Abrir um texto com frase de efeito: receita rápida para prender o leitor; caldo Knorr, simples e efetivo. Para um paladar voluntarioso, no entanto, que reconhece na hora tempero pronto, há chance forte de não funcionar.
Escrever as primeiras linhas normalmente é delicado. O início inaugura o tom, abre as trilhas do argumento; dispersa a atenção, ou a sequestra. A primeira camada de sabor.
Na cozinha, saborizar é meu forte. Sou dos sabores intensos, mas confusos; que anunciam e dão o tom sem dizer quase nada. Manteiga, alho e gengibre, açúcar, shoyu. Algo para emulsificar, um azedinho para fixar e, pronto, temos um molhinho.
Que me perdoem os cientistas gastronômicos, mas cozinhar é alquimia, é ancestral e é pagão. A palavra é do aqui-agora, mas o convencer é do gesto, da brincadeira, dança contida de uma vida inteira. Convence-se com sal e água, fervendo um macarrão, água do cozimento emulsificando uma canção.
(E se eu fizer uma pequena inversão?)
Palavras vêm e vão na química da transmutação. Cebolinha na finalização; um queijo ralado, talvez. Para quem é desprendido, ideias soltas encontram sentido, mexendo panelas, tecendo mundos, confitando sonhos, decantando legumes. Inícios são tormentosos, mas são a base. Cuide bem deles! Não precisa seguir a receita se ela não convence — vá pela fragrância, pelos sabores; um leitor-beta, uma colherada. Tá gostoso? Daí pra frente, a magia vai se revelando. Cozer histórias, logo se verá, é parir pratos novos de ingredientes velhos-conhecidos: a humanidade é a feira; a panela, o turbilhão.
Foto de capa: Luwadlin Bosman na Unsplash
