A morte de Mãe Rita Preta de Oxalá, aos 100 anos, em Santa Rita, na Região Metropolitana de João Pessoa, encerra um ciclo histórico e simbólico das religiões de matriz africana no Brasil. Reconhecida como a mais idosa Mestra Juremeira do mundo, pois o culto da Jurema Sagrada já é difundido em diversos países, sua vida e atuação foram fundamentais para consolidar a Umbanda e a Jurema como expressões culturais e espirituais de resistência no Nordeste.
Nascida em Pernambuco, na cidade de Lagoa Seca, Mãe Rita chegou à Paraíba, para a cidade de Santa Rita, na década de 1940 e logo se tornou referência nos terreiros, sendo co-fundadora Federação de Cultos Africanos e enfrentando, o preconceito e a perseguição religiosa que marcaram os anos 1960. Sua trajetória foi pautada pela defesa da liberdade de culto e pela valorização das tradições afro-indígenas, em um período em que o Estado ainda criminalizava práticas religiosas de matrizes africana e indígena. Além de referência nos terreiros, Mãe Rita também tornou-se referência no bairro onde passou boa parte da sua vida, mais de 50 anos, o Bairro da Santa Cruz em Santa Rita, realizando de forma simples e discreta ações sociais, como a alfabetização de jovens e adultos, além de corroborar ao combate à insegurança alimentar de muitas pessoas que moram ou já moraram no bairro. No terreiro, ela acolheu e educou muitas meninas em situação de pobreza, atuando como professora comunitária para diversas outras. Como Juremeira de mesa branca, chegou a Santa Rita em um período em que o bairro Santa Cruz ainda era chamado de bairro da Viração. Logo se aproximou de Carlos Leal Rodrigues, recém-chegado do Rio de Janeiro, que tinha como objetivo fundar uma Federação voltada para a defesa da liberação dos cultos umbandistas na Paraíba. Juntos, participaram de encontros, congressos e campanhas, sempre empenhados em garantir os direitos das religiões afro-brasileiras e sua legitimidade. Mesmo diante de perseguições e obstáculos, Mãe Rita manteve firme sua atuação, tornando-se referência na luta pela liberdade religiosa e pela valorização das tradições de matriz africana.
A força de sua liderança ultrapassou os limites do terreiro. Mãe Rita foi personagem central em pesquisas acadêmicas, documentários e livros que registraram sua memória e saberes, como o documentário: “Santa Rita Preta” de Cleyton Ferrer (link no final da matéria) e o livro: “Cultos Afro-Paraibanos, Jurema, Umbanda e Candomblé” de Valdir Lima, além de estudos etnográficos que destacaram sua importância como guardiã da oralidade e da ancestralidade. Em 2025, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba, reconhecimento institucional à sua contribuição cultural e espiritual. O Templo de Umbanda Caboclo José de Andrade, onde Mãe Rita atuou durante maior parte da sua vida, foi inaugurado em 1966, marcando o fim de um período de clandestinidade. A partir desse momento, Mãe Rita consolidou-se como uma figura de referência na militância religiosa, na prática da caridade e no acolhimento espiritual, tanto em Santa Rita quanto em outras regiões da Paraíba. Desde os anos 1990, sua trajetória passou a ser objeto de estudo em diversas dissertações de mestrado, teses de doutorado, artigos acadêmicos, pesquisas, filmes e projetos culturais. Cada produção buscou, à sua maneira, compreender a relevância do legado de Mãe Rita e o impacto de suas ações na valorização da Umbanda e da Jurema no estado.

Sua história, marcada por resistência e dedicação, transformou-se em símbolo da luta pela liberdade religiosa e pela preservação das tradições afro-brasileiras. Sua vida também foi marcada pelo cruzamento de tradições: a Umbanda, o catolicismo popular e a ciência encantada da Jurema. Essa pluralidade fez de seu terreiro um espaço de acolhimento, cura e resistência, onde se preservavam rituais, cantos e saberes transmitidos de geração em geração.
O velório acontece no Terreiro de Jurema e Umbanda Caboclo José de Andrade, no bairro Santa Cruz, e o sepultamento está marcado para esta quarta-feira, às 16h, no cemitério da cidade. A despedida de Mãe Rita Preta é também um momento de reafirmação da memória coletiva do povo de terreiro, que encontra em sua história um exemplo de fé, coragem e luta contra o apagamento cultural. Sua partida deixa uma lacuna, é um livro vivo de sabedoria que se fecha, mas seu legado permanece vivo como símbolo da resistência das mulheres negras e sacerdotisas que, ao longo do tempo, enfrentaram o racismo, o patriarcado e a intolerância religiosa para garantir que a Jurema e a Umbanda continuassem a florescer na Paraíba, no Brasil e no mundo.
Crédito das fotos: Cleyton Ferrer
Links para os vídeos:
DOCUMENTÁRIO SANTA RITA PRETA: CINE SANTA RITA
CENTENÁRIO DE MÃE RITA PRETA: DOCUMENTÁRIO
DRa. HONORIS CAUSA MÃE RITA PRETA: REPORTAGEM
