O Brasil foi surpreendido, mais uma vez, por um episódio de intolerância religiosa escancarada — ocorrido justamente no lugar onde se espera acolhimento e respeito: o púlpito de uma igreja. No último domingo, dia 27 de julho de 2025, o padre Danilo César, pároco de Areial, no agreste da Paraíba, proferiu uma homilia que viralizou por suas declarações ofensivas e discriminatórias, transmitidas ao vivo pelas redes sociais e pelo YouTube. Entre os trechos mais chocantes, usando como pano de fundo a recente morte da cantora Preta Gil, o sacerdote questiona: “Gilberto Gil fez orações aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil?” — insinuando que religiões de matriz africana seriam ineficazes, malignas ou associadas ao sofrimento. Em tom ainda mais grave, afirmou que “seria bom que o diabo levasse” católicos que recorrem a religiões afro-brasileiras. Trata-se de um discurso que ultrapassa os limites da orientação espiritual e adentra o campo do racismo religioso.
Racismo religioso não é opinião, é crime
A chamada “intolerância religiosa” muitas vezes é usada como eufemismo para um crime que tem nome e previsão legal: racismo religioso. Segundo o artigo 20 da Lei nº 7.716/89, incitar o preconceito por motivos de religião é crime punível com reclusão. E quando isso ocorre por meio das redes sociais, como neste caso, a pena é aumentada. Ou seja: publicar declarações ofensivas como essas em vídeos e transmissões públicas pode levar a até cinco anos de prisão e multa.
É preocupante ver defensores do padre alegando que ele “apenas seguiu a doutrina católica” e “orientou seus fiéis”. Mas esse argumento desmorona diante dos próprios ensinamentos da Igreja Católica. O Catecismo da Igreja afirma que todas as religiões buscam, ainda que sob sombras e imagens, a verdade divina e merecem respeito profundo. O documento “Nostra Aetate”, do Concílio Vaticano II, declara que a Igreja “nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo”.
Constituição e respeito: limites para o púlpito
Vivemos em um Estado laico, onde nenhuma religião está acima da Constituição. O artigo 5º garante a liberdade de culto e o direito à proteção contra discriminação. E mais: a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. Portanto, o discurso de ódio travestido de pregação não encontra respaldo nem na fé nem na lei. Além disso, a Lei 7.716/89 (Lei Caó), considera crime de racismo qualquer ato de discriminação e preconceito motivado por raça, cor, etnia, religião, ou procedência nacional. Inclusive, nesse caso do padre na paraíba, as declarações contra religiões de matriz africana podem configurar racismo religioso, conforme o artigo 20 da mesma lei, que criminaliza a incitação ao preconceito por religião.
O artigo 20, §2º da lei caó estabelece que: “se qualquer dos crimes previstos neste artigo for cometido por intermédio dos meios de comunicação social, de publicação em redes sociais, da rede mundial de computadores ou de publicação de qualquer natureza, a pena será de reclusão de dois a cinco anos e multa.” Ou seja, a pena é aumentada quando o racismo é praticado por meio de: Redes sociais (instagram, facebook, tiktok, You Tube etc.)
Hipocrisia e silêncio seletivo
Curiosamente, o mesmo padre que se levanta contra religiões afro-brasileiras não dirige uma única palavra de exortação contra escândalos envolvendo membros da própria Igreja: sacerdotes acusados de corrupção, pedofilia ou desvios milionários de verbas públicas, como no caso do seu companheiro de batina, que foi condenado por desvia milhões de um hospital filantrópico em João Pessoa, PB. O silêncio sobre isso é ensurdecedor — e revelador.
A sociedade precisa se perguntar: até quando outras crenças serão atacadas por líderes religiosos que se esquecem do mandamento fundamental do amor ao próximo? A fé deve construir pontes, não muros. Respeito, caridade e humildade são pilares de qualquer espiritualidade autêntica. Que não deixemos as vozes do preconceito se tornarem norma — e que a justiça se faça presente também nos altares.
Consequências sociais do racismo religioso
O racismo religioso não atinge apenas o âmbito jurídico — ele destrói pilares fundamentais da convivência social:
- Estigmatização de comunidades inteiras: Ao associar religiões afro-brasileiras ao mal ou ao sofrimento, reforçam-se estereótipos que marginalizam milhões de brasileiros. Isso pode levar à exclusão de fiéis no ambiente escolar, profissional e comunitário.
- Reprodução da violência simbólica e física: Falas como a do padre legitimam práticas de perseguição, agressão e destruição de terreiros — como já ocorre em diversos estados, muitas vezes com apoio ou omissão de autoridades locais.
- Rompimento de laços inter-religiosos: Em vez de promover o diálogo, tais discursos criam divisões e fomentam animosidades entre comunidades que poderiam coexistir com respeito. O Brasil perde em diversidade e enriquece tensões sociais.
- Afeta a formação da identidade: Jovens praticantes de religiões de matriz africana podem internalizar o preconceito, sentindo vergonha ou medo de se expressar religiosamente — o que compromete sua autoestima e pertencimento cultural.
O racismo religioso é o reflexo de uma desigualdade histórica
Religiões afro-brasileiras carregam séculos de resistência à escravidão, colonização e apagamento cultural. O preconceito contra elas é fruto de uma hierarquia imposta historicamente, em que o cristianismo europeu foi alçado ao status de “civilizador” e tudo o que dele diverge é tratado como inferior ou ameaçador.
O Catecismo da Igreja Católica, o documento “Nostra Aetate” e a Constituição Federal do Brasil são claros: fé não deve ser instrumento de exclusão, e todos têm o direito à crença ou à descrença. Defender a dignidade humana é, ou deveria ser, o objetivo final de qualquer prática religiosa. A sociedade brasileira precisa abrir os olhos e os ouvidos. Não basta repudiar com um comentário online — é preciso agir, denunciar, educar e transformar. Porque o racismo religioso não é apenas uma ofensa — é um veneno que corrói os valores democráticos e humanos que sustentam nossa convivência.
#Pratodosverem: A imagem destacada desta publicação, foi gerada por IA e retrata um padre no interior de uma igreja católica, em um púlpito de madeira, vestindo uma casula verde, com semblante bravio e mão erguida fazendo discurso. à sua frente, um telefone celular transmitindo em live.
