Sem dúvidas, as festividades juninas — ou período “joanino” — representam o ciclo festivo mais longo do Brasil. É a única celebração nacional com pré e pós, marcando praticamente todo o calendário do inverno nordestino. Entre fogueiras, novenas, trezenas, procissões, levantamentos de estandartes, bandeirolas e quadrilhas, a cultura popular pulsa com força, principalmente no Nordeste.
O “Esquenta” de São João
Poucos sabem, mas o aquecimento das festas começa em 19 de março, no dia de São José. É neste dia que muitos acendem a primeira fogueira do ano e rezam pedindo chuvas para a colheita do milho — cereal símbolo da festa e ingrediente indispensável nos pratos típicos juninos. Era também o momento em que começavam os ensaios das quadrilhas.
A Fogueira de Santo Antônio
Em 13 de junho, é celebrada a segunda fogueira, no dia de Santo Antônio, o famoso “santo casamenteiro”. As rezas ganham força, acompanhadas pelas tradicionais adivinhações populares. Entre elas, destaca-se a faca virgem fincada no tronco da bananeira para revelar letras do nome do futuro pretendente, ou a bacia com água à beira da fogueira onde se vislumbra a silhueta da pessoa amada. Folclore vivo!
O Grande Dia: São João
O 24 de junho é o auge das comemorações. Quadrilhas se apresentam, fogos iluminam o céu, e as famílias se reúnem para preparar delícias à base de milho: pamonha, canjica, mungunzá, pipoca, bolo, angu, milho cozido — tudo feito coletivamente. Pude presenciar na minha família essa tradição, na minha infância, onde as funções eram hierarquizadas: os homens ralam o milho e o coco, acendem a fogueira; as mulheres costuram as palhas, cozinham e fazem arte com os sabores. Uma tradição que, infelizmente, vem sendo substituída pela praticidade de comprar alimentos prontos e celebrar de forma mais dispersa e individual.
O Pós-Junino: São Pedro
Assim que as louças do São João são lavadas, chega o 29 de junho, dia de São Pedro, e em muitos lugares onde ele é padroeiro, as festas rivalizam com as de São João. Fogueiras, rezas, quadrilhas e comidas voltam à cena em uma repetição vibrante dos rituais.
O Encerramento: Sábado de Santana
O ciclo junino só se encerra de fato no último sábado de julho, com o tradicional Sábado de Santana. É o dia da última fogueira, mais uma vez acompanhada de comidas típicas e danças. Era comum que cada quadrilha se apresentasse em sua própria palhoça — como uma despedida artística do ano junino. A partir daí, começa a preparação para o ciclo seguinte.
Quem foi Santana?
Santa Ana foi mãe da Virgem Maria e avó de Jesus Cristo. Segundo os textos apócrifos, foi filha de Natã e Maria, irmã de Sobé (mãe de Isabel, mãe de João Batista), e esposa de São Joaquim. Após anos de esterilidade, deu à luz Maria por volta de 20 a.C.
O culto a Sant’Ana teve início no Oriente. No século VI, o imperador Justiniano mandou construir um templo em sua homenagem em Constantinopla. A devoção se espalhou pela Europa e chegou às Américas. Em 1584, o Papa Gregório XIII instituiu sua festa no dia 26 de julho, fazendo do mês o “Mês de Santa Ana”.
Sant’Ana é padroeira das mulheres casadas, especialmente grávidas, além de protetora das viúvas, navegantes e marceneiros. Teria falecido pouco após apresentar Maria no Templo, quando a filha tinha apenas três anos.
Uma Reflexão Necessária
Apesar de fechar o ciclo junino, a celebração de Santana segue pouco valorizada em comparação aos santos homens (Antônio, João e Pedro), reflexo de uma cultura hegemônica que ainda invisibiliza figuras femininas. Relembrar e revalorizar o papel de Santa Ana é também preservar a memória das mulheres que alimentam, celebram e sustentam nossa cultura.
Se esta história te tocou — seja por nostalgia, descoberta ou valorização — compartilhe! Vamos reacender a fogueira do “Sábado de Santana” e manter viva essa tradição brasileira tão rica.
#Pratodosverem: A imagem destacada foi gerada por IA, e trás um terreiro de uma casa em período noturno, em segundo plano e leve desfoque uma grande fogueira ao centro iluminando a noite, e bandeirolas juninas coloridas penduradas. Em primeiro plano, estandartes coloridos ornados de tecido de chita, com as imagens em sequência: São José, Santo Antônio, São João, São Pedro e Santa Ana.
