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Uma Revolução Chamada Anayde Beiriz

Anayde Beiriz. Quando cito esse nome, qual a primeira coisa que lhe vem à cabeça? Mulher de João Dantas, sensual, devassa? Ou mulher livre, que teve sua vida íntima e amorosa exposta em cartas publicamente?

Por diversos anos, a escritora foi injustamente julgada e apagada como mulher, poeta e professora. Anayde Beiriz é a fala de mulheres silenciadas, a coragem diante da opressão. Portanto, quero enfatizar sobre a verdadeira Anayde da Costa Beiriz e sobre sua importância para a literatura paraibana.

Ela nasceu na Parahyba do Norte, em 18 de fevereiro de 1905, era filha de Maria Augusta de Azevedo e de José da Costa Beiriz, este tipógrafo do Jornal A União. Seus irmãos eram Antônio, Helena e Maria José. Em 1928, foram morar na Rua Santo Elias, nº 176, Centro de João Pessoa-PB. A casa foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP) e uma placa foi colocada em frente à residência, com informações sobre quem residiu no local, por sua importância histórica para o Estado da Paraíba. No entanto, atualmente o imóvel abriga uma loja de roupas, devido ao grande movimento do comércio na área, e a placa já não se encontra mais.

Última casa em que Anayde morou e a placa indicativa.

As mulheres da Paraíba devem conhecer Anayde, a Pantera dos Olhos Dormentes, como ficou conhecida o furacão que chacoalhou as estruturas do machismo nas décadas de 20 e 30. Quanto ao apelido que lhe atribuíram, ela relata em carta:

A “pantera” teve uma forte influência na cultura literária produzida na Parahyba e na construção de novas formas de acesso à educação, na década de 20. Formou-se na Escola Normal em 1922 como a primeira da turma, com apenas 17 anos. Logo depois passou em concurso público para professora. Educadora, com o olhar voltado para a real necessidade da educação, Anayde foi precursora da Educação de Jovens e Adultos (EJA), e tentou sanar a necessidade de uma sociedade carente em educação escolar, como forma de crescimento social e melhoria da vida profissional da sociedade paraibana. Lecionou na Escola de Pescadores da Colônia Z2, em Cabedelo, onde permanecia de segunda à sexta. Exerceu o magistério de 1922 a 1930, numa época em que, na Parahyba de 1927, 77,7% da população era constituída por analfabetos. Até o começo dos anos 30, o número de alunas era metade do número de alunos.

A professora e poeta era defensora do voto feminino e do livre arbítrio da mulher em todas as esferas. Em pequeno artigo, Anayde escreveu:

Anayde vivia a arte e transpirava arte em todos os momentos da vida, seja amando alguém, seja escrevendo, ou recitando. Ela era intensa e, para a época em que viveu, era “fora de tom”, exagerada demais. Nesse sentido, a poeta sabia que seu comportamento incomodava a sociedade machista da época, dizendo:

A jovem escritora escrevia para jornais locais e de Recife, e para revistas literárias, de Pernambuco, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Seus textos eram publicados na Revista “Era Nova”, que circulou na Parahyba nos anos 1920, assim como na “Revista da Semana”, que dialogava com o Movimento Modernista. Chegou a contribuir como jornalista da “Revista da Cidade”, em Recife-PE. Nos finais de semana, frequentava saraus lítero-dançantes e nessas ocasiões recitava poemas. Fez parte do grupo “Os Novos”, em que discutia literatura, artes e política, como a única mulher.

Em 1983, foi lançado o filme “Parahyba Mulher Macho”, dirigido por Tizuka Yamazaki e inspirado no livro “Anayde: Paixão e Morte na Revolução de 30”, de José Joffily (1980). Poderia ter sido uma grande obra cinematográfica que celebra a mulher genial, corajosa e escritora criativa que foi Anayde Beiriz. Porém, o filme tomou proporções desastrosas quando apresentou uma mulher bastante sexualizada, que vivia o amor com João Dantas, como se a importância dela dependesse somente da existência dele. Nenhuma menção à sua obra artística foi citada. Além disso, após o lançamento da película, Helena, a irmã da jovem, entrou com ação judicial na 1ª Vara Cível da cidade, em 1985, contra a diretora por apresentar inverdades e calúnias que nunca aconteceram, como estupro e nudez de Anayde, e deturpar as personalidades retratadas. Para piorar a situação, que já era lamentável, o folder de divulgação retrata, vulgarmente, as pernas abertas de uma mulher, representadas pela letra M do título do filme. Dessa forma, temos uma rápida ideia de como Anayde, interpretada por Tânia Alves, teve seu corpo sexualizado e sua feminilidade invadida.

Acerca desse trágico lançamento cinematográfico, Marcus Aranha (2005) aborda de maneira bastante enfática, em várias páginas de seu livro “Anayde Beiriz: pantera dos olhos dormentes”, como o filme tragou a verdadeira história de Anayde e a reduziu mais uma vez à amante de João Dantas, sem atribuir-lhe sua real importância para a educação e para a literatura. No mais, Aranha se ateve às cartas amorosas da escritora para um namorado.

