Hoje

Hoje eu acordei daquele jeito, de um jeito que não cabia dentro de mim mesmo ou até mesmo dentro do mundo. Não sei bem que seria do mundo mesmo ou do meu mundo. Meu mundo que às vezes não tem nada de meu e o mundo que nunca foi meu, às vezes é pela ficção.  Aprendi a criar um mundo onde ninguém mais pode habitar, exceto aquele que é mais íntimo de mim do que eu de mim mesmo.

Hoje eu acordei sem acordar com uma série de ideias na cabeça. Ideias que me fazem pensar e pensar muito nas controvérsias da vida.

De repente, percebi que a minha imperfeição se dá na busca e no desejo ininterrupto de ser perfeito. E descobri que o melhor que há em mim é aquilo que não gostam aqueles que não gostam também de gente cujo limite é o céu, como eu.

Dei-me conta que não me tornarei adulto até que não aprenda a caminhar sozinho. Sozinho. Exatamente, sozinho. Como sou, como vivo, como nasci e como morrerei. Sozinho.

Entendi, por fim, que este que agora alguns chamam de negativo ou demasiadamente crítico, na verdade, é a melhor versão do ser que aprendeu a ver o mundo não com os olhos dos outros, mas com os seus próprios olhos. 

Ademais, me dei conta de que o real precisa ser ficcionado para ser entendido e que muitas coisas que hoje não entendo necessitam de um tempo que talvez nunca o terei para entender. Dizendo de outra forma, há muitas coisas que jamais entenderei, não as entenderei por várias razões.

Há outras coisas, porém, que continuarão existindo mesmo que eu ou qualquer outro ser dito humano consiga entender.

E num milésimo de segundo me dei conta de que as coisas que eu pensava saber, na verdade, só tinha delas pequenas noções, soltas, vagas: a arte, o amor, a vida. 

E num piscar de olhos vi pela primeira vez quanto tempo perco doando sentido as coisas sem nenhuma razão de ser.

Na busca de me curar de mim mesmo sigo tendo mais perguntas do que respostas e perguntas sem o objetivo encontrar respostas: eis a minha perfeição imperfeita.

E para me encontrar me perdendo pergunto pela primeira vez: o que é isso que chamam de vida? O que é mesmo a vida?

A resposta a essa pergunta vai depender do lugar sem lugar onde você esteja agora. É por isso e outras razões que as perguntas são sempre maiores e mais profundas do que as respostas. Resposta de quê? A quê? De quem? Para quem? Por quê? Por que eu acordei hoje exatamente assim? Assim como? Só hoje? Hoje?

Severo Félix
Severo Félix
Paraibano, natural de Areia. Tem formação básica em: Filosofia (UFPI), em Teologia (ICESPI), Pedagogia (UFPB), Letras português (UFPB). É pós-graduado em: Psicopedagogia Clínica e Institucional, Educação Infantil, Educação Especial e Gestão, Supervisão e Direção Escolar. Estudou Espanhol na Pontifícia Universidad católica de Lima, no Peru. Fez curso de Eneagrama pela Diocese de Teresina, PI, é massoterapeuta Ayuveda, é terapeuta Prânico. Reikiano, nível I. É professor de Filosofia e Sociologia da Escola Senhor do Bonfim. Trabalha na educação básica do município de Santa Rita. Leciona componentes curriculares da área de Pedagogia, Filosofia e Teologia em Faculdades Privadas, como: Estácio de Sá, Três Marias, ESAP, Faiara, IEP e IESM. Atua como facilitador na formação continuada de professores da Rede Pública e Privada. É autor dos livros: A escola como ambiente de educação para a alteridade (2018), A arte de morrer (2019), olhares que se intercruzam (2019), Quem (o que) é o homem? (2021), Pedagogia do Cotidiano (2022), Literatura é (e) Transgressão (2023); Literatura da música na Liturgia da vida (20-24); Pedagogias (2024), Vida e Aprendizagem: conversas com quem ama viver e aprender (2025).

3 COMENTÁRIOS

  1. Uma imensidão de clareza e certezas mesmo em meio as dúvidas e as incertezas!
    Somente os seus textos, Severo, para proporcionar isto: Onde a poesia se torna alento da dor.
    Gratidão, por me permitir fazer parte dessa obra tão linda! ❤️

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