InícioColunaA Antiga Tradição do Mastro na Comunidade do Gargaú

A Antiga Tradição do Mastro na Comunidade do Gargaú

Na comunidade do Gargaú localizada na zona rural de Santa Rita, também conhecida como Pirpiri, durante o período junino, era mantida por algumas famílias que ali residiam, inclusive a minha, a tradição do mastro. Para escrever sobre essa tradição popular, recorro aqui novamente ao campo da memória. Desta vez, são memórias compartilhadas pela minha avó que na juventude foi moradora do local e auxiliava sua mãe, minha bisavó, a enfeitar o mastro.

De acordo com Câmara Cascudo, a tradição do mastro de São João é realizada de norte a sul do Brasil e apresenta particularidades. Enquanto em algumas comunidades o mastro é erguido em frente à igreja acompanhado de música, canto e fogos. Em outros, existem apenas o levantar da bandeira. O folclorista afirma que os mastros votivos são reminiscências dos cultos agrários, se configurando como uma forma de agradecimento a fecundação das sementes. Na Europa, o ritual era realizado durante o solstício do verão em “culto ao poder germinativo da terra” e era celebrado com bailados e mastros.

 A comunidade do Gargaú, portanto, havia herdado essa tradição e tive conhecimento da sua maneira de celebrar através da minha avó. Certo dia, enquanto conversávamos, ela rememorou de forma saudosa os festejos juninos na época em que ainda morava no Gargaú, onde a família se reunia em torno de um longo pedaço de madeira decorado com muitas fitas coloridas, transformando-o num típico mastro junino. Através das lembranças da minha avó, Dona Lourdes, pude perceber que existia um ritual que era dividido em quatro momentos. Primeiro começava pela decoração do mastro, seguido pelo hasteamento, seu “roubo” e concluía-se com a procissão.

Após a finalização da decoração do mastro, era feito o seu hasteamento na frente da casa da família com o objetivo de ser “roubado” por outra família da vizinhança na véspera da noite de São João. O mastro, então, deveria ser entregue à mesma família no ano seguinte em procissão e louvor a São João. Infelizmente, a tradição da procissão se perdeu com o passar dos anos, mas a do mastro, para a minha surpresa, parece se manter, pois em passagem pela região em 2021, avistei pela primeira vez. Lembrei imediatamente das conversas com minha avó e fiz um registro. O mastro estava lá, cercado de bandeirinhas e em sua ponta havia a imagem do menino mais cultuado no nordeste durante o mês de junho.  Quando cheguei em casa, mostrei a foto a minha avó. Aquele momento para mim, era a materialização das lembranças que ela compartilhou comigo carregadas de fé e devoção e agora compartilho com vocês. Viva ao Senhor São João!

Mastro na Comunidade do Gargaú, registro feito pela autora

Referência:

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 12. ed. São Paulo: Global, 2012.

Edryelle Marques
Edryelle Marques
Graduanda em História, atua no Grupo Acauã como pesquisadora e produtora cultural, integrou a equipe de organização do I e II Encontro de Coco de Roda, Ciranda e Mazurca e da I Pisada de Cavalo Marinho, Boi de Reis e Reisado da PB.

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