas, essas informações fazem com que o encontro tão aguardado, inicialmente, seja um pouco decepcionante. Explico: Histórias em Quadrinhos são, majoritariamente, Obras de Arte feitas para o público infantil que, com o passar das décadas, foram sendo adaptadas para o público adulto pelos mesmos consumidores que, já adultos, como artistas, começaram a produzir obras mais maduras do ponto de vista literário. Matutando sobre isso tudo, a inicial decepção foi se tornando um agradável encontro em minha mente, pois, ao invés de encaixar aquele universo na minha “adultice”, eu que me encaixei no universo proposto pelo quadrinho e por consequência fui embarcando nas fantásticas e desafiadoras aventuras do grande bárbaro que chamam de Conan!

Robert E. Howard

Não vou falar aqui para ninguém desligar o cérebro. Não é isso! Mas se faz necessário levar as histórias contidas nas edições da “Espada Selvagem” do Conan como pequenas aventuras da Sessão da Tarde, como os clássicos, “Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida” (1981), “De Volta Para o Futuro” (1985) ou “As Minas do Rei Salomão” (1985), entre tantos outros, nos quais embarcamos em universos maravilhosos guiados por um herói valente, brigão, galã e muitas vezes engraçado que tenta derrotar vilões caricatos e conquistar mulheres lindas e poderosas.

Roy Thomas

É diversão!

Quando fechei o quadrinho, admirei por alguns segundos a sua capa. Sorri! E passando a mão sobre ela, que apresenta uma gravura do bárbaro da Era Eboriana, senti o que sentia quando criança: o abraço festivo da fantasia e a maravilhosa sensação de felicidade em perceber que tenho mais um herói, mais um amigo, para reencontrar e me divertir nas minhas tardes! A única diferença é que, infelizmente, o adulto que sou hoje não arranja um pedaço de madeira em casa e sai imitando o seu herói em batalhas imagináveis pelas ruas do bairro. Mas vontade não falta!

***

Todas estas leituras, e muitas outras que virão, são um prazeroso estudo que estou realizando sobre quadrinhos impressos em preto e branco. Os três citados aqui são exemplos maravilhosos desse estilo e por isso são uma fonte de inspiração sensacional para quem deseja produzir. O que não é preto e branco é o documentário que irei comentar mais em abaixo.

Voltando ao quadrinho “Bob &Harv: Dois Anti-Heróis Americanos”, há também um pequeno texto introdutório de Harvey, no qual o escritor apresenta o amigo Robert Crumb. Ele descreve um pouco da figura controversa do quadrinista, mas conclui, claro, com palavras elogiosas. Robert Crumb é um dos precursores do movimento de quadrinhos underground americanos, dessa forma é, em certa medida, uma grande honra para Harvey ter suas histórias ilustradas por Crumb. Todavia, as palavras utilizadas por Harvey (misógino etc.) me chamaram atenção em seu texto e eu fui pesquisar um pouco mais sobre Crumb. Foi aí que descobri um documentário que narra um pouco de sua vida.

Para minha surpresa, o documentário está completo e legendado no Youtube. Repleto de tons de cinza, “Crumb” (1994) nos apresenta a conturbada vida de um “cabra” que descobriu a arte como terapia ou escape. Acho eu que todo artista, que assistir essa obra, irá se identificar com esse ponto de escape que Robert encontrou para se livrar dos traumas que moldaram a sua vida. Eu, como escritor, já desaguei muitas das minhas frustações e revoltas nos meus escritos. Por outro lado, algo que também me impactou foi justamente a não superação dos traumas que moldaram Crumb como pessoa. Pareceu-me que este ato de desaguar frustações nos traços dos quadrinhos somente ameniza e não cura os abusos vividos em sua infância. Ao perceber isso, ao final da película, me voltei para minha alma e, contente, percebi que as dores que passei não são mais correntes que me aprisionam ao passado, o que parece ser o caso de Crumb.

Tudo isso gerou um ser humano visivelmente quebrado que, para se vingar do mundo, cria personagens psicodélicos e terrivelmente sínicos para zombar deste mesmo mundo que o maltrata. O documentário deixa claro também que, por ser uma pessoa “fora dos padrões” e visivelmente “estranha”, Crumb foi, na sua juventude, bastante rejeitado pelas mulheres. Só que após sua fama, “pois agora tenho poder” como relata, elas passaram a ser “acessíveis” “dando bola pra ele”. Isso fez com que ele passasse a ver as mulheres como seres interesseiros, tratando-as como meros pedaços de carne feitos para aliviar sua sexualidade. Um ponto que me chamou bastante atenção, ficando clara a personalidade quebrada do quadrinista, é a risada nervosa que constantemente ele emite na presença dos seus parentes (mãe e irmãos). Isso me impactou bastante, pois eu passo por isso em certa medida, acho que todos nós passamos, que, ao se deparar com algum parente, muda o comportamento mental e até físico. É incrível perceber como as relações familiares são poderosas e como podem ser imensamente salutares ou danosas na construção de um ser.

Robert Crumb

Em meus pensamentos, retornei a questão já comentada em meus textos sobre a relação obra e autor, em como é preciso saber separar ambos, dentro de um limite, para poder apreciar algo. Crumb não é nenhum santo, nem um demônio! Dentro da sua vida, ele é gentil até com as mulheres que despreza, porém há os tons de cinza como há na vida de todos nós. Cheguei ao final do filme “perturbado” e acho que essa é de fato a proposta do filme. Acho que precisamos sempre dessa perturbação para que a cabeça não se acostume e se provoque diante do marasmo da vida e das relações interpessoais. Mas a conclusão que realmente cheguei foi: o fim de semana passou e eu não descansei!

Revisão textual: Cyelle Carmem

Igor Gregório
Igor Gregório
Nasceu na Parahyba. Escritor por vocação, já publicou vinte e um Folhetos de Cordéis, chegando a ser contemplado com premiações estaduais. Em 2023 publicou seu primeiro de livro de poemas: Alma-de-Gato no Voo da Alvorada. Além do trabalho impresso, tem uma produção ativa nas redes sociais, colunas e em saraus.

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