É curioso, como majoritariamente, o universo artístico tem representações das mulheres em pinturas, esculturas, gravuras, mas poucas mulheres artistas protagonizaram momentos de relevância social e se destacaram nestas mesmas modalidades artísticas. A arte, em sua essência, é plural e desprendida de exclusões no que se refere a quem a realiza. Porém, sabemos que as convenções sociais, sobretudo ocidental, trataram de colocar a mulher em um papel secundário, silencioso, propositalmente apagado dentro das linhas gerais da História e das conquistas sociais. E qualquer mulher que ousasse se destacar um pouco mais do que lhes era permitido, era rapidamente “contida” e redirecionada para o seu “devido lugar”.
E não se trata apenas de deduções…
Para as mais inquietas, as opções eram das mais variadas e poderiam transitar entre a latrina social ou até mesmo a fogueira. Mas, qual o devido lugar das mulheres na História da Arte? Será que lhes foram destinados apenas às coxias da produção artística? A atuação apenas na figuração de uma rica e ampla história da Arte Universal? Nunca deveriam de fato ocupar o papel de protagonistas da produção artística? Certo que não. E é preciso dizer, mais do que nunca: A produção artística feminina sempre foi efervescente, ousada, revolucionária e inquieta, ainda que muitas tenham sido ignoradas ou diminuídas (inclusive, dentro de seus próprios círculos sociais).
Ser artista sempre foi um ato revolucionário. E ser “artista-mulher”, mais ainda! Trata-se até de um tratado de resistência. De existência. De direito ao ser vista, ouvida e respeitada do jeito que bem desejar ser. Sem a necessidade de ser artista para “agradar”, “encantar”, “enfeitar” o ambiente.
A propósito, vale lembrar: A arte promovida por mulheres não tem a obrigação de ser gentil. Lembremos de Frida Khalo e suas pinturas ácidas, instigantes, inquietantes, que gritavam suas dores e suas insatisfações diante do mundo ao seu redor e das coisas que lhes cercava. Era revolucionária acima das próprias dificuldades. Era teimosa por viver intensamente e sempre!
Lembremos também de Nair de Teffé. Cartunista brasileira, primeira caricaturista mulher do mundo, que deixou de produzir seus trabalhos artísticos após o casamento com Hermes da Fonseca, em 1913. Não seria a primeira vez em que Nair abdicava de suas paixões artísticas, tendo sido ainda solteira proibida por seu pai de exercer sua outra paixão: o teatro. Nair era audaciosa e suas caricaturas eram tão ácidas quanto a sua percepção artística. Ela só voltaria a desenhar suas caricaturas aos 73 anos de idade.
Durante séculos, as tentativas de silenciamento de mulheres-artistas como Nair, Frida, bem como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Artemisa Gentileschi, e tantas outras, sempre existiram: fossem veladas ou não.
Porém, dentro do universo artístico, há um movimento que se mantém em constante atuação e que possui ampla participação feminina. E não falo da Arte acadêmica, mas da arte popular, folclórica. Diversas mestras da Arte popular e do artesanato, estão conquistando espaço, vez e voz! E um movimento artístico que bebe da fonte da arte popular e do folclore, é justamente a Arte Naïf. No Brasil, podemos citar grandes nomes de mulheres associadas à Arte Naif: Maria Auxiliadora, Djanira da Motta. Na Paraíba, podemos citar as artistas Analice Uchôa, Lais Sobreira, Célia Gondim, Patrícia Lucena, Letícia Lucena, Lu Maia, Laucilene Rocha, Val Margarida, Marcia Margarida e Ana Lima – integrantes do Coletivo Mulheres da Arte Naif, fundado em 2022 e atuante no cenário das artes visuais, seja dentro do Estado da Paraíba como também em exposições nos estados de São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro.
E esta atual geração de artistas-mulheres-artistas também se apresentam como incentivadoras, influenciadoras das novas gerações, por meio das cores, da criatividade e resistência.
Reconhecer que a atuação das mulheres no universo artístico (sobretudo das Artes Visuais, com a devida valorização técnica e estética) não é apena uma ação de reparação Histórica, por séculos de apagamento. Trata-se de um avanço. Um tratado sobre a pluralidade artística e refinamento da produção de todas as mulheres da Arte, ao longo de toda a História da Humanidade. Valorizar a trajetória destas mulheres é também pavimentar o solo da história artísticas, cultural e social, por meio da própria existência do feminino.

Parabéns pela sua representatividade, nestas palavras edificando nós mulheres guerreiras no mundo artístico, muitas de nós resiliente em suas trajetórias , lutando contra tabus sociais e machismo dentro do seu próprio lá, Lais Sobreira você me representa 👏👏👏👏👏 Letícia Lucena.