InícioColunaA Efervescência da Sétima Arte em Santa Rita

A Efervescência da Sétima Arte em Santa Rita


Desde criança, sempre gostei de cinema. Minha memória afetiva é pungente, lembrando quando eu era levado ao saudoso Cine Avenida, localizado no centro de Santa Rita, na Praça Getúlio Vargas — hoje, uma igreja protestante. Na época, havia em frente ao citado cinema cinco boxes comerciais, carinhosamente chamados de “ondinhas”, devido ao formato da cobertura desses espaços. Ali funcionavam lanchonetes, uma banca de revistas, uma agência de viagens e uma bombonière, conhecida como “fiteiro”. No caso, era o fiteiro de “Seu Tide”, onde me eram comprados palitinhos salgados da Elma Chips e bombons de menta para degustar durante a sessão.

Esse era o ritual toda vez que Renato Aragão e Os Trapalhões lançavam algum filme que chegava à tela do velho Avenida. Lembro perfeitamente até do cheiro daquele lugar, graças às cadeiras todas de madeira — provavelmente mogno. Quando dava o horário do início das sessões, duas pessoas começavam a baixar as portas de rolo que ladeavam o cinema, deixando o ambiente totalmente escuro. O coração acelerava, e um suspiro de ansiedade me tomava.

Quando o projetor era ligado, lembro também dos três comerciais que eram exibidos antes do filme. O primeiro era do Exército Brasileiro (como estamos falando dos anos 1980, ainda estávamos sob o regime da ditadura militar). Depois, vinha um comercial enaltecendo o futebol. O último, cuja marca não lembro, trazia uma mulher de biquíni saindo do mar, causando alvoroço no cinema, com gritos, assobios e comentários calorosos dos homens presentes. Após isso, a tela ficava escura e o silêncio se tornava absoluto. A partir daí, começava o filme. Dos que ainda recordo, assisti Ali Babá e os 40 Ladrões, Os Saltimbancos Trapalhões e Os Trapalhões e o Mágico de Oroz.

Mas o Cine Avenida não foi o único a abrilhantar a sétima arte na Rainha dos Canaviais. Santa Rita se destacava no estado como um dos municípios com maior número de salas de exibição. O primeiro cinema funcionou em 1907, quando o Mercado Público ainda se localizava na Praça Getúlio Vargas, entre a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e a Igreja Matriz. Na época, a praça chamava-se “Praça Dom Pedro II”, e esse cinema pertencia a uma companhia itinerante que exibia filmes mudos e em preto e branco.

Em 1912, o Coronel Francisco Honorato Vergara fundou o Cinema Central, próximo à Prefeitura Municipal, na Rua Juarez Távora. Posteriormente, o cinema passou a se chamar “Cinema Valfredo Leal”, e em 1918 teve seu nome alterado novamente para “Cinema Morse”.

Na sequência, a cidade chegou a contar com sete cinemas funcionando ao mesmo tempo: o já citado Cine Avenida; o Cine São João, na rua de mesmo nome; o Cinema de Toscano, na Praça João Pessoa, esquina com a Rua São João — o mesmo que ficou conhecido como “Cine Alvorada”; o Cine Santa Cruz, no bairro homônimo, popularmente chamado de “Cine Puiga”, cuja foto, restaurada por inteligência artificial, ilustra esta coluna; o Cine São José, que ficava entre o Castanheiro e Várzea Nova; e o Cine Real, situado no Alto das Populares, próximo à Escola Maria Honorina Santiago, cujo proprietário era conhecido como “Sr. Egídio”.

No final dos anos 1990, o Cine São João realizou algumas exibições tentando resgatar o antigo cinema, entre elas o filme Titanic, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

Os cinemas de Santa Rita sucumbiram no fim da última década do século XX, com o surgimento do videocassete e das locadoras de filmes — onde tínhamos o prazer de alugar cinco fitas na sexta-feira para devolver só na segunda. Mas isso é tema para outra crônica.


#Pratodosverem: A imagem destacada é uma foto do antigo Cine Santa Cruz em Santa Rita, Paraíba. A imagem mostra um prédio no estilo Art Decó Singelo, na cor verde, com um alto falante na sua fachada, e abaixo cartazes de filme. A foto foi restaurada por Inteligência Artificial.

Cleyton Ferrer
Cleyton Ferrer
Bacharel em Jornalismo e Radialismo pela UFPB. Cantor. Videasta. Documentarista. Dirigiu e produziu os documentários: Santa Rita Engenho das Artes (2007); Santa Rita Preta (2007); Auto dos Orixás (2023); Juremeiras (2004); Joanna Pé de Chita (2004), onde conseguiu 3 premiações no Festival Nacional do Audiovisual Fest Aruanda (2007, 2023, 2024), dentre outros. Produz contos apócrifos sobre a cidade de Santa Rita para um blog, foi locutor nas rádios Sanhauá AM, Cabo Branco FM, e atualmente apresenta programas musicais na Rádio Tabajara FM.

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