Já o livro de José Joffily (1980), “Anayde: Paixão e Morte na Revolução de 30”, aborda mais profundamente os desdobramentos da Revolução de 30 que eclodiu após o assassinato do Presidente João Pessoa e as mortes de João Dantas e de Anayde Beiriz.

Sem descartar a importância das obras citadas, considero o livro “Anayde Beiriz: a última confidência”, da produtora cultural Valeska Asfora (2022), como um divisor de águas quanto a informações mais claras objetivas e inéditas sobre Anayde. O livro contém detalhes da obra e da vida de Beiriz, e abriu portas para que pudéssemos saber mais sobre essa escritora paraibana forte e necessária. Valeska traz vários contos e poemas ainda inéditos, publicados somente nas revistas citadas anteriormente e outros de posse da família. Algumas produções foram das poucas salvas e mantidas pela família, com quem a autora conseguiu contato e teve acesso a esse novo material para as novas gerações poderem conhecer e se aprofundarem na raiz cultural paraibana, libertadora e potente que é Anayde. A autora também dá ciência acerca das cartas de despedida que Anayde deixou para a mãe, para a irmã e para o Chefe de Polícia, isentando de sua morte as freiras do Asilo, assim como divulga no livro as notícias dos jornais sobre seu falecimento e o manuscrito de Registro de Óbito.

Para a mãe Maria Augusta, ela escreveu:

Quanto ao livro “Anayde Beiriz: rememorando a vida e a história”, de Francisca Vânia (2023), professora, escritora e mestra em Letras, a autora aborda os efeitos do patriarcado e do machismo dos anos 20 e 30 na vida das mulheres, principalmente na vida de Anayde Beiriz. Tais efeitos influenciavam diretamente no direito de ir e vir da poeta, uma vez que era malvista como a mulher que anda desacompanhada, que dança com colegas homens nos saraus lítero-dançantes e recitava poemas que causavam espanto, pelo teor amoroso e sedutor.

Assim, por viver com total liberdade e ser companheira de João Duarte Dantas, seu nome foi envolvido na Revolução de 30, como motivadora principal do assassinato de João Pessoa cometido por Dantas, como resposta ao arrombamento do apartamento do advogado, realizado pela polícia do Presidente, localizado na Rua Duque de Caxias, de onde foram extraídos documentos e cartas pessoais. Estas, direcionadas ao namorado, de conteúdo íntimo e erótico, foram expostas à leitura pública em uma delegacia da polícia.

Acuada, ela abandonou a sua residência na Parahyba e foi morar em um abrigo, em Recife, onde passou a visitar João Dantas, detido em flagrante e recolhido à Casa de Detenção daquela cidade. Porém, a vida do advogado não duraria muito. Após a morte de Dantas, poucos são os textos de Beiriz que escaparam da fogueira da moral imposta pela sociedade paraibana da época.

Por não suportar mais tamanha perseguição e exposição de sua vida, tomou veneno e morreu em 22 de outubro de 1930, no Asilo Bom Pastor, em Recife, com 25 anos de idade. Ela pagou com a vida a vontade de viver com liberdade, quando não se permitia tê-la. Foi enterrada no Cemitério Santo Amaro como indigente, conforme Certidão de Óbito nº 2585, Fls. Nº 21, Distrito de Afogados.

Assim, Anayde Beiriz nos ensina até hoje sobre resistência, liberdade, coragem e direitos femininos garantidos. Essa importante mulher paraibana precisa ser lembrada como deve: escritora atuante nos saraus, publicada em jornais com poemas, contos e artigos e professora, formada aos 17 anos, que contribuiu grandemente com a educação, a cultura e a luta por direito ao alfabetismo de crianças, jovens e adultos, e por direitos das mulheres.

REFERÊNCIAS:

Aranha, Marcus. Anayde Beiriz: pantera dos olhos dormentes. João Pessoa: Manufatura, 2005.

Asfora, Valeska. Anayde Beiriz: a última confidência. João Pessoa: Editora A União, 2022.

Bezerra, Sabrina. Anayde Beiriz em quadrinhos. Ilustrações de Américo Filho. João Pessoa: Patmos Editora, 2016.

Joffily, José. Anayde: paixão e morte na Revolução de 30. Rio de Janeiro: Record, 1983.

Vânia, Francisca. Anayde Beiriz: rememorando a vida e a história. Cajazeiras: Editora Arribaçã, 2023. (Coleção Anayde Beiriz)

Yamazaki, Tizuka. Parahyba, Mulher Macho. Audiovisual. Duração: 1h28min, 1983.

Cyelle Carmem
Cyelle Carmem
Nascida na capital da Paraíba. Licenciada e Mestra em Letras pela UFPB. Escritora, possui livros de poesias e romance publicados desde 2010. Foi membro-fundadora do Núcleo Literário Caixa Baixa, criado em janeiro de 2011. Em 2013, o livro de poesia "(Uni)verso" foi selecionado pelo edital da Funjope. Com as obras, a autora participa de eventos culturais na Paraíba, como saraus, feiras literárias, rodas de conversas, clubes de leitura

